Crítica | Kong: A Ilha da Caveira

kisk

estrelas 3,5

Sempre me pego imaginando como devem acontecer reuniões de pauta e brainstorming de ideias em Hollywood. Ainda que seja um dos ícones mais poderosos do cinema americano, tenha rendido três versões hollywoodianas, com o clássico de 1933 e os remakes de 1976 e 2005, e até despontado em derivados para enfrentar o monstro japonês Godzilla, vide King Kong vs. Godzilla, o símio gigante King Kong é uma fonte que já secou. Não parecia ter mais nada o que fazer com o personagem, já tendo sua metáfora da Bela e a Fera tendo sido executada com eficiência em todas as suas versões para o cinema.

Mas aí voltamos para a reunião de estúdio, especificamente nos lots da Warner Bros em Los Angeles. “E se King Kong encontrasse Apocalipse Now?” deve ter divagado John Gatins, creditado pelo argumento original de Kong: Ilha da Caveira. E por mais que pareça um comentário sarcástico e irônico, a verdade é que a mistura funciona surpreendentemente bem, ainda que longe de oferecer algo novo.

A trama é ambientada em 1973, quando os EUA preparam para retirar suas tropas do Vietnã e o mundo vai tomando rumos diferentes. Nesse cenário, o cientista Bill Randa (John Goodman) e o geólogo Houston Brooks (Corey Hawkins) tentam receber permissão do senado americano para iniciar uma expedição a uma ilha misteriosa na Costa do Pacífico, onde Randa acredita ser o lar de monstros e criaturas que habitaram a Terra antes da Humanidade. Com uma escolta militar que conta com um sargento vivido por Samuel L. Jackson, um mercenário com as feições de Tom Hiddleston e a fotógrafa de Brie Larson, o grupo segue para a perigosa habitação, onde descobrem o gorila gigante Kong e sua luta para proteger a Ilha da Caveira das bizarras criaturas que a habitam.

Confesso que é um projeto que me provocava preguiça sempre que lembrava de sua existência. Kong já deu o que tinha que dar, e a ideia de trazê-lo sob um cenário e visual inspirados no clássico de guerra de Francis Ford Coppola parecia interessante para um trailer ou talvez um curta-metragem no YouTube. Mas confesso que a direção de Jordan Vogt-Roberts (do indie Os Reis do Verão) é um dos fatores que faz valer essa mistura incomum, desde a fotografia amarelada de Larry Fong até o cuidado em estabelecer uma mise-en-scène segura e criativa ao longo das diversas sequências de ação. A chegada na ilha, por exemplo, é efetiva e claustrofóbica por centrar-se em planos fechados dos personagens e na voz em off de Samuel L. Jackson, que acompanha o percurso.

Vogt-Roberts também mostra-se muito criativo em sua condução do espetáculo. Ainda que predominada por efeitos visuais e criaturas CGI, como o King Kong de Peter Jackson, os grandes conflitos do filme se beneficiam de um câmera virtual ágil e elaborada, que constantemente circula a ação e oferece visões em slow-motion num estilo similar ao de Zack Snyder em 300. O diretor também merece créditos pelo uso preciso e pontual de super closes nos olhos dos personagens, algo que acentua o conflito do militar de Jackson pelo gorila gigante, assim como os grandiosos planos abertos que valorizam a vasta diferença de tamanho entre Kong – muito expressivo graças ao motion capture de Toby Kebell – e os demais humanos. Além de todo esse cuidado visual admirável, vale ao menos mencionar o primoroso trabalho de edição e mixagem do som do longa, que explode em sequências de pancadaria e ainda oferece pequenos momentos de brilhantismo, como quando os soldados tentam localizar uma criatura seguindo o som de uma máquina fotográfica presa em seu estômago.

Porém, tirando o visual e essa experiência divertida proporcionada pela pirotecnia, não há nada de muito memorável neste Kong. Por incrível que pareça, o argumento simplista de John Gattins precisou de três cabeças pensantes para se escrever o roteiro, que ficou aos cuidados de Dan Gilroy, Max Borenstein e Derek Connolly; responsáveis por O Abutre, Godzilla e Jurassic World, respectivamente. Não há muito o que se criticar sobre a trama, visto que é simples e direta demais para se proporcionar invencionismos, mas todos os personagens que a povoa são terríveis e meros instrumentos para nos manter distraídos de Kong e os demais monstros. Só não chega a ser insuportável por termos nomes como Tom Hiddleston, Brie Larson e Samuel L. Jackson ali, todos capazes de garantir ao menos uma presença marcante e carismática, não importando a qualidade precária de seus personagens. Mas a surpresa mesmo é com John C. Reilly, que abraça um papel completamente atípico em sua carreira e se sai muito bem, principalmente por saber dosar seu timing cômico à natureza de seu personagem; se este Kong é Apocalipse Now, Reilly é – de certa forma – seu Marlon Brando.

É de se espantar que três roteiristas não consigam lidar melhor com exposição ao invés de nos estapearem com frases ridículas como “O seu diploma de Geologia em Yale vai nos salvar agora?” ou “Você vai fotografar um mapeamento quando poderia estar fotografando a capa da Time?”, para citar apenas os que sobreviveram na memória. Isso sem falar no artifício extremamente preguiçoso e piegas que o trio usa constantemente, quando brincam com uma “carta imaginária” para o filho de um dos soldados, sempre iniciando a frase com “Querido Billy…” e inserindo algum comentário banal sobre acontecimentos e decisões de outros personagens; especialmente na irritante e artificial dinâmica “cômica” entre os personagens de Shea Whigman e Jason Mitchell.

Aproveitando ao máximo sua premissa incomum, Kong: Ilha da Caveira é um festival de clichês e estereótipos que falha em provar-se como algo mais do que mero entretenimento, mas que ao menos faz valer a visita ao cinema e oferece um cuidado plástico caprichado pelas mãos de seu diretor talentoso. Porém, o que mais deve animar é a promessa de que este Kong cruzará seu caminho com algo muito maior no futuro, já que a cena pós-créditos confirma um inesperado universo cinematográfico.

Kong: A Ilha da Caveira (Kong: Skull Island) — EUA, 2017
Direção: Jordan Vogt-Roberts
Roteiro: Dan Gilroy, Max Borenstein e Derek Connolly
Elenco: Tom Hiddleston, Brie Larson, John Goodman, Samuel L. Jackson, John C. Reilly, Corey Hawkins, John Ortiz, Tian Jing, Jason Mitchell, Thomas Mann, Shea Whigman, Toby Kebbell
Duração: 118 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.