Crítica | Knights of Sidonia – 1ª Temporada

estrelas 4

Em Fevereiro de 2012, o serviço de streaming Netflix, que até pouco tempo atrás era apenas uma locadora de vídeo, produziu sua primeira série original. O sucesso dessa primeira produção, Lilyhammer, asfaltou o caminho de sucesso que o canal seguiria, abrindo espaço para outras marcantes obras, como House of CardsOrange is the New Black. Tais projetos, contudo, não foram os únicos a serem colocados em andamento. Diversos contratos de distribuição exclusiva foram assinados, nos trazendo não só filmes, como o documentário The Square e séries que haviam sido canceladas – Star Wars: The Clone Wars e Arrested Development são exemplos disso – salvando muitos fãs do terror que é ter uma narrativa interrompida em sua metade.

Era de se esperar, portanto, que, nessa empreitada inovadora do canal, eles chegassem a animações – mais especificamente, animações japonesas. Stricto sensuKnights of Sidonia, o primeiro anime “original do Netflix” não foi feito por ele. O que o serviço de streaming fez foi apenas comprar seus direitos de exibição no Ocidente, realizando o que é chamado de localização. Dito isso, tanto a legendagem quanto a dublagem foi feita pelo canal, já sua produção foi da Polygon Pictures, no Japão.

O anime, baseado no mangá homônimo de Tsutomu Nihei, nos traz uma premissa bastante similar àquela de Neon Genesis Evangelion, porém com suas claras diferenças que serão explicitadas a seguir.

Nagate Tanikaze é um jovem que viveu sua vida inteira junto de seu avô, no subterrâneo. Lá, o menino treinava pilotar uma espécie de mecha em realidade virtual. Após a morte de seu avô, contudo, Tanikaze acaba sendo descoberto e é levado para a superfície, ou assim acreditamos. Estamos em Sidonia, uma gigantesca nave espacial e último reduto da humanidade que beira a extinção após uma sangrenta guerra com criaturas misteriosas conhecidas como Gauna. Nessa sociedade, governada de forma autoritária, alguns jovens passam por um extenso treinamento a fim de servirem como Guardiões – pilotos de robôs gigantes que visam coletar recursos fora de Sidonia e defender a nave de ataques dos Gauna. Não é preciso dizer que Nagate prontamente decide se tornar um Guardião, ainda que não tenha muita escolha, considerando o olhar do governo sobre ele.

A espaçonave e os humanos que a habitam, porém, contam com interessantes peculiaridades. A primeira e mais evidente é a similaridade do conceito da área residencial com a da bíblica Torre de Babel. Embora não tenhamos a problemática principal do conto bíblico – as diferentes línguas que impossibilitam a comunicação – nos é passada uma nítida sensação de desorganização e, em última análise, falta de segurança. A diferença de línguas, contudo, se traduz dentro do protagonista, Tanikaze, um garoto que em muito se diferencia dos outros habitantes daquele lugar.

O anime não poupa esforços para deixar isso claro, colocando na linguagem do personagem um uso diferenciado do japonês, que causa, inclusive, alguns estranhamentos por parte de seus recém-conhecidos colegas. Além disso, Nagate conta com uma diferença primordial em sua própria natureza: ao contrário das outras pessoas de Sidonia, ele não consegue realizar fotossíntese, uma habilidade adquirida pelos outros por intermédio de manipulações genéticas, visando a sobrevivência a longo prazo da humanidade (afinal, não é tão simples conseguir alimentos no espaço, mas sóis têm de sobra).

São tais detalhes, inseridos ao longo dos episódios, que dão uma notável riqueza ao universo construído por Knights of Sidonia, nos fazendo acreditar nessa sociedade, por mais diferente que ela seja da nossa. A alienação de Tanikaze acerca desse modo de vida é, portanto, essencial, funcionando como ponto de identificação do espectador, que precisa ser apresentado a cada um desses novos aspectos. Essa necessidade acaba gerando pequenas doses de didatismo e de exposição que, por vezes, chegam a incomodar, mas felizmente aparecem de forma gradualmente reduzida conforme progredimos nos doze capítulos dessa primeira temporada.

