Crítica | Krypton – 1X08: Savage Night

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Depois de ficar em um marasmo sem fim, Krypton mostrou vontade de se acertar em Transformation e, agora, com Savage Night, a série finalmente mostra de verdade seu potencial ao impulsionar a trama a passos largos, chocar o espectador e, melhor ainda, relativizar praticamente todos os personagens menos Seg-El que, claro, continua como sempre foi, insosso como canja de galinha de hospital. Estamos próximos do final, mas a promessa de algo realmente interessante fica no ar e pode muito bem concretizar-se.

Para começar, pela primeira vez aprendemos um pouco mais sobre o passado de Adam Strange, personagem que catalisa a história principal, mas que permaneceu muito tempo sem grande relevância. Se ele escondeu de Seg o detalhe de que Krypton precisa explodir para que um dia o universo tenha o Superman, aqui ele ganha outros contornos. Voltamos duas semanas ao passado (ou seja, toda a temporada até agora passou-se em apenas 15 dias), logo depois que ele desaparece de repente pela primeira vez, e descobrimos que ele estava em algum lugar do espaço-tempo, em um corredor muito branco e envidraçado conversando com as vozes incorpóreas de Alana e Sardath que, nos quadrinhos, são respectivamente a esposa e o sogro dele. No entanto, fica mais do que evidente que as duas vozes não gostam muito de Adam e duvidam de sua capacidade de ser qualquer coisa de valor. Apesar de ser irritante o recurso das vozes misteriosas, o importante é notar que a conversa parece revelar que, mais do que querer salvar Superman, Adam faz o que faz por razões egoístas, para mostrar sua coragem para as duas vozes e cair em suas graças. O que isso pode significar não está claro, mas seu sacrifício, ao final, talvez mostre um pouco de seu caráter, a não ser que tudo tenha sido um plano maquiavélico dele, o que acho improvável.

De toda forma, essa nova faceta de Adam Strange adiciona um certa pimenta à narrativa e torna tudo bem menos claro e simples do que estava sendo construído. Não queria afirmar que essas mudanças estão vindo tarde demais, pois elas funcionam, mas o fato é que o desenvolvimento lento da temporada, olhando em retrospecto, confirma-se como realmente um “andar de lado” para enrolar a história até esse ponto. Longe de ser o fim do mundo (ou perto, não sei…), mas Krypton teria se beneficiado de mais celeridade sendo mostrada mais cedo.

O que importa, porém, é o velho ditado que afirma “antes tarde do que nunca” e Savage Night é o “tarde” bom, muito bom, especialmente se levarmos em conta a dolorosa morte de Ona como um aparente veículo terrorista do Sentinela de Brainiac. Deveria ter colocado aspas em “morte” logo acima, pois confesso que ainda tenho dúvidas se a menina morreu de verdade. Usá-la com garota-bomba pareceu-me uma atitude sem sentido do grande vilão, ainda que possível, e acho também improvável que tudo tenha sido um plano conjunto com Adam Strange, pois isso macularia mortalmente o pouco de caráter que o personagem ainda tem. Não descarto completamente a segunda hipótese, mas a primeira é mais simples e objetiva, ainda que a mulher misteriosa (Natalia Kostrzewa) que aparece ao final, em tese paralisada em lugar e tempo incertos e não sabidos para onde Adam vai, tenha grande chance de ser a própria Ona do futuro. Digo isso, pois não sei se uma série como Krypton teria coragem de matar desse jeito uma menininha indefesa que, mal ou bem, foi trabalhada ao longo da temporada com um certo cuidado. Mas não adiante especular muito, pois, creio, descobriremos em breve a verdade.

Voltando para Krypton antes da explosão, a conversa um tanto quanto expositiva entre Jayna e seu neto Dru revela também outra faceta do segundo viajante no tempo. Afinal, até mesmo para a relutante golpista Jayna, ficou evidente que o plano por trás do plano dele é dominar o planeta, algo que ela não hesita em contar para Seg, apesar de ele ser parvo demais para fazer algo que realmente consiga parar Dru (e sim, sou implicante com o protagonista, não tem jeito). Mas, assim como Adam, o general Zod esconde suas verdadeiras intenções, mesmo que, pessoalmente, eu ainda não consiga visualizar como ficar do lado de Adam já que estamos falando da abdução de uma cidade e da futura destruição de um planeta habitado inteiro como consequência disso. Se o preço para salvar o planeta é aceitar Dru como ditador, que seja, pois um ditador sempre pode ser deposto mais para a frente. E, mais ainda, se isso criar uma realidade alternativa em que Krypton não é destruída e Kal-El não se torna Superman, que assim seja, pois abre espaço para a série fazer o que quiser com seus personagens, o que é sempre fascinante.

Em uma terceira linha narrativa, a conveniente e também fácil demais “cura” de Dev-Em parece indicar que a série investirá no “quadrado” amoroso formado por ele, Lyta, Seg e Nyssa, mas confesso que não sei o que isso pode significar para a série em termos práticos, além da rearrumação dos pares. Afinal, trata-se de um planeta onde bebês são fabricados externamente e que aparentemente não há outra opção (como assim não há?) para a geração de filhos e o bebê de Nyssa e Seg já está sendo providenciado na Câmara Gênesis a não ser que ele tenha sido parte da refeição energética do Sentinela.

Incomodou-me, porém, a absurda facilidade que foi o recrutamento do Zero Negro por Dru e Jayna, ainda que esse momento tenha marcado a primeira vez que vemos a organização terrorista e sua líder, Jax-Ur (Hannah Waddingham, em uma alteração de gênero do personagem masculino dos quadrinhos). Da mesma forma, o ataque ao domínio da Voz de Rao e de Daron-Vex pareceu-me apressado e fácil demais, quase que como algo encaixado rapidamente ali em alguns segundos entre uma cena e outra. Reparem como não há mais ninguém populando o lugar a não ser as pessoas diretamente em conflito e como se todo o complexo – que parece ser uma torre altíssima – não tivesse mais do que 100 metros quadrados, com o mesmo tipo de segurança de qualidade oferecida aos cidadãos dos grandes centros urbanos do Brasil.

Vale um comentário final sobre a contínua altíssima qualidade do design de produção da série, sempre com belíssimos e incomuns visuais, com especial destaque, aqui, para a própria Câmara Gênesis. Além disso, o CGI foi abundante e igualmente muito bem trabalhado, com eficientes tomadas aéreas de Kandor, uma ótima ampliação digital da maquiagem do Sentinela e, claro, a explosão final com o “escudo” gerado pelo Raio Zeta de Adam Strange.

Savage Night é o que Krypton deveria ter sido desde o começo: um desbunde visual com uma intrigante história a partir de sua curiosa premissa passada 200 anos antes de Superman. Mas se esse nível de qualidade for mantido nos dois episódios finais, a jornada já terá valido a pena.

Krypton – 1X08: Savage Night (EUA – 09 de maio de 2018)
Showrunner: Cameron Welsh
Direção: Marc Roskin
Roteiro: David Kob
Elenco: Cameron Cuffe, Georgina Campbell, Shaun Sipos, Elliot Cowan, Ann Ogbomo, Aaron Pierre, Rasmus Hardiker, Wallis Day, Blake Ritson, Ian McElhinney, Gordon Alexander, Alexis Raben, Tipper Seifert-Cleveland, Andrea Vasiliou, Colin Salmon, Hannah Waddingham, Natalia Kostrzewa
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.