Crítica | Koyaanisqatsi – Uma Vida Fora de Equilíbrio

estrelas 5,0

Obs: Esse não é um filme em que o conceito de spoilers se aplique, mas o espectador terá uma experiência mais completa se mergulhar em Koyaanisqatsi sem conhecimentos prévios, para que tire suas próprias conclusões. Assista, pois vale muito a pena e, depois, volte aqui para debatermos.

Querem uma prova de que o ditado “uma imagem vale mais do que mil palavras” está correto? Querem ser hipnotizados por um filme como raras vezes realmente acontece? Então não percam a experiência que é Koyaanisqatsi.

E experiência é a melhor forma de classificar essa fita que desafia convenções, especialmente se voltarmos a 1982, quando narrativas dessa natureza ainda eram novidade. Feito com o dinheiro que literalmente sobrou de uma bem sucedida campanha publicitária de long prazo no Novo México, essa obra audiovisual pode ter o jeito de um documentário, mas é muito mais do que isso na verdade. Godfrey Reggio reuniu imagens especialmente capturadas para a fita em diversos lugares dos EUA com diversas outras filmagens de arquivo e, usando diferentes técnicas como câmera lenta, time lapse, exposição dupla do filme em determinadas sequências e uma montagem que costura temática e logicamente o raciocínio da “história” que ele deseja contar – mostrar seria o termo mais correto – ele criou uma das obras mais contundentes dos anos 80 que tem talvez ainda mais aplicabilidade nos dias de hoje.

Não há voz – a não ser a palavra que dá nome ao filme, de origem Hopi e que significa, dentre outros, exatamente o que o subtítulo em português indica e que é cantada em um cavernoso basso profondo por Albert de Ruiter – apenas a incrível trilha sonora de Philip Glass composta para o filme e que se tornou um sucesso sendo até hoje muito lembrada e que faz a costura entre as várias impressionantes sequências que, em um primeiro e desavisado olhar, parecem aleatórias. Mas não há nada de aleatório em sua escolha e em sua montagem na ordem em que está e, aos poucos, o espectador vai percebendo isso e, boquiaberto, descobre que a linguagem falada talvez não seja capaz de passar tanta informação quanto a linguagem visual e sonora que Reggio surpreendentemente cria.

Explicar o filme é uma tarefa ingrata, pois colocar em palavras a majestade que vemos e ouvimos é reduzir Koyaanisqatsi a algo “comum” e “corriqueiro” e esses adjetivos não têm aplicabilidade nenhuma aqui. Mas, para fins dessa crítica, tentarei desconstruir a obra em um prelúdio, quatro momentos e uma conclusão.

O prelúdio é breve e coloca em oposição imagens da natureza (precisamente o Cânion Horseshoe em Utah) em oposição ao lançamento do foguete Saturno V (o foguete do programa espacial americano que até hoje tem o título de “mais poderoso já feito”). O objetivo, aqui, só fica realmente claro com o desenrolar da obra, sendo que é até difícil compreender exatamente que estamos vendo um close-up do foguete.  Mas o prelúdio encapsula, em algo como um minuto, todo o espírito da criação de Reggio.

Em seguida, vem o primeiro momento, em que somos brindados com imagens da natureza em estado bruto, sem qualquer interferência humana. Parecem imagens aleatórias estilo National Geographic, mas elas parecem estabelecer (não quero de forma alguma impor visões!) os primórdios do planeta em que vivemos em seu estado puro e imaculado. A transição acontece de modo inusitado, quando vemos, rapidamente, plantações de flores e percebemos, de forma lírica, o começo da interferência humana. Esse é o segundo momento, mas Reggio não continua mostrando a “beleza” da chegada do Homem e sim as consequências para o planeta com a constante tomada de território para os mais variados fins. Assim, somos levados a lagos artificiais, linhas de transmissão, usinas nucleares, minas de carvão e uma particularmente perturbadora tomada de uma explosão nuclear com uma árvore Joshua em primeiro plano. O choque marcará qualquer um com um mínimo de sensibilidade.

Mas o discurso de Reggio, apesar de ser claramente ambientalista (e um dos precursores nisso), não necessariamente condena o estado das coisas. Há uma tentativa, talvez subliminar, talvez inexiste e que seja um delírio meu de demonstrar a harmonização entre natureza e seres humanos. Os primeiros que aparecem, aliás, estão em uma praia ao lado da Usina Nuclear de San Onofre, no sul da Califórnia. É uma convivência nervosa, estranha, mas parte da inevitabilidade da chamada vida moderna.

E, na terceira parte da projeção, vemos o mundo frenético em que vivemos (e estamos olhando para 1982, com imagens de 1975 em diante – imagino como seria Koyaanisqatsi hoje, mais de 30 anos depois), eminentemente feito de plástico e vidro e a vida em sociedade (ou talvez seja melhor afirmar “a vida apesar da sociedade”). Reggio troca as belas câmeras lentas que marcaram os momentos anteriores por time lapse e dupla exposição do filme em alguns trechos que transmitem o frenesi do dia-a-dia em cidades grandes, com algumas imagens realmente inesquecíveis como a do balé humano/tecnológico formado por automóveis e pedestre na Park Avenue, em Nova York ou só por pessoas na Grand Central Station.

A quarta parte é curta, mas começa a abordar assuntos que apenas no filme seguinte da Trilogia Qatsi (Powaqqatsi) seriam mais completamente desenvolvidos: as consequências da concentração de riquezas e os “esquecidos” nesse processo. Vemos, no meio da sociedade frenética, em imagens novamente lentas, os idosos, os despossuídos, os relegados a peças em uma engrenagem viciante e kafkiana. E, finalmente, temos a conclusão que parece ser sombria, com o uso entrecortado de sequências de arquivo diferentes, mas que, com a montagem, parecem ser uma coisa só: a majestosa decolagem da Saturno V e a desastrosa explosão da primeira missão Atlas-Centauro e uma longa tomada dos destroços caindo.

A visão pessimista de Reggio, porém, tem camadas que coroam a inevitabilidade do caminho que seguimos e serve como um “despertar” para os problemas, de maneira que ainda tentemos evitá-los ou minimizá-los. Se nós aprendemos com essas imagens valiosas que realmente valem muito mais do que milhares de palavras? Ah, olhem à nossa volta e concluam por vocês mesmos…

Koyaanisqatsi – Uma Vida Fora de Equilíbrio (Koyaanisqatsi, EUA – 1982)
Direção: Godfrey Reggio
Roteiro: Ron Fricke, Michael Hoenig, Godfrey Reggio, Alton Walpole
Duração: 86 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.