Crítica | Kingsman: Serviço Secreto

estrelas 3,5

A discrepância abismal entre a elegância de um Colin Firth e o mau-gosto que é a imagem de um homem dividido, literalmente, ao meio, é o agente secreto (a-ha!) responsável pelo delivery de grande parte do humor bizarro de Kingsman: Serviço Secreto, baseado na HQ homônima de Mark Millar.

Embora trate de espionagem!, ação!, explosões!, personagens desajustados que se ajustam! e todos aqueles elementos corriqueiros que costumam levar multidões aos cinemas desde sei-lá-quando, o filme de Matthew Vaughan (que imprimiu o DNA do extraordinário Kick-Ass na telona, curiosamente também baseado em graphic novel de Millar). consegue escapar de muitos fáceis-clichês (mas nem todos) e, com isso, entretém despretensiosamente enquanto faz breves comentários ácidos sobre política (“I’m a Republican!”) e comportamentos sociais (“manners maketh man”). Nada mal para quem não se leva a sério, certo?

As coreografias das lutas são ótimas, como era de se esperar: as cenas que as envolvem já são adrenalina pura, independente de questões de técnica cinematográfica, porém os maneirismos da câmera inquieta de Vaughan fazem com que a experiência de assistir a tais sequências se torne ainda mais delirante. “Pescando” um pouco de tudo, como bom representante do cinema da pós-modernidade que é, dos gêneros de super-heróis e ficção científica, Kingsman pega emprestado ritmo e dinâmica. Sendo assim, somos capazes de identificar inúmeras referências – implícitas e esparsas – a filmes associados à cultura pop; vemos, por exemplo, um pouco de Homem-Aranha e um pouco de Matrix na forma com que os personagens se movimentam e confrontam uns aos outros. “Nada se cria, tudo se copia”, tá aí uma das frases de efeito mais sãs e contemporâneas de que temos conhecimento.

É claro que, para que possamos “aproveitar a viagem” ao máximo, precisamos nos desligar de algumas noções gerais de ética, de moral e de bom-senso. Embora Kingsman não exija isso de nós (e como poderia? Com um letreiro que funcionasse como um aviso para os espectadores mais “frescos”? Aí não dá, né…), a sua apreciação certamente só é possível quando entendemos que estamos diante de um filme cuja aparente imoralidade não é, de forma alguma, nociva para a humanidade. Digo isso porque, na época da estreia, tinha gente por aí questionando alguns aspectos da “violência gratuita” que o permeia – o tipo de polêmica-chata-e-velha que já atingiu Kick-Ass no passado, por exemplo. No Tomatometer do Rotten Tomatoes, diz-se que Kingsman é subversivo. Mas não é para tanto e discorrerei sobre isso mais adiante. A polêmica é uma senhora incansável mesmo, né? Volta e meia ela aparece, gratuita que só, vociferando contra gratuidades – violência!, palavrões!, sexo! – que, em geral, são muito mais interessantes do que ela.

Além de despirmos-nos de nossos preceitos morais, precisamos assimilar (e rápido, pois o tempo do filme é frenético) que os indivíduos retratados em Kingsman não são humanos, mas sim meras caricaturas. É o tipo de coisa que precisamos ter em mente e aceitar quando vemos uma bizarrice de Wes Anderson, por exemplo. A caricatura proposital e a extrema excentricidade fazem parte do show. Se nos deixarmos levar por essas e outras características pouco afeitas ao cinema de massa, dificilmente nos incomodaremos com o fato de que quase ninguém ali na tela fala e/ou age como um ser humano. O fato é que em Kingsman não há espaço para nos identificarmos com seus personagens, porque há uma certa frieza que nos distancia deles, à exceção de Harry e Eggsy. No fim das contas, o que há é a oportunidade de nos divertirmos à beça com aquelas caricaturas e aqueles exageros que, de tão realçados durante toda a projeção, acabam por nos familiarizar com o mundo bizarro que os comporta.

