Crítica | Kon-Tiki (1950)

kon-tiki_1950_plano_critico

estrelas 5,0

O século XX – e só para citar esse século – é repleto de feitos corajosos humanos inacreditáveis. Apenas para mencionar alguns, a barreira do som foi quebrada na base da teimosia por Chuck Yeager, Yuri Gagarin entrou em órbita, Neil Armstrong pisou na lua, Edmund Hillary e Tenzing Norgay chegaram ao cume do Everest e Roald Amundsen e sua expedição alcançaram o Polo Sul. Esses homens e mulheres incríveis, misturando coragem com uma sadia dose de insanidade, elevaram os limites do que a humanidade pode alcançar e fizeram história.

Mas, pessoalmente, para mim (meu pai me contava essa história como história de “ninar”), talvez um dos mais incríveis feitos do século passado tenha sido a completa loucura empreendida pelo norueguês Thor Heyerdahl, que navegou, com mais cinco tripulantes, 4.300 milhas náuticas (quase 7 mil quilômetros) em uma jangada feita de madeira de balsa e bambu, ao longo de 101 dias, em 1947, de Callao, no Peru, até uma ilhota desabitada no atol de Raroia, na Polinésia Francesa. Seu objetivo era provar que, ao contrário do que especialistas diziam, era sim possível que as ilhas do Pacífico tivessem sido colonizadas por habitantes das Américas, com base exclusivamente em suas observações empíricas de anos antes quando morou nas Ilhas Marquesas.

Ou seja, no lugar de estender  seus estudos acadêmicos sobre o assunto, Thor resolveu despencar-se em uma balsa construída exclusivamente com tecnologia e técnicas primitivas, em uma viagem que todo mundo, sem exceção, por mais entusiasta que parecesse – os governos norueguês, peruano e americano, especialmente – achava que resultaria em sua morte, em uma espécie de experiência de “arqueologia prática” que tinha como objetivo, fundamentalmente, calar a boca dos historiadores e antropólogos que duvidaram dele. No entanto, além de todas as dificuldades inerentes ao seu projeto, o norueguês decidiu jogar-se no mar (1) sem saber velejar; (2) sem saber nadar; e (3) sofrendo de hidrofobia. Em outras palavras, o sujeito praticamente tinha um desejo forte de suicidar-se com estilo, levando outros cinco voluntários com ele.

Só que tudo deu certo. Muito certo. Inacreditavelmente certo.

E essa mais do que impressionante história é objeto de um igualmente impressionante documentário feito pelo próprio Heyerdahl a partir das filmagens que realizou à bordo de sua jangada, batizada de Kon-Tiki (hoje no Museu Kon-Tiki, em Bygdøy, Oslo), que ele e seus colegas – e voluntários peruanos e equatorianos – construíram a partir dos relatos dos colonizadores espanhóis sobre as embarcações dos nativos e com madeira de balsa e bambu que ele próprio fez questão de recolher em sua região nativa no interior do Equador, levando as toras até o Peru por rios e pelo mar, usando técnicas milenares. Trata-se de uma obra curta, que não perde muito tempo contando os detalhes dos preparativos para a empreitada e costura as filmagens com fotografias e mapas, além de uma narração eficiente e ritmada.

Se imaginar uma aventura como essa já é difícil, conceber como Heyerdahl e seus colegas ainda tiveram tempo e força para manusear eficientemente uma câmera sem serem experts em cinema é realmente de fundir a cabeça. Ainda que parte dos rolos tenha se perdido para a água salgada, o que sobreviveu permite uma visão muito clara dos 101 dias em que a minúscula jangada Kon-Tiki e seus seis tripulantes – sete, se contarmos com o papagaio fêmea Lorita – levou para percorrer seu longo caminho dependendo exclusivamente das correntes marinhas e do vento. Valem nota os momentos empregados em lidar com a relativamente confortável quantidade de peixes – grandes e pequenos – que eles conseguiram pescar (ou que “voavam”, por cortesia, até eles), além de encontros bastante desagradáveis com baleias que, se esbarrassem no barco, poriam tudo a perder, tubarões, que praticamente passaram o tempo todo cercando a embarcação e um enorme e assustador tubarão-baleia que resolveu segui-los.

Além disso, a triunfal chegada deles à civilização ganha contornos de filme de suspense, pois uma de suas maiores lutas, ao longo da odisseia, era fazer com que a jangada navegasse em direção diferente que a da correnteza. Apenas com remos e um leme pré-histórico à disposição, os seis homens tinham que brigar valentemente contra a inexorável ditadura da maré, o que fez com que o barquinho tangenciasse, mas não se aproximasse de verdade de nenhuma ilha que avistaram, ao ponto de eles terem sido obrigados a literalmente encalhar a Kon-Tiki nos corais. Aliás, é muito interessante como o documentário é eficiente em aproximar o especador da força da natureza, força essa por um lado benevolente – considerando a comida por intermédio da pescaria – e, do outro, bastante teimosa, recusando-se a curvar perante o Homem. É como ver um daqueles fascinantes documentários da Discovery Channel, mas com um constante senso de perigo e ansiedade pelos aventureiros, mesmo que, como foi meu caso, o espectador conheça como a viagem acabou.

Em termos técnicos, o documentário segue a estrutura cronológica básica, com imagens de semi-profissionais a amadoras, mas que são capazes de nos colocar em meio às dificuldades da tripulação. E, por mais simples que tenha sido o enfoque de Heyerdahl, a qualidade em si da captura das imagens é muito boa, especialmente se considerarmos que o filme teve que sobreviver às intempéries assim como os cinegrafistas, debaixo de sol escaldante e não muito acima de muita água salgada. Trata-se de um documentário que vale muito mais pelo feito em si, do que por qualquer análise técnica de sua qualidade e o mero fato de ele existir sob qualquer forma já é um pequeno milagre, algo reconhecido pela Academia, que deu ao filme o Oscar de Melhor Documentário, em 1952.

Kon-Tiki é, sem dúvida alguma, um relato da tenacidade, coragem, teimosia – e sim, loucura – humanas. Diante do que testemunhamos nesses breves 77 minutos, percebemos o quão preguiçosos somos diante de gigantes como Thor Heyerdahl e companhia. A eles e à memória do que fizeram, proponho um brinde: Skål!

Kon-Tiki (Idem, Noruega/Suécia – 1950)
Direção: Thor Heyerdahl
Escrito por: Thor Heyerdahl
Com: Thor Heyerdahl, Herman Watzinger, Erik Hesselberg, Knut Haugland, Torstein Raaby, Bengt Danielsson
Duração: 77 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.