Crítica | Krypton – 1X03: The Rankless Initiative

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Nadria Tucker deve ter escrito o roteiro de The Rankless Initiative seguindo ao pé da letra o Manual Greg Berlanti de Clichês Televisivos. Não há nada, absolutamente nada no episódio que tenha sequer uma distante fragrância de originalidade ou mesmo de bom uso dos clichês que, em si, não são a raiz do problema que está muito mais em como eles são usados.

Até mesmo uma perigosa pista de que a série pode enveredar pelo caminho irritante de “ameaça da semana” o episódio tem, com um parasita tecno-orgânico de Brainiac infectando Rhom (Alexis Raben), a mãe da garotinha Ona (Tipper Seifert-Cleveland), ambas apresentadas no episódio anterior. Espero fortemente que tenha sido apenas impressão minha, pois não faz sentido algum uma temporada de 10 episódios de um canal a cabo seguir a estrutura antiquada e modorrenta das televisões abertas americanas.

O primeiro grande problema do roteiro é a mão pesada na crítica social. O nome do episódio faz referência à estratégia da elite kandoriana de localizar o Zero Negro custe o que custar e que levou Lyta-Zod a enfrentar seu ex-comandante. Seu objetivo, claro, era evitar o pior, mesmo que ela não tenha controle completo da situação. Não há nada errado em condenar a brutalidade policial, mas o problema é que o texto subestima o espectador e deixa evidente, desde o primeiro segundo que vemos o rosto enfurecido de Kol-Da (Andrea Vasiliou) na sessão de instruções de Lyta, que será ela o estopim da tragédia. Além disso, a inabilidade do texto telegrafa cada detalhe do que está para acontecer sem deixar qualquer dubiedade no ar. É “pão, pão, queijo, queijo”, sem qualquer desvio da avenida aberta para aquilo que sabemos que acontecerá. Faltou o mínimo de sofisticação aqui.

Mas eu não tenho ilusões. Não esperava, de forma alguma, algo inesperado ou com uma reviravolta espetacular. Desejar isso é besteira na maioria das vezes, pois filmes e séries não deveriam viver desse tipo de artifício narrativo. Fazer o banal de forma inteligente é mais difícil, diria, pois o banal é justamente o que é esperado por todos, dependendo, então, exclusivamente da forma de execução da banalidade. Em The Rankless Initiative, o banal é bobo, óbvio, previsível em cada detalhe e, portanto, completamente sem coração, sem que sintamos qualquer urgência ou qualquer perigo. Claro, a crítica social continua válida, mas ela perde sua força; é diluída por diálogos extremamente expositivos e atuações robóticas.

No lado do parasita de Brainiac, o episódio também não é bem-sucedido. Temos o computador holográfico que sabe tudo de qualquer coisa, o flashback conveniente e completamente desnecessário, as coincidências e a extrema facilidade na localização do vetor do parasita, o duelo na base do “lute contra o controle maligno, lembre de sua filha” e a revelação final de que todo o esforço foi em vão. A burocracia e a preguiça do texto é patente e começa já com o holograma de Val-El sabendo todos os detalhes sobre um objeto que ele nunca viu antes (e não, nada me convencerá que ele conhece Brainiac melhor do que sua própria esposa, observando-o a partir de Krypton) e continua por cada diálogo que descreve o que está acontecendo ou a pseudo-ciência que o showrunner acha que precisamos entender para captarmos sua mensagem “complexa”.

Mas nem tudo se perde no episódio. O trabalho do design de produção continua muito bom, especialmente no que se refere aos diferentes uniformes da força policial kandoriana, com especial destaque para o da comandante Lyta-Zod e dos soldados com capacete. Além disso, é muito bom notar, ainda que indiretamente, nas sequências fora da redoma protetora da cidade, que Krypton parece ter uma história antiga, provavelmente apocalíptica, algo que vemos em O Mundo de Krypton, de John Byrne, e que pode ser explorado ainda na série para possivelmente dar estofo ao Zero Negro e à mudança recente para o monoteísmo.

Mas o maior destaque fica mesmo para a transformação de Rhom em um ser biomecânico que muito me lembrou – mais uma vez – os Borgs, de Star Trek. A combinação de próteses, maquiagem e computação gráfica funcionou muito bem, mesmo que vejamos pouco da personagem depois de sua infecção pelo parasita. A fusão foi convincente e mostra potencial para quando o grande vilão efetivamente chegar ao planeta que já vem prometendo grandes momentos de CGI com a imagem que vemos repetidas vezes de sua gigantesca e ameaçadora nave no espaço.

Fica a torcida para que The Rankless Initiative seja um soluço na temporada. Não que o que veio antes tenha sido excepcional, mas pelo menos mostrava potencial. O terceiro episódio incomoda por ser parecido demais com tudo o que vemos de pior por aí em séries adolescentes de super-heróis. Ninguém aguenta tanta mediocridade, não é mesmo?

Krypton – 1X03: The Rankless Initiative (EUA – 04 de abril de 2018)
Showrunner: Cameron Welsh
Direção: Steve Shill
Roteiro: Nadria Tucker
Elenco: Cameron Cuffe, Georgina Campbell, Shaun Sipos, Elliot Cowan, Ann Ogbomo, Aaron Pierre, Rasmus Hardiker, Wallis Day, Blake Ritson, Ian McElhinney, Gordon Alexander, Alexis Raben, Tipper Seifert-Cleveland, Andrea Vasiliou
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.