Crítica | Kingsman: O Círculo Dourado

Com apenas cinco longa-metragens em seu currículo, Matthew Vaughn jamais havia verdadeiramente errado. Mais que isso, ele foi responsável por três dos melhores blockbusters dos últimos anos, Kick-AssX-Men: Primeira Classe e, claro, Kingsman: Serviço Secretoesse terceiro representando o diretor em seu auge, ao menos até então, contando com um humor afiado pautado em absurdos e contrastes bem inseridos nessa sátira/homenagem a filmes de James Bond. O anúncio da sequência dessa obra, Kingsman: O Círculo Dourado, portanto, deixou-nos ansiosos e esperançosos, já que, com Vaughn no comando, o que poderia dar errado? Por isso digo logo que não é fácil categorizar essa continuação como uma grande decepção.

Algum tempo se passou desde os eventos do primeiro filme e a Kingsman está de volta à ativa, com um novo Arthur em comando. Esse cenário, porém, não dura muito tempo, já que a agência de espionagem é logo destruída por Poppy (Julianne Moore) e seu cartel de tráfico de drogas, o Círculo Dourado. Sozinhos, Eggsy (Taron Egerton) e Merlin (Mark Strong) devem pedir ajuda à sua contraparte americana, a Statesman, para acabarem com os planos megalomaníacos dessa traficante e, de alguma forma, reerguer a Kingsman das cinzas, missão essa que não será nada fácil, considerando os recursos da vilã, que envolvem soldados com próteses mecânicas e cachorros robôs.

O primeiro elemento que capta nossa atenção, de forma negativa, é justamente a destruição desnecessária da agência de espionagem, que dá título à obra. O ataque à Kingsman funciona apenas como elemento motivador para o encontro entre os membros remanescentes e os da Statesman, esses, que, por sua vez, não fazem a menor diferença no filme, visto que permanecem meramente como elenco de apoio e não colocam absolutamente nada de novo na mesa, podendo facilmente ser substituídos por outros agentes da Kingsman. Permanece a impressão de que o roteiro de Vaughn e Jane Goldman queria apenas colocar os espiões americanos na jogada, sem saber exatamente como.

Evidente que, em termos de construção de universo, a inclusão desse grupo funciona, abrindo boas possibilidades, mas que são totalmente desperdiçadas aqui. Bons exemplos disso são os personagens de Channing Tatum e Jeff Bridges, ambos atuando meramente como participações especiais, não justificando toda a sua presença no material promocional, chegando ao absurdo de Elton John contar com mais tempo em tela do que qualquer um dos dois – mas falaremos sobre a participação do cantor mais tarde. Dito isso, a única verdadeira função da Statesman é a de prover recursos para os agentes da Kingsman, o que não seria necessário caso a agência britânica não tivesse sido destruída. A esperada abordagem da dinâmica entre essas organizações é jogada no lixo.

Nesse meio, apenas Whiskey (Pedro Pascal) chega a ter uma participação efetiva, essa que se resume a um desnecessário trecho ao fim, que mais funciona como epílogo e a cenas do personagem demonstrando seu chicote elétrico e habilidades com outras armas. Mesmo que de forma superficial, pois, era de se esperar que, ao menos nas sequências de ação, seríamos entretidos por esses novos elementos introduzidos na sequência, o que não chega a acontecer, visto que tais cenas não trazem o mesmo brilho daquelas de seu antecessor, a tal ponto que nenhuma delas é verdadeiramente memorável, ainda que possam, por certo tempo, divertir-nos. Para piorar, algumas delas chegam a provocar vergonha alheia, como a já mencionada participação de Elton John, que mais soa como uma gag totalmente fora de contexto, aparecendo de maneira exagerada e por mais tempo que deveria.

Vaughn parece ter esquecido totalmente a máxima “menos é mais”, buscando repetir, em excesso, tudo o que fizera do primeiro filme, um dos melhores blockbusters em recente memória – aspecto que se aplica à direção consideravelmente mais confusa. O diretor impede que tenhamos a noção completa de espaço, realizando cortes demais, com um trabalho de montagem que não sabe muito bem quando alternar o foco entre personagens, muitas vezes funcionando de forma burocrática, proporcionando constantes quebras no ritmo. Não ajuda, claro, que as durações de certas cenas sejam exageradamente grandes, mais cansando do que entretendo o espectador, dilatando toda a narrativa de tal forma, que, ao fim, nos vemos cansados, ansiando para que tudo acabe logo.

O que não salva, mas minimiza um pouco os defeitos da obra, é a relação entre Eggsy, Merlin e Harry (Colin Firth), cujo retorno deveria ter sido mantido como segredo pelo material promocional, sejam trailers ou pôsteres. Temos aqui um Eggsy menos “malandro” e mais espelhado no comportamento de seu mentor, ponto que é utilizado para aprofundar a dinâmica e a cumplicidade existente entre os dois, com boa utilização de elementos introduzidos no primeiro filme. Infelizmente, esse leve toque de maior profundidade não se aplica à vilã, que permanece unidimensional do início ao fim, da mesma forma que todos os outros personagens da obra: todos rasos e mal-desenvolvidos.

Kingsman: O Círculo Dourado, portanto, diverte-nos ocasionalmente, mas, em sua maioria, nos faz levantar a sobrancelha em incredulidade, seja pelos absurdos desnecessários presentes na trama – como o polêmico rastreador que precisa ser inserido na vagina de uma personagem – seja pelas sequências de ação pouco inspiradas, nenhuma conseguindo marcar positivamente, sendo, ora esquecíveis, ora entediantes em razão da duração prolongada. Carente de desenvolvimento de personagens e de praticamente tudo que fizera o primeiro filme ser tão bom, o longa de Matthew Vaughn vem como uma grande decepção, daquelas que preferimos esquecer, mantendo na memória apenas as boas recordações deixadas pelo seu antecessor.

Kingsman: O Círculo Dourado (Kingsman: The Golden Circle) — Reino Unido/ EUA, 2017
Direção:
 Matthew Vaughn
Roteiro: Jane Goldman, Matthew Vaughn (baseado nos quadrinhos de Mark Millar e Dave Gibbons)
Elenco: Taron Egerton, Colin Firth, Mark Strong, Edward Holcroft, Hanna Alström, Julianne Moore, Michael Gambon, Sophie Cookson,  Channing Tatum,  Halle Berry, Elton John, Jeff Bridges, Pedro Pascal, Poppy Delevingne
Duração: 141 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.