Crítica | King Kong (2005)

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estrelas 4

Peter Jackson, quem te viu, quem te vê! O diretor, que começou de forma humilde com as trasheiras divertidas de baixo orçamento Trash – Náusea Total, Conheça os Feebles e Fome Animal, não demorou para graduar para algo mais sofisticado com Almas Gêmeas e repleto de efeitos especiais com Os Espíritos, somente para, ato contínuo, tomar o mundo de assalto com seu sucesso inacreditável em filmar a antes infilmável Trilogia O Senhor dos Anéis, mostrando sua capacidade de adaptar a mais famosa obra de fantasia da literatura em sensacionais filmes que, de quebra, revolucionaram a tecnologia cinematográfica.

O que, então, o diretor poderia fazer depois de rapidamente alcançar o panteão dos diretores de blockbusters mais respeitados do mundo? A resposta foi a volta a uma de suas suas obsessões de infância e juventude: King Kong. Jackson assistira o original de 1933 ainda com tenra idade, apenas 9 aninhos, e passou a não só tentar refilmar a obra usando a câmera de seu pai, como a colecionar tudo relacionado com o filme. Depois de Os Espíritos, a Universal Studios ofereceu a possibilidade dele dirigir um remake de seu filme favorito, mas Jackson acabou negando, pois já estava em negociações para lidar com O Senhor dos Anéis. No entanto, com a demora na aquisição dos direitos, ele acabou voltando à Universal e começou a efetiva produção de King Kong até que, em 1997, o próprio estúdio, preocupado com a concorrência dos vindouros Godzilla, Poderoso Joe e O Planeta dos Macacos, encerrou os trabalhos. E foi uma enorme sorte, pois isso abriu espaço em sua agenda para que ele pudesse embarcar de vez na obra de Tolkien, agora com os direitos resolvidos e, depois, voltar ao projeto do gigantesco símio.

Com seu estabelecimento na categoria de diretores que fazem o que querem, o retorno de Jackson à Universal veio com exigências. Ele não mais queria filmar o roteiro que havia sido originalmente aprovado pelo estúdio, que quase não era uma refilmagem, mas sim um novo filme com o monstrão e negociou um orçamento de cair o queixo de 175 milhões de dólares para uma refilmagem de época, literal e integralmente voltando ao material fonte. A essa altura, que estúdio negaria algo a ele, não é mesmo?

Arregaçando as mangas e praticamente sem descansar depois do encerramento das filmagens da Trilogia O Senhor dos Anéis, Jackson, Fran Walsh, Philippa Boyens e a WETA engataram no trabalho em King Kong como três locomotivas movidas a café com energético, guaraná e açaí, convertendo uma obra em stop motion de rápidos 100 minutos em uma extravagância em computação gráfica de mais de três horas. O objetivo era ambiciosamente simples: recriar o senso de deslumbramento que o primeiro filme claramente causou quando de seu lançamento. E de certa forma – e friso o “de certa forma” – eles conseguiram. Entregaram um filme respeitoso ao original, que passa longe da bobagem da primeira refilmagem de 1976 e que faz ótimo uso do CGI para recriar o enorme símio – pela primeira vez como um gorila efetivamente, não como um versão híbrida humanoide do animal – a Ilha da Caveira e seus outros monstros e, claro, toda a climática e clássica sequência em Nova York.

Mas, no processo, Jackson e companhia se empolgaram, já dando a entrever aquilo que não muito tempo depois mancharia a carreira do cineasta: o exagero pelo exagero que ele despeja na Trilogia O Hobbit, o ápice do descontrole criativo causado por húbris e incapacidade de auto-crítica. King Kong, porém, mesmo com seus problemas, ainda é um filme do mais alto gabarito, que demonstra a capacidade de Jackson de contar uma história relevante com visuais arrebatadores. E a principal razão para essa qualidade repousa no roteiro dele, Walsh e Boyens, que volta e acrescenta ao original, emprestando mais camadas à trinca principal formada por Naomi Watts como a atriz de vaudeville Ann Darrow, Jack Black como o inescrupuloso cineasta Carl Denham e Adrien Brody como o heroico e apaixonado dramaturgo Jack Driscoll.

Ao colocar a Grande Depressão claramente como pano de fundo, o roteiro justifica a penúria e desespero da bela Ann, sua devoção ao grande teatro aqui encapsulado pela figura de Driscoll (no original, o personagem era apenas o imediato do navio que a leva até a ilha) e a força da natureza que é o ambicioso Denham em sua última tentativa de mostrar que ainda tem fôlego para criar uma grande obra, com sua marca autoral. Os arcos dramáticos deste três personagens, especialmente de Ann Darrow, que cresce exponencialmente ao longo da projeção (ela é praticamente o oposto de Dwan da refilmagem de 1976), é o que dá o estofo a essa aventura clássica que, por mais longa que seja, torna impossível ao espectador desgrudar os olhos da tela.

Desde os minutos iniciais, com a recriação da Nova York dos anos 30 em seus mínimos detalhes, com muita miséria e pobreza cobrindo do Central Park à Broadway, com cuidado extremo aos figurinos e uma paleta de cores ao mesmo tempo que nos remete aos filmes da época, mas traz uma luz que tenta dar esperança aos personagens, passando pela caracterização de Darrow e Denham como dois clichês opostos – uma inocente e altruísta, o outro maquiavélico e egoísta -, até a entrada de Driscoll como um renomado, mas completamente perdido dramaturgo, mergulhado em suas obras até ver a luz que vem de Darrow, a obra de Peter Jackson emana vida, mas não a vida exatamente como ela é, mas sim a vida idealizada de uma era na história americana em que a esperança vinha na forma do entretenimento das massas, para desviar a atenção das mazelas. É um primeiro terço que cria espetáculo sem sufocar o espectador, contando uma história baseada em arquétipos conhecidos, mas mesmo assim bem costurada e inteligente, com um elenco muito confortável em seus papeis, mesmo que o espectador demore um pouco a aceitar Jack Black como uma figura no limite do asqueroso.