Mesmo a presença dos mechas nos é passada de forma crível, ao passo que o ato de pilotagem é exibido de forma bem pensada. Não basta apenas que os pilotos sigam a realizar suas missões – por trás deles temos uma intrincada estrutura de comando, com analistas na nave-mãe calculando cada ação dos grupos em ação, similarmente ao que vimos no já citado Evangelion. Os combates em alta velocidade são realizados de forma empolgante e imersiva, captando cada centelha da atenção do espectador. Trata-se de uma tensão evidente e bastante recompensadora, considerando que parte do público-alvo são justamente os entusiastas desse tipo de história.

Porém, o que mais se assemelha ao clássico anime e também a outras obras distópicas, como Ataque dos Titãs, é o seu tom angustiante. Knights of Sidonia, assim como muitos outras obras de cunho young adult/adulto, nos traz um forte sentimento de desesperança. Em diversos momentos não acreditamos que poderemos ver algum final feliz e cada morte é exibida de forma brutal e crua – nem todas são graficamente explícitas, mas todas causam um enorme desconforto no espectador, que tem seu estômago revirado, especialmente pelos realizadores não pouparem mesmo os personagens centrais. Aqui podemos traçar uma sutil semelhança com Gantz, uma vertente ainda mais adulta, mas que chega a ser lembrada em determinados pontos, em especial pelas situações adversas das lutas contra os Gauna.

Outro importante fator que influencia essa angústia é o design perturbador dessas criaturas. Além do mistério que gira em torno delas – ninguém sabe ao certo o que são ou uma maneira mais eficaz de se livrar deles – os Gauna são seres disformes, que muitas vezes assumem assustadoras aparências a fim de provocar os guardiões (e, por conseguinte, nos provocar).

Para minimizar o clima pesado construído por essas características, a Polygon Pictures utiliza uma forma diferente de animação, que mescla o traço tradicional com a computação gráfica. Trata-se do cel shading, uma técnica muito comum nos videogames, em especial para criar um visual similar ao anime. Games que utilizam esse modelo vão desde The Legend of Zelda: The Wind Waker até Naruto: Ultimate Ninja Storm. À princípio, essa escolha estética causa um notável estranhamento, principalmente nas cenas mais paradas de diálogos, nas quais os movimentos dos personagens parecem lentos demais. Conforme avançamos no desenho, contudo, facilmente nos acostumamos e logo enxergamos como uma escolha precisa para as sequências de ação, que ganham uma dimensão ainda mais engajante.

Infelizmente, ainda no aspecto visual, o anime deixa a desejar quando se trata de caracterização. Muitos personagens são extremamente parecidos, com poucos traços que realmente chegam a diferenciá-los uns dos outros. Esse fator se torna ainda mais grave dentro dos mechas onde alguns personagens só podem ser identificados por meio dos diálogos. Para piorar, temos um grupo de oito garotas gêmeas que se fazem presentes na história sem maior explicação, soando como uma evidente preguiça dos realizadores em criarem mais modelos dentro de sua história.

Mesmo esses sérios deslizes, porém, não conseguem nos distanciar do anime por muito tempo, principalmente pela estrutura de seus episódios. Cada um deles termina com um cliffhanger gigantesco, nos deixando genuinamente curiosos para assistir ao seguinte. Tal prática é comum tanto nos mangás quanto nas animações japonesas, em virtude de seu esquema semanal e praticamente ininterrupto de produção e no Netflix, encontra sua casa perfeita, ao passo que o canal estimula o binge watching, em outras palavras, a prática de assistir a capítulos atrás de capítulos sem parar.

Knights of Sidonia, portanto, encontra-se no lugar perfeito e, melhor, a nosso alcance! Trata-se de um anime que puxa evidentes elementos de famosos materiais que o antecederam, mas que se firma como uma experiência sólida, criativa e única. Por mais que conte com alguns defeitos, em especial na animação em si, facilmente prenderá suas audiências, oferecendo não só cenas de ação muito bem trabalhadas, como momentos dramáticos angustiantes. Definitivamente, uma boa aposta do Netflix.

Knights of Sidonia (Sidonia no Kishi – Japão, 2014)
Direção:
 Kōbun Shizuno
Roteiro: Sadayuki Murai
Elenco: Hisako Kanemoto, Aki Toyosaki, Ryota Oosaka, Takahiro Sakurai, Aya Suzaki, Eri Kitamura
Duração: 12 episódios de 24 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.