Crítica | Kiriku e a Feiticeira

estrelas 4

Michel Ocelot nasceu na Costa Azul, França, em 1943. Aos 6 anos de idade, mudou-se com a família para a República da Guiné, onde iniciou seus estudos e seguiu até os 12 anos indo à França apenas no período de férias. Anos depois, o diretor se recordaria desse período de sua vida em uma entrevista onde falava a respeito das influências culturais que teve para a criação de Kiriku e todo o seu universo fantástico e mitológico:

Minha feliz criação na República da Guiné alargou a minha mente. Estive em contato com cinco religiões diferentes. Até os 12 anos, durante a escola, eu era negro; durante as férias de verão, era branco de novo.

Ocelot, cuja sólida formação em artes o fez trabalhar em algumas mídias antes de entrar para o cinema, realizou o seu primeiro filme em 1976, o curta Les Aventures de Gédéon, uma simpática fábula com um pato e um coelho que tentam escapar, em momentos diferentes, de armadilhas feitas por humanos. Em 1979 viria a primeira obra-prima do diretor, o curta Les Trois Inventeurs, que traz um princípio artístico de miniatura em papel que seria posteriormente trabalhado por ele nos filmes de “sombras chinesas” aos quais dedicaria muitos esforços nos anos seguintes.

Depois de uma série de curtas na década de 80 e um trabalho para a TV no início do anos 90, Ocelot conseguiu levar adiante uma antiga ideia: realizar um filme de animação contendo elementos da cultura africana. Seu sonho realizou-se em 1998, quando conseguiu o financiamento necessário para produzir Kiriku e a Feiticeira, o seu primeiro longa-metragem.

O filme nos traz o minúsculo Kiriku, uma criança-prodígio em todos os sentidos, que fala com a mãe quando ainda está no ventre, nasce sozinho, lava-se sozinho e desde os primeiros minutos de vida se porta como um adulto num corpo diminuto. Kiriku se torna, então, uma espécie de salvador ou “anjo da guarda” de sua tribo, ajudando a todos e lutando contra a temida Karabá, a feiticeira que, diz-se, devorou os homens da tribo (exceto o tio mais novo de Kiriku), secou a fonte e oprimia as mulheres com demandas cada vez mais abusivas e difíceis de cumprir.

O roteiro de Ocelot brinca com o cotidiano infantil e ao mesmo tempo exibe mitos e contos morais na tela. É nessa subdivisão de histórias que o filme encontra um ponto fraco em sua narrativa, porém, este é um problema quase inexistente em Kiriku e a Feiticeira. A partir de Os Animais Selvagens, quando o avô do garoto passa a narrar outras aventuras de Kiriku (os dois outros filmes da trilogia se passam em algum ponto antes da sequência final de Kiriku e a Feiticeira) este se apresenta como um ponto crítico relevante.

Trazendo uma bela composição estética de cores em várias paletas; um grande número de detalhes das florestas — em contraste com a simplicidade conceptiva das tribos — e a ligação orgânica entre os blocos de ação, Kiriku e a Feiticeira nos introduz ao universo humano, mitológico e antropológico de uma garotinho que foi concebido como uma lenda e se tornou uma, fora do campo diegético. Até o uso de uma trilha sonora, com cânticos tribais recorrentes (uma espécie de “coro grego”), funciona bem durante toda a fita e mostra que Michel Ocelot é um ótimo contador e criador de histórias. Como ele mesmo disse, “Eu adoro histórias, mas gosto de usá-las do meu jeito. Não adapto. Se existe um autor do conto, considero que está bem feito e não devo mexer nele. Eu sou como histórias antigas. Alimentado, fico mais forte e uso essa força como quero, até me esquecendo de onde ela veio”.

Kiriku e a Feiticeira (Kirikou et la sorcière) – França, Bélgica, Luxemburgo, 1998
Direção: Michel Ocelot
Roteiro: Michel Ocelot
Elenco (vozes originais): Doudou Gueye Thiaw, Maimouna N’Diaye, Awa Sene Sarr, Robert Liensol, William Nadylam, Sebastien Hebrant, Thilombo Lubambu, Marie Augustine Diatta, Moustapha Diop
Duração: 74 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.