O nonsense que permeia boa parte das ações e das falas de seus personagens é um charme à parte, embora nada supere a Hit Girl de Kick-Ass e o deslumbre que era ver aquela garotinha com cara de anjo disparando insultos ferozes e destruindo inimigos com aquele jeito de lutar inigualável, enfim, kicking some asses! Kingsman se parece muito com Kick-Ass, embora esse segundo tenha uma narrativa mais bem concatenada e uma ação ainda mais explosiva. O “Kick-Ass”, por sinal, parece um gênero próprio – no qual Kingsman, por definição, certamente se encaixaria.

O que nos leva às dicotomias que, por vezes compõem qualidades, e outras vezes se concretizam na mais pura decepção para o cinéfilo: quando investe no drama, é fraco e não convence. Ao levar-se a sério, o filme se boicota e trai a sua própria alma. Acontece que Kingsman não possui o peso dramático que necessita para tratar das questões que busca, leve e passageiramente, tratar: a morte do pai de Eggsy; a ligação de Henry com Eggsy; a família disfuncional de Eggsy – como vocês podem facilmente aferir, o problema está em Eggsy: o garoto é “um perdido”, “um zero à esquerda”, isso fica claro, porém, é a partir do excelente timing cômico do ator que o interpreta que estabelecemos nossa conexão com o personagem – tal conexão nada tem a ver com o seu background infeliz e pouco desenvolvido por um roteiro que nem sequer sabe para onde ir quando deixa a comicidade de lado. O núcleo dramático é um fracasso.

Ao investir na comédia, é inglês e elegante, embora não gere muitos risos altos – mas não há problema algum nisso: quem precisa de risos altos quando se tem a risada de canto de boca, maliciosa, perversa, gostosa? Kingsman é a prova viva de que agentes secretos também se divertem ao exercerem suas profissões. Se “os brutos também amam”, por que não poderiam os astutos rirem?

Embora caçoe de filmes de ação e de espiões, como se estivesse descaradamente subvertendo tais gêneros, volta a meia se rende a convenções que caracterizam justamente o tipo de cinema que ousa “sacanear”. Então, ao contrário do que o Rotten Tomatoes deixa transparecer em seu Tomatometer, a obra de Vaughan não é tão moderna e transgressora quanto parece. O marketing por trás de Kingsman, inclusive seu próprio trailer, parece todo trabalhado na ideia de transgressão, porém marketing é marketing, e sabemos que a realidade é algo totalmente diferente. O ideal então é que possamos ir ao cinema desprovidos de altas expectativas em relação à significância desta produção: não, aqui o que conta é o entretenimento, e nada mais.

Ainda em relação aos clichês a às convenções, é importante destacar também que o filme se rende a pieguices do tipo “fala para a minha mãe que eu a amo” proferidos por um personagem que se encontra em uma enrascada das pesadas e acredita que vai morrer. Nem precisa exercitar tanto a memória para perceber que você já testemunhou situação semelhante em inúmeros filmes, não é mesmo? Além disso, Kingsman está repleto daqueles momentos em que falta um segundo (mesmo!) para acontecer uma catástrofe… e não-sei-lá-quem ou não-sei-lá-o-quê salva o mundo.

De qualquer forma, os personagens são carismáticos e contribuem com a leveza e a despretensão da estória: destaque para o vilão de Samuel L. Jackson, que detesta violência, tem fala e modos vulgares e uma irresistível língua presa. E aquela cena de Harry na igreja, ao som da clássica Free Bird, de Lynyrd Skynyrd, que culmina em um dos momentos mais what the fuck?! do filme? E aquelas cabeças de pessoas honoráveis e aqueles fogos de artifício e… Ok, preciso me controlar.

