Crítica | Kiriku, os Homens e as Mulheres

estrelas 4,5

Kiriku é um garotinho de pequena estatura que mora numa aldeia de algum lugar da África Ocidental. Extremamente sábio para a idade (uma espécie de “milagre divino” da tribo — e com isso deixo claro a possível interpretação fantástico-mitológica do garoto, que também está clara em Kiriku e a Feiticeira) e sempre disposto a aceitar o insólito ou se compadecer das pessoas mais improváveis. Kiriku é uma espécie de anfitrião dos filmes de Michel Ocelot, um anfitrião cujo evento é um recorte da religião, dos costumes, folclore, culturas, línguas e História da África Ocidental.

É importante temos em mente a palavra recorte quando falamos do Continente-mãe, porque a sua grande variedade étnico-cultural não deve ser vista como a concentração homogênea de modelos sociais, práticas religiosas e organização social. Pensando nisso, o diretor Michel Ocelot resolveu trazer para cada um de seus filmes com o personagem Kiriku a exibição de pequenas centelhas dessas diversas práticas culturais com foco nas formações tradicionais da África negra.

Todavia, o diretor não deixa de fora etnias ou povos do norte como os Tuaregues “de pele clara”, que aparecem no longa, ou a citação de outras regiões e civilizações sempre que se fala do passado da mãe de Kiriku, ou aludido, quando se põe em pauta o misterioso passado da feiticeira Karabá. Perceba que a ordem cronológica dos acontecimentos na vida de Kiriku não é a mesma da sequência dos filmes. Kiriku, os Homens e as Mulheres e Kiriku e os Animais Selvagens acontecem antes do final de Kiriku e a Feiticeira, o primeiro longa da trilogia. Logo, quando falamos do “passado desconhecido” de Karabá, citamos um momento anterior ao encontro de Kiriku com o avô e, por conseguinte, o importante detalhe (embora breve) sobre a vida da maléfica mulher.

Desde Kiriku e a Feiticeira temos em pauta uma madura abordagem socio-antropológica nos roteiros de Ocelot, um misto de crônica moral com elementos fantásticos e plano de fundo folclórico africanos. Cada filme é composto por pequenas histórias que, apesar de não serem necessariamente interligadas, fazem parte de um todo de aprendizagem do garotinho e traz discussões e descobertas diversas tanto para ele quanto para o público.

A animação de Ocelot é simples. De base 2D, com desenhos de linhas retas e economia de detalhes cênicos, com fotografia que contextualiza principalmente o Sael e a Savana africanas e músicas e danças ao fim de cada conto, Kiriku, os Homens e as Mulheres se constrói sem pressa e muito eficientemente. Quando o espectador tende a um esgotamento em relação ao modelo narrativo utilizado pelo diretor — o avô de Kiriku assumiu, desde o segundo filme da trilogia, o papel de narrador — o longa chega ao seu final com um bloco inteiro de lições aprendidas e flashes encantadores da vida de um garotinho africano.

Há uma imensa riqueza de significados no longa e há também uma grande beleza estética em cada uma das histórias que o constitui. O destaque vai para o esquete do Tuaregue, um belíssimo uso da cor azul em contraste tanto com a tenda cinza e preta da feiticeira Karabá e o tom bege-alaranjado da aldeia de Kiriku; além, é claro da cor da pele do viajante perdido. A esse momento segue-se o interessantíssimo investimento de Ocelot na construção da História oral de parte dos povos africanos na crônica sobre a Griot; a inteligente forma de expressar um preconceito cultural na crônica sobre a ventania e a flauta e, claro, a ligação entre as gerações no conto em que Kiriku parte para tentar achar o velho resmungão da tribo.

Kiriku, os Homens e as Mulheres é uma animação adorável, capaz de encantar tanto adultos quanto crianças. Sua produção é muito simples, mas o seu conteúdo e as críticas e discussões que traz à superfície são valiosas e muito pertinentes em nossos dias, quando a perda da identidade cultural parece ser o caminho sem volta criado pelo domínio da tecnologia e progressivo abandono de valores e criações de outros tempos.

Kirikou, os Homens e as Mulheres (Kirikou et les hommes et les femmes) – França, 2012
Direção: Michel Ocelot
Roteiro: Michel Ocelot, Bénédicte Galup, Cendrine Maubourguet, Susie Morgenstern
Elenco (vozes originais): Romann Berrux, Awa Sene Sarr, Jessica Tougloh, Emmanuel de Ksët Gomes, Sabine Behika Pakora, Umbañ U Ksët, Jean Landruphe Diby, Evelyne Pèlerin-Ngo Maa, Rissa Wanaghil, Pascal Nzonzi
Duração: 88 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.