Crítica | Krypton – 1X02: House of El

  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Vou começar quase que com um adendo à minha crítica do episódio piloto. É que esqueci de comentar algo que me incomodou muito e que é ainda mais saliente em House of El: o sotaque britânico. Sei que diversos atores, incluindo Cameron Cuffe, são efetivamente britânicos, mas o Superman é o super-herói mais americano da DC Comics, o equivalente ao Capitão América da Marvel Comics, para todos os efeitos. O sotaque britânico bem proeminente é para que? Emprestar um ar de sofisticação artificial à série? Para contrastar com o jeito molambento de Adam Strange? Sei que é só implicância, mas queria deixar registrado.

No segundo episódio da série, o grande foco fica na relutância de Seg-El em aceitar a história de Adam Strange de um lado e na luta de Lyta-Zod para evitar um banho de sangue com a iminente iniciativa militar para sufocar o grupo terrorista Zero Negro sem se preocupar em efetivamente localizá-los na parte baixa de Kandor. Nenhuma das duas linhas narrativas, porém, funciona em sua plenitude.

Na primeira delas, vemos um Seg-El irracional, ainda fervilhando pelo desejo de vingança pelo assassinato de seus pais. O alvo de sua raiva não é Jayna-Zod, porém, mas sim Daron-Vex, o homem mais diretamente responsável pela morte de seu avô e pela desgraça da cada El e que quer trazer Seg para sua família, inclusive unindo-o à sua filha Nyssa. Nesse aspecto, é interessante notar que a dupla Vex tem um plano e está agindo na base no good cop, bad cop, aos poucos estabelecendo laços mais profundos com Seg que, por seu turno, não consegue enxergar muito bem o que está acontecendo.

Nesse mix, porém, o roteiro mão pesada do showrunner Cameron Welsh dedica um bom tempo para explicar a base teológica da religião kryptoniana, basicamente uma reprodução da transição do politeísmo ao monoteísmo que vimos aqui na Terra. A incongruência, porém, está na cegueira de toda a casta superior, tão tecnologicamente desenvolvida, mas ao mesmo tempo tão presa a dogmas extremamente restritivos que não permite que ela acredite, por exemplo, em vida fora de Krypton. Ora, se há, como fica sacramentado no episódio, vigilância do espaço profundo por meio de sondas e satélites, como isso pode de alguma forma ser pareado com a teimosia kryptocêntrica que foi a base para a condenação de Val-El? Como aceitar que um planeta tecnologicamente superior ao nosso mesmo já há 200 anos, mantém preceitos tão pequenos? E não digo isso como uma forma de condenar a religião que venera Rao. As coisas não são incompatíveis e podem coexistir. O problema é que os roteiros forçam uma incompatibilidade que, pelo menos com base no que foi mostrado até agora, não tem lógica interna alguma. Vamos ver como isso se desenvolve mais adiante.

Ainda nessa primeira linha narrativa, o episódio dá um bom espaço a Cameron Cuffe e o que eu temia começa a concretizar-se. O rapaz parece ter a mesma expressividade de seu colega Stephen Amell, que vive o Batman verde em Arrow. Basta reparar o quanto ele não muda entre a raiva resoluta que ele reúne para matar Daron-Vex, o olhar de agradecimento pelas cinzas de seus pais entregues por Nyssa e a felicidade extrema ao ver Val-El novamente. Espero muito que ele melhore, senão vou começar a torcer pela destruição antecipada de Krypton.

E isso me leva a um interlúdio…

Repararam como o objetivo da série é evitar que Krypton seja destruído para que o planeta seja destruído? Pois é isso mesmo. Sua destruição é inevitável, a não ser que queiram mudar esse “pequeno detalhe” na mitologia do Superman, então o que Adam Strange realmente quer é evitar que o planeta vire pó antes que Kal-El nasça, algo que ele vem maldosamente escondendo do futuro avô. Será muito divertido quando ele contar isso para Seg e a informação ser recebida com a mesma exata feição que Cuffe usou no encontro de seu personagem com o holograma de Val.

Sei que estou sendo maldoso, mas é verdade. Por outro lado, é alvissareiro notar que Shaun Sipos está conseguindo mostrar a que veio, fazendo seu estranho Strange funcionar como um misto de alívio cômico e mensageiro do apocalipse. A interação dele com Kem (Rasmus Hardiker), barman e amigo de Seg, foi o ponto alto do episódio. Outro ponto feliz foi a volta de Ian McElhinney como o Val-El digital, algo que emula, claro, o que Jor-El fará com Kal-El na segunda versão da Fortaleza da Solidão. O paralelismo é bem-estruturado e dá um norte lógico à série, já estabelecendo que será por ali que Seg crescerá tecnológica e cientificamente de forma a conseguir enfrentar Brainiac e restabelecer a casa El na hierarquia kryptoniana.

E, passado o interlúdio, há que se comentar sobre a segunda linha narrativa, com Lyta-Zod sacrificando-se para impedir o massacre do povo da casta inferior kandoriana. Aqui, a mensagem sócio-política fica evidente e merecia um pouco mais de delicadeza do roteiro que só falta escrever com letras garrafais na tela, com direito a setas luminosas e gráficos comparativos, a questão do terrorismo versus preconceito. Sim, a mensagem é importante, mas tudo é a forma como a coisa é feita. Há o elegante e há o óbvio ululante. Sempre preferirei o primeiro método.

Mas o combate marcial entre Lyta e Quex-Ul (Gordon Alexander) é um desenvolvimento abrupto, mas funcional para fincar a importância aspirante a comandante imediatamente na série. A futura mãe do sanguinário General Zod (mal sabe ela, tadinha) funciona bem em combate e a coreografia demonstrada não deixa nada a dever a outras séries do gênero, inclusive até Agents of S.H.I.E.L.D. Lógico que o final todo mundo já sabia, o que reduz a tensão do momento, mas a sequência foi bem encaixada, mesmo considerando que é uma história que ainda não tangencia a de Seg além do romance entre ele e Lyta.

House of El dá algumas derrapadas, mas continua mostrando o potencial da série. Se Cuffe conseguir parar de bufar e mostrar alguma latitude dramática (só um pouquinho!), a série poderá realmente mostrar que tem consistência para ser mais do que apenas mais uma série de super-heróis, mesmo que insistam no sotaque britânico kryptoniano.

Krypton – 1X02: House of El (EUA – 28 de março de 2018)
Showrunner: Cameron Welsh
Direção: Ciaran Donnelly
Roteiro: Cameron Welsh
Elenco: Cameron Cuffe, Georgina Campbell, Shaun Sipos, Elliot Cowan, Ann Ogbomo, Aaron Pierre, Rasmus Hardiker, Wallis Day, Blake Ritson, Ian McElhinney, Gordon Alexander
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.