Quando a ação passa de Nova York para a Ilha da Caveira, o “espetáculo pelo espetáculo” começa, ainda que as sequências iniciais deste segundo terço, com a descoberta da tribo nativa e o sequestro de Ann sejam momentos que fariam inveja nos melhores filmes de horror da atualidade. Há tensão no ar e Jackson sabe manipular sua câmera para pegar o espectador de surpresa, por vezes borrando a objetiva e com movimentos rápidos, desnorteadores. Quando, porém, Ann é capturada por Kong, a grande aventura descerebrada começa e o diretor, então, solta seus magos da pós-produção em sequências e mais sequências frenéticas de pancadaria entre homem e animal, animal e animal e, claro, homem e inseto, em algo que vai de um fôlego só até finalmente o grande e poderoso símio ser capturado.

Essa uma hora de projeção cansa o espectador. Leva-o à exaustão, arriscaria dizer, e não pela sucessão de lutas apenas, mas sim pela forma como Jackson usa suas câmeras para nos colocar no meio da pancadaria. Há muita movimentação, muitos cortes rapidíssimos, muitos giros de 360º. Existe uma razão para montanhas-russas não durarem mais do que 3 ou 4 minutos além das limitações técnicas. Há o fator humano envolvido, fator esse que não pode ser esquecido e que grandes diretores de filmes de aventura – Steven Spielberg, Robert Zemeckis, Richard Donner, entre outros – conhecem muito bem. Até mesmo Jackson levou isso em consideração com a quase perfeita fluidez e cadência de seu primeiro mega-épico na Terra Média. Mas, talvez por excesso de confiança, em King Kong ele soltou o freio quase que completamente e por pouco não põe tudo a perder. Com certeza o estouro da manada de brontossauros é fenomenal, ainda que demonstre limites no CGI, mas ela casada com todas demais – o encontro de Ann Darrow com foetodontes que são comidos por um tiranossauro que em seguida a persegue, luta contra Kong, reúne-se com mais dois e assim por diante é uma overdose que quase mata o interesse em se continuar assistindo a obra, pois tudo é longo, arrastado e repetitivo nesse meio, sem uma função narrativa específica.

Não fossem os minutos de pausa, notadamente o excepcional momento em que os papeis de humano e animal são invertidos, com Ann Darrow fazendo um show de variedades para Kong e ali mesmo criando a conexão entre eles, todo esse frenesi do meio do filme teria sido o exagero dos exageros, por melhor e mais embasbacante que seja o uso da computação gráfica (ainda que, para o meu gosto, bem menos impactante do que em Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros). Afinal de contas, CGI é algo que dá muita liberdade, mas é fácil cair em tentação, esquecendo-se de todo o resto.

Mas, felizmente, Jackson reencontra o equilíbrio entre forma e substância no clássico terço final, em Nova York, com um deprimido Kong sendo humilhantemente apresentado em um teatro para a alegria dos insensíveis humanos. A mágica é feita bem nesse ponto, quando vemos o gigantesco animal em seu ponto mais baixo ganhando novamente vida quando percebe a chance de reunir-se novamente com Ann Darrow, com quem criara um laço que, diferente dos outros dois filmes, não é exatamente relacionado com a mera atração macho-fêmea, mas algo mais sutil, talvez também relacionado com a solidão que ambos sentem. É nesse ponto, que ganha até uma lírica valsa em um lago congelado, que Peter Jackson enternece corações e nos prepara para o momento em que as feras (ou melhor, nós) matam o belo.

Aqui, a computação gráfica da WETA mostra como emudecer e arregalar os olhos da audiência, como pixels podem realmente ser usados em prol de uma história. Afinal, como não compreender cada olhar, cada gesto, cada som de Kong, primeiro em relação a Driscoll que ele percebe como seu rival e depois em relação à quase fantasmagórica aparição de Darrow em seu vestido branco? É a tecnologia a serviço da história como só magos do cinema sabem usar, sem esquecer do costumeiramente incrível trabalho de Andy Serkis como Kong em captura de performance.

Peter Jackson, em sua meteórica carreira, provou em King Kong que é um mestre em seu ofício. Um mestre falho, sem dúvidas, que se deixa deslumbrar com as próprias possibilidades e se perde no processo, mas mesmo assim alguém capaz de arrebatar multidões com suas criações impressionantes para as telonas. Seu King Kong é, ao mesmo tempo, uma bela e reverencial homenagem ao original, assim como uma obra própria, com sua indefectível assinatura. Isso, claro, se o espectador conseguir sobreviver à overdose sensorial pré-histórica do meio da projeção.

King Kong (Idem, EUA/Nova Zelândia/Alemanha – 2005)
Direção: Peter Jackson
Roteiro: Fran Walsh, Philippa Boyens, Peter Jackson
Elenco: Naomi Watts, Jack Black, Adrien Brody, Thomas Kretschmann, Colin Hanks, Andy Serkis, Evan Parke, Jamie Bell, Lobo Chan, John Sumner,  Craig Hall, Kyle Chandler
Duração: 187 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.