Apesar da “boa vontade” do roteiro, algumas viradas da narrativa não soam tão convincentes, como por exemplo aquela que envolve o personagem do Michael Caine. Outras viradas funcionam bem e é interessante observar que, no mundo de Kingsman, depois de uma obviedade fatal (quase) sempre vem uma surpresa gratificante: nós sabemos que aquele menininho que no início do filme recebe o colar com o K de Harry vai mais tarde fazer parte de um treinamento para ser um Kingsman e entrar no lugar do agente Lancelot… e nós sabemos que os dois finalistas do treinamento vão ser Eggsy e Roxy (pelo simples fato de Roxy ser a única mulher do grupo – em tempos como estes em que o feminismo está cada vez mais em pauta, o destaque a uma personagem mulher forte em meio a homens estúpidos é aposta certa).

Porém… eis que o elemento surpresa se faz presente e Roxy acaba ganhando o papel de agente substituta de Lancelot enquanto Eggsy, mesmo tendo fracassado no “teste do cachorro” (bizarrices…), não se desliga dos Kinsgman devido ao afeto que nutre pelo personagem de Colin Firth. Now we’re talking about true turning points! Ao mesmo tempo, é de se louvar que o roteiro insinue um clima entre os dois finalistas do treinamento – e pare apenas na insinuação. Apelar para um romance entre Eggsy e Roxy seria “carta marcada” e é legal ver o filme desviar dessa convenção com tamanha elegância.

Kingsman ainda tem problemas de ritmo porque passa boa parte da projeção expondo o treinamento de Eggsy, e não sabe balancear as necessidades dramáticas da narrativa com a ação e a caracterização dos personagens. Ao mesmo tempo, merece destaque a coragem de Vaughan ao retratar a morte de um personagem importantíssimo de uma forma brusca, sem qualquer cerimônia, permitindo-se até mesmo envolve-la com uma pitada de humor.

É bacana também ver como o humor refinado com citações a My Fair Lady e Margaret Thatcher vez ou outra dá lugar – sem pudor – aos fucks! e motcherfuckers! Tarantinescos que aprendemos a amar. Esse balanço entre o refinamento e o escracho nos diálogos e na própria forma do filme (a sequência dos fogos de artifício é onde a dicotomia desse mix chega ao auge do absurdo – e do impagável), é o que faz de Kingsman um entretenimento de primeira, que deve ser visto e revisto com olhos de despretensão bem-humorada.

Publicado originalmente em 08 de março de 2015.

Kingsman: Serviço Secreto (Kingsman: The Secret Service) – Reino Unido, 2014
Direção: Matthew Vaughan
Roteiro: Mark Millar (quadrinhos), Dave Gibbons (quadrinhos), Jane Goldman e Matthew Vaughn (roteiro)
Elenco: Colin Firth, Samuel L. Jackson, Mark Hamill, Taron Egerton, Michael Caine, Mark Strong, Jack Davenport, Geoff Bell, Corey Johnson, Richard Brake, Lee Nicholas Harris, Sofia Boutella, Neve Gachev, Sophie Cookson
Duração: 129 min

KARAM . . . Desde 1992, o ano em que foi apresentado ao mundo por duas admiráveis criaturas que logo se identificaram como "pais", Karam vem se aventurando pelos caminhos da Arte, da maneira que pode. Na música, Aretha Franklin é a sua pastora. Na Literatura, andou se entendendo muito bem com Clarice Lispector e Oscar Wilde. Embora faça faculdade de Cinema, não esconde que seu filme preferido – ao contrário do que muitos poderiam presumir – não é nenhum cult de Bergman ou Fellini, mas sim O Rei Leão; é!, aquele lá mesmo, da Disney. Um dia leu, em Leminski, que "isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além" e, assim, resolveu investir na ideia proposta pelo poeta para, quem sabe um dia, chegar ao além sem precisar passar pelo infinito – que é a pra não ter a infelicidade de esbarrar com o Buzz Lightyear no meio do caminho (fora, concorrência!).