Crítica | Kóblic

estrelas 3

Sebastian Borensztein, responsável por Um Conto Chinês, nos traz mais um filme estrelado por Ricardo Darín, abordando os horrores perpetrados pelo governo ditatorial na Argentina. Temos aqui um instigante thriller com nítidos elementos do western, que certamente consegue divertir sua audiência, mas que, no fim, acaba não fugindo do comum, nos entregando uma obra bastante simples, que peca pela previsibilidade do roteiro.

A trama gira em torno de Tomás Koblic (Darín), um ex-capitão das forças armadas que desertara após presenciar um terrível evento, um dos famosos voos da morte, que marcaram o governo fascista, que traumatizara o protagonista profundamente. Agora ele se esconde em uma pequena cidadezinha, trabalhando como piloto para um amigo seu, jogando inseticida nas plantações locais. A situação complica, contudo, quando o corrupto delegado Velarde (Oscar Martinez) começa a suspeitar da real identidade de Koblic, colocando toda a cidade em alerta para qualquer atividade suspeita, que deve ser reportada diretamente a ele. A crescente paixão do protagonista por Nancy (Inma Cuesta), também não o ajuda, colocando-o em uma maior situação de risco, que pode comprometer seu esconderijo.

Logo de início já sabemos que Velarde funcionará como principal antagonista do longa-metragem. O roteiro procura deixar isso claro, através de um diálogo, no qual o amigo de Tomás o avisa para não confiar no policial. Esse ponto, infelizmente, gera toda a previsibilidade da narrativa, que somente se torna mais evidente conforme progredimos. Logo nos minutos iniciais já sabemos exatamente tudo o que irá acontecer, restando somente a dúvida se o personagem principal irá sair vivo dessa empreitada ou não. Com isso, nossa imersão acaba se quebrando consideravelmente, tornando nossa percepção da passagem de tempo muito mais aguçada – o filme de apenas noventa e dois minutos acaba parecendo ser muito mais extenso, prejudicando nosso aproveitamento da obra.

Felizmente, esse fator é balanceado pela forma crua com a qual retrata a morte. É evidente que há um drama em virtude dos traumas de Koblic, mas, em geral, elas são mostradas sem grandes floreios, nos remetendo aos western spaghetti. De fato, muitos elementos apoiam para esse apoio no gênero, desde a disposição dos personagens, até os cenários em si. A interpretação de Darín nos traz a típica figura calada, que abala as fundações daquela tranquila cidadezinha, com o potencial de livrar aquele lugar do corrupto vilão, que, no caso, se apresenta na forma do delegado.

Este, por sua vez, representa perfeitamente seu papel, espelhando claramente o faroeste. Para começar ele não é exatamente belo – sua falta de beleza externa perfeitamente reflete a interna. Temos uma atuação bastante dramática e canastrona de Martinez, mas ela acaba se encaixando dentro do que é proposto. Infelizmente, isso acaba apagando o foco na terrível ditadura e transforma o longa-metragem em apenas uma história do mocinho contra o malvado, tornando o filme, como já dito anteriormente, em algo que não escapa do comum – temos a mesma trama de centenas de outras obras, apenas mudam os nomes e o local.

Kóblic, portanto, é um filme que não sabe aproveitar plenamente seu material, desperdiçando a possibilidade de nos trazer um interessante foco nos horrores provocados pelo fascismo. Ao invés disso, o que temos é uma trama previsível, que não traz absolutamente nada de novo. Com atores que cumprem seu papel, não temos, de fato, nenhuma atuação que se destaca – mesmo Darín está em sua zona de conforto e não nos traz nada a ser lembrado pelos anos afora. Trata-se de um longa-metragem que, sim, diverte, mas que pode ser facilmente esquecido nos dias que seguem sua exibição.

Kóblic (Koblic) – Argentina/ Espanha, 2016
Direção:
 Sebastián Borensztein
Roteiro: Sebastián Borensztein, Alejandro Ocon
Elenco: Ricardo Darín, Oscar Martínez, Inma Cuesta, Marcos Cartoy Día
Duração: 92 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.