Crítica | Krypton – 1X10: The Phantom Zone

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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

A primeira coisa que fica evidente em The Phantom Zone e que me deixou de queixo caído do começo ao fim do episódio é o grau de esbanjamento de boa computação gráfica e efeitos práticos que vemos. O belíssimo design de produção que marcou a temporada desde seu começo e o CGI usado até agora sem dúvida já mereciam comenda e eu fiz os elogios cabíveis, mas nada me preparou para o “fechamento” (as aspas serão justificadas, podem deixar) que Cameron Welsh apresenta.

Se, por um lado, esse uso generoso de efeitos em computação gráfica realçam o que a série tem de melhor, fazendo-a abraçar forte e firmemente seu lado de ficção científica, por outro ele pode nos acostumar mal, fazendo-nos esperar maior constância no CGI, algo que duvido que aconteça na vindoura 2ª temporada. Ficou muito claro que a economia feita antes foi para permitir a maior quantidade possível de “fogos de artifício” nesse final e só devemos ver algo desse naipe no começo e no final da próxima temporada a não ser que o canal Syfy decida injetar mais dinheiro na empreitada.

Mas beleza não é tudo e só ter bons efeitos não seria o suficiente para manter a coesão do encerramento, que precisa lidar com uma boa quantidade de informações e de pontas soltas deixadas por Savage Night e Hope. No entanto, o roteiro também se segura bem, mas, para que ele tenha chance de ser efetivamente apreciado, faz-se necessário aceitar duas premissas que exigem que respiremos fundo e meditemos com tranquilidade. A primeira delas é a volta de Val-El que, na verdade, não morrera há 14 ciclos, mas sim teletransportou-se para a Zona Fantasma na hora de sua morte que é repetida aqui com a inserção de novas informações. A segunda é que The Phantom Zone é bem menos um episódio de encerramento de temporada do que um cliffhanger “safado” de 42 minutos em que nada – absolutamente nada – é efetivamente resolvido.

Se o espectador comprar esses dois aspectos, o episódio funcionará. Caso contrário, ele será profundamente falho. Portanto, considerando a avaliação que dei acima, devo começar explicando porque os potenciais graves problemas do encerramento não afetaram minha conclusão sobre ele.

Começando por Val-El, diria que sua volta pode até parecer completamente jogada no episódio que não só revela a existência da Zona Fantasma, como o auto-exílio do avô de Seg para lá. No entanto, Val-El é um nome que permeou toda a temporada e a volta para sua “morte” é um movimento cíclico que faz todo sentido dramático. Se Kandor mergulhou em uma era sombria de monoteísmo e estado controlado e extremamente dividido com a condenação e execução de Val e a eliminação do nome da família El, a cidade se livra da grande ameaça que paira sobre sua cabeça – apenas para ser substituída por outra, claro – com a volta do personagem que, além de tudo, permanecia “vivo” como o conveniente holograma lá na Fortaleza da Solidão. Além disso, valendo-se da prerrogativa que séries baseadas em quadrinhos inevitavelmente têm, a Zona Fantasma é um criação inexoravelmente ligada à mitologia do Superman, com a presença de Dru-Zod na série tornando-a ainda mais saliente considerando que Jor-El famosamente o exila para lá. Portanto, há uma lógica para a volta de Val-El e para a introdução da misteriosa Zona Fantasma assim tão tarde na temporada.

Quanto ao episódio não encerrar nenhum ponta solta, segue uma breve lista do que não é resolvido: (1) Adam Strange continua perdido no que parece ser uma cidade da Terra (Metrópolis?) dominada por Zod, mas engarrafada por Brainiac; (2) Apocalypse está prestes a “sair da jaula”; (2) Daron-Vex está em lugar incerto e não sabido; (4) Brainiac e Seg obviamente não morreram; (4) Zod toma o poder sob olhares reprovadores de sua futura mãe; (5) Nyssa, Jax e Val formam a resistência contra o tirano; (6) Lyta e Dev (agora a versão kryptoniana do Soldado Invernal) se aproximam e, claro, (7) a capa do Superman volta, mas muda o escudo para o da casa Zod. É coisa demais, sem dúvida, mas, aqui, a escolha foi deliberada. No lugar de fazer uma temporada auto-contida, o showrunner e o Syfy partiram para algo substancialmente mais arriscado, criando uma interconexão fortíssima entre uma temporada e outra, literalmente transformando-as em capítulos de uma mesma história. Claro que o foco deverá ser realinhado para a tirania de Zod, mas Seg, sendo o protagonista, não poderá ficar longe por muito tempo e, considerando que ele está na Zona Fantasma, há potencial para que ele acesse o passado, presente e futuro e suas variações (seriam 14.000.605?) e volte bastante mudado de lá, talvez até já aceitando a necessidade de Krypton ser destruída para que Kal-El possa tornar-se o Homem de Aço. Fico imaginando como seria frustrante se a série não tivesse sido renovada…

Portanto, se o espectador puder aceitar esses artifícios que, reconheço, não são triviais para serem descartados apenas como dois “males necessários”, então o episódio funcionará muito bem como um veículo para mostrar a força que Krypton pode ter. Não só Brainiac – em um magnífico trabalho de maquiagem e próteses com leve CGI em Blake Ritson – é revelado como um vilão praticamente impossível de ser derrotado no mano-a-mano, como Dru-Zod mostra-se mais monstruoso do que a ameaça cibernética, manobrando o medo a seu favor e usando sua obsessão em controlar Krypton como sua única e absolutamente egoísta motivação. Por outro lado, Seg deixa evidente seu lado heroico, algo absolutamente esperado do avô de Kal-El, mas que não havia sido mostrado ainda em sua plenitude. Ao enganar Brainiac com seu plano simples, mas eficiente e ao sacrificar-se pelo bem maior, o protagonista finalmente mostra a que veio, mesmo que o ator não esteja à altura do personagem (sim, vou repetir isso sempre!).

Além disso, o caminho tomado pelo showrunner é tão ousado que chega a ser perigoso. Ao expurgar Seg dessa “linha temporal”, por assim dizer, estabelece-se um futuro em que o Superman é descendente de Zod (ou o próprio Zod, não sei), algo revelado pela alteração na icônica capa (por um segundo achei que veria o símbolo da URSS da versão comunista do herói em Entre a Foice e o Martelo) e reiterado pela cidade engarrafada onde Adam Strange está. Em outras palavras, estamos falando, aqui, de multiverso mesmo, de um desvio na linha temporal, artifício típico dos quadrinhos e da ficção científica, mas que pode gerar resultados atabalhoados e perdidos em mãos pouco hábeis. Não há como prever o que acontecerá agora que Cameron Cuffe abriu essa Caixa de Pandora, mas essa é uma estrada promissora e, se The Phantom Zone é algum sinal, pode gerar uma 2ª temporada tendente a solidificar a série no imaginário popular.

Krypton, portanto, chega ao final de sua 1ª temporada com um espetacular show de fogos de artifício que não mascara um texto frágil. Ao contrário, The Phantom Zone mergulha na mitologia do Superman, dá relevância a Seg-