Crítica | Kirby – Genesis

estrelas 2,5

Jack Kirby (1917- 1994) é uma lenda dos quadrinhos. Quem conhece quadrinhos, sabe, aprecia e o venera (ou pelo menos respeita muito, mas muito mesmo). Quem não conhece quadrinhos precisa apenas saber que ele foi co-criador de dezenas e mais dezenas de personagens extremamente famosos e importantes, tais como Capitão América, Thor, Homem-Formiga, Homem de Ferro, Galactus, Eternos, Darkseid, Etrigan, Novos Deuses, além dos grupos Quarteto Fantástico, Vingadores, Inumanos e X-Men. Em suma: os quadrinhos não existiriam da maneira como hoje os conhecemos se não fosse por esse gênio.

Sua maneira distinta de desenhar, de usar as cores e de manejar os quadrinhos em prol da narrativa fez escola e é até hoje imitada. Imaginar um mundo sem Kirby é imaginar um mundo em preto-e-branco sem a grande maioria dos super-seres que povoam nossa mente.

E a Dynamite Entertainment, sabendo disso, criou uma curiosa forma de homenagear o mestre e, claro, de lucrar em cima. Usando personagens mais obscuros de Kirby e alguns outros com base em rascunhos do criador, a editora juntou tudo em uma publicação só, de nove números, sob a batuta de Kurt Busiek no roteiro e arte de Jack Herbert e do exageradamente adorado Alex Ross, que também criou alguns conceitos, fez as capas e trabalhou como diretor de arte. A publicação começou em 25 de maio de 2011 e acabou em 11 de julho de 2012.

No número 0, introdutório, vemos um Jack Kirby fazendo o que faz melhor, ou seja, desenhando. E não é um desenho qualquer, mas sim o desenho que seria – nesse universo fictício – escolhido para representar o ideal humano a ser incluído na mensagem de boas vidas da sonda Pioneer 10, lançada ao espaço em 1972 e que até hoje transmite informações importantes aos astrônomos e pesquisadores. O que vemos, em seguida, é a viagem da sonda espacial, passando por mundos claramente inspirados pelo traço e espírito de Kirby, em um fantástico passeio pela mente desse grande criador.

Se a série tivesse acabado aí, nesse número, minha crítica seria muito diferente.

Mas ela continua, e continua, e continua. A Dynamite acaba usando uma estratégia que pode até ter dado certo financeiramente, mas, sob o ponto-de-vista de narrativa, é um pesadelo.

Explico. No afã de criar um trampolim para futuras obras spin-off, que, aliás, já começaram a ser publicadas, Busiek inseriu o maior número de personagens possível, sem pensar nas conseqüências para o desenvolvimento da história que queria contar.

Logo no primeiro número, Busiek introduz um desinteressante casal clichê: o garoto nerd bobalhão e a menina nerd gostosona. Os dois são amigos de infância e, apesar de sentirem algo mais do que amizade um pelo outro, a timidez de um e a forma corporal de outro os impedem de ficar juntos. E, então, o mundo como eles conhecem se desintegra quando duas imagens gigantescas pairam sobre a cidade onde moram e começam a peregrinar pelo mundo. Nos números seguintes, vemos os vários personagens Kirbyanos aparecerem do nada, causando alvoroço mundial. O que diabos está acontecendo?

Essa foi a pergunta que me manteve fiel à publicação até o derradeiro número, quando ela não é respondida satisfatoriamente. Aliás, não só ela não é respondida como a profusão de personagens coloridos e super-poderosos saem na pancada página a página, tornando difícil a memorização de seus nomes ou mesmo sua identificação. A confusão impera. São personagens apenas esboçados por Kirby como Balduur, Sigurd, Heimdall, Honir, Ramses, Black Sphinx, Ember e Blazing Star e outros que receberam séries inteiras pelo mestre, como Captain Victory e Silver Star. Mas esses são apenas a ponta do iceberg e eu poderia perder aqui vários parágrafos só enumerando quem aparece na série. Outro problema da quantidade x qualidade é que não sobram páginas para aprofundar suas personalidades e todos acabam rasos como o proverbial pires.

Mas claro, o trabalho de desenho de Jack Herbert e Alex Ross é lindo. Apesar de pouco imaginativo nas cenas, digamos, comuns, quando os dois passam a fazer os traços das criações de Kirby, é uma explosão de exuberância e cores (essas graças a Vinicius Andrade) que dá gosto de ver. Há splash pages que mereceriam ser enquadradas e colocadas na parede. E a composição gráfica, fluida e interessante ajuda bastante na complicada narrativa.

No entanto, mesmo a linda arte acaba cansando com a repetição de motivos. Uma coisa é mostrar um ou dois heróis no estilo de Kirby. Outra bem diferente é derramar dezenas deles de uma vez em algumas páginas. É o equivalente gráfico a um filme de Michael Bay, mal comparando.

A homenagem a Kirby é devida, mas teria sido melhor usar suas criações de maneira parcimoniosa. Suspeito que as séries spin-off hoje em andamento pela Dynamite (Captain Victory, Dragonsbane e Silver Star) são melhores, mas meu fôlego para lê-las acabou depois do overload sensorial da série inicial.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.