Crítica | King: Uma História de Vingança

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estrelas 2

Filmes com personagens sendo motivados por forte sentimento de vingança já foram realizados das mais diversas maneiras, passando por diversos gêneros cinematográficos, que vão desde o western até a ficção científica. Tais histórias, mesmo com tramas simples, como John Wick, ou mais rebuscadas, vide Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan, possibilitam enfoques variados, seja explorando o psicológico de seus principais personagens ou focando quase que exclusivamente na ação. Como o próprio título nacional já deixa bem claro, King: Uma História de Vingança, é uma dessas histórias, com o diferencial de procurar equilibrar o drama e ação nessa trama de revanchismo.

O longa-metragem acompanha Jacob King (Chadwick Boseman, o Pantera Negra do Universo Cinematográfico Marvel), um sul-africano que viaja para Los Angeles após receber uma ligação de sua irmã pedindo ajuda. Ao chegar lá, ele descobre que ela fora torturada e assassinada – Jacob inicia, então, uma jornada de vingança a fim de acabar com os responsáveis pela morte de sua irmã, o que não prova ser algo fácil, já que gangues locais e pessoas de grande influência estão envolvidos nessa trama.

Como esperado, o roteiro de Oliver Butcher e Stephen Cornwell estabelece uma premissa bastante simples a ser desenvolvida. Sem perder tempo, já somos jogados no meio dessa grande investigação de King, com a obra assumindo traços de filmes policiais. Curiosamente, o longa se sustenta melhor justamente nesses trechos, que envolvem o protagonista seguindo as pistas deixadas e, claro, indo atrás de cada um dos envolvidos no assassinato. Boseman nos convence, desde o início, através dessa mais calada persona, com seu sotaque carregado sempre nos lembrando sua posição de estrangeiro naquele meio.

O texto, porém, não sabe muito bem no que focar e acaba prejudicando todo o ritmo da obra através de suas súbitas mudanças de tom. Em um momento Butcher e Cornwell estão construindo um forte suspense, apenas para interrompê-lo com uma cena de ação prolongada, nos deixando com a sensação de que toda aquela construção fora desperdiçada, com o filme seguindo pelo caminho mais fácil, sem verdadeiramente se aprofundar no que deveria. Tal questão é, ainda, evidenciada pela narrativa fragmentada, que pula de ponto em ponto, como se o personagem estivesse atirando para todos os lados, sem realmente seguir uma linha de raciocínio lógica.

O que causa maior estranhamento, porém, é a direção de Fabrice du Welz, que opta por planos mais prolongados nas sequências mais dramáticas, mas abandona isso por completo nas de ação, as quais utilizam a típica linguagem de filmes do gênero atuais, com cortes excessivos e câmera tremida, que não só incomodam, como nos impedem de entender qualquer coisa do que está acontecendo. Chega ao extremo de ficarmos confusos com um personagem sendo espancado, parado, no chão, visto que os planos não se estendem por mais que um segundo, ao ponto de irritar aquele que assiste o filme.

Não há, portanto, qualquer identidade visual na obra, que ora opta por planos escuros, ora reveladores. Mesmo a ocasional iluminação azulada, que reflete bem a disposição do protagonista, simbolizando a desolação de sua perda, parece ser esquecida conforme progredimos na história.

Todo o drama e construção de personagens, portanto, é desperdiçado a favor da mesmice de sempre – perfeito exemplo disso é o dentista interpretado por Luke Evans, que é apresentado como uma figura dúbia e cativante no início, mas que segue por um caminho para lá de óbvio, com direito a tramas complicadas as quais jamais são apropriadamente desenvolvidas, deixando várias pontas soltas, como se os roteiristas tivessem começado uma determinada história e desistido dela no meio do caminho. Dito isso, dentre os diversos pontos apresentados na obra, apenas o lado pessoal de Jacob é realmente explorado em sua plenitude, o que não é dizer muito, já que esse é justamente o aspecto mais simples do longa.

O almejado equilíbrio entre drama e ação, portanto, falha em concretizar-se, ao passo que a obra não consegue estabelecer sua identidade visual ou narrativa. Com direção e roteiro que não sabem ao certo o que querem e um trabalho fotográfico nada inspirado, King: Uma História de Vingança depende quase que exclusivamente do carisma de seu protagonista e, mesmo que Chadwick Boseman consiga nos convencer através de sua interpretação, ela não é o suficiente para salvar esse filme.

King: Uma História de Vingança (Message from the King) — EUA/ Reino Unido/ Bélgica/ França, 2017
Direção:
 Fabrice du Welz
Roteiro: Oliver Butcher, Stephen Cornwell
Elenco: Chadwick Boseman, Teresa Palmer, Luke Evans, Tom Felton, Jake Weary, Natalie Martinez,  Alfred Molina, Kirsty Hill, Dale Dickey,  Chris Mulkey, Sibongile Mlambo, Drew Powell
Duração: 102 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.