Crítica | Krypton – 1X04: The Word of Rao

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Quando a sequência de tortura e interrogatório de Seg-El por um grupo que parece, mas aparentemente não é o Zero Negro, acabou, tive vontade de desligar o episódio e ir dormir. Naquele exato momento foi que percebi que não só Cameron Cuffe é limitado, como ele é ruim mesmo ao ponto de destruir qualquer resquício de tensão da cena e de atrapalhar até mesmo a performance do normalmente bom (do seu jeito intenso de ser) Colin Salmon como o líder sem nome da equipe sem nome.

Mas sou insistente e, no final das contas, por incrível que pareça, The Word of Rao funcionou. Ou, pelo menos, funcionou melhor do que o fraco The Rankless Initiative que foi o primeiro episódio a realmente desapontar-me. A questão é que os véus caíram e a trama andou. Tudo bem que o tal grupo misterioso recém-introduzido é mais um mistério a ser desvendado, mas isso faz parte. No entanto, a trama da casa Vex ficou às claras: Daron e Nyssa estão trabalhando em um golpe de estado, para derrubar a Voz de Rao, o sujeito misterioso que usa aquela máscara bizarra cheia de rostos representativos dos antigos deuses de Krypton. E, mais ainda, entendemos como funciona o quebra-cabeças do plano deles, que querem atrair a casa Zod como o braço militar do golpe e o próprio Seg como uma espécie de ponte entre as castas superior e inferior de Kandor. Não é nada terrivelmente complexo ou original, mas aquele jogo de sombras deixou de existir, deixando tudo mais às claras e permitindo que o espectador veja o quadro maior.

Esse quadro maior, aliás, inclui Brainiac. Aparentemente, o futuro invasor do planeta é mais conhecido ali do que se imaginava, já que o personagem de Salmon interroga Seg justamente sobre detalhes do que ocorrera no episódio anterior, especialmente o paradeiro de Rhom, controlada pelo parasita tecno-orgânico do Colecionador de Mundos. Nesse ponto é que sinceramente espero uma explicação mais lógica e fluida sobre como Brainiac é tão conhecido em um planeta em que se conceber que existe vida extraterrestre é heresia. Como Val-El e, agora, o grupo que tortura Seg, sabe tanto sobre o vilão, inclusive o uso de drones para colocar seus planos em movimento?

Falando em plano, a relação da pequena Ona com Kem, com a morte iminente de Rhom, pareceu-me forçada, assim como a repentina devoção da menina a Rao. No entanto, com a revelação final de que ela estava sob controle de Brainiac para infectar exatamente a autoridade máxima da cidade, as peças se encaixaram muito bem em uma reviravolta que, se não foi surpreendente, teve harmonia com o que sabemos dos drones até agora. Além disso, essa complexidade toda na estratégia de dominação de Brainiac significa que ele quer mais do que só “engarrafar” Kandor para colocar em sua coleção. O que exatamente ainda é especulação, mas, pelo visto, o extraterrestre não é assim tão poderoso quanto inicialmente imaginado pela imponência de sua gigantesca nave.

A trama envolvendo a prisão de Lyta-Zod não funciona bem em seu começo, parecendo artificial demais. Mas é outro elemento que, ao longo do episódio, passou a fazer pleno sentido, ainda que Nyssa tenha muita razão em apontar ao pai que a morte da comandante pode afastar tanto Jayna quanto Seg da tentativa de golpe de estado, algo que Daron se recusa a enxergar, fazendo com que a clone mais nova de Brigitte Nielsen resolva ela mesmo fazer o que o pai não fez. A intriga interna na casta superior de Kandor é interessante, assim como o aspecto religioso que permeia a narrativa e eu quase acho que talvez seja mais interessante primeiro que a série foque nesse núcleo do que partir logo para uma força invasora que terá o condão de unir cada facção em torno de um bem comum. É potencialmente por isso que o plano de Brainiac não é só chegar, apertar o raio miniaturizador, colocar a rolha na garrafa e partir para o próximo planeta.

Mas o melhor até agora é algo que não temos visto na série: o Superman. Sim, os elementos da mitologia do herói estão todos lá, mas Krypton é uma série que tem prescindido de uma presença muito forte do futuro Kal-El. Não fosse a capa do herói servindo de lembrete ali em um canto da Fortaleza da Solidão, seria fácil esquecer completamente que estamos vendo um prelúdio. E o bom disso é que a série consegue criar sua própria mitologia, sua própria história auto-contida, sem precisar toda hora – como em Supergirl, por exemplo – referenciar o personagem mais famoso. Em algum momento isso será necessário, lógico, já que a presença de Adam Strange não nos deixa esquecer de que os eventos que vemos transcorrer na série, de uma forma ou de outra têm relação direta com o futuro que Strange representa. No entanto, pelo menos até agora, essa ligação tem sido tênue, o que só ajuda Krypton.

Se Cameron Cuffe não tem muito jeito, creio que a série ainda tenha. The Word of Rao fez as coisas andarem e tornou as tramas internas mais interessantes. É torcer para que a resolução do golpe de estado e da invasão de Brainiac seja bem conduzida.

Krypton – 1X04: The Word of Rao (EUA – 11 de abril de 2018)
Showrunner: Cameron Welsh
Direção: Keith Boak
Roteiro: Luke Kalteux
Elenco: Cameron Cuffe, Georgina Campbell, Shaun Sipos, Elliot Cowan, Ann Ogbomo, Aaron Pierre, Rasmus Hardiker, Wallis Day, Blake Ritson, Ian McElhinney, Gordon Alexander, Alexis Raben, Tipper Seifert-Cleveland, Andrea Vasiliou, Colin Salmon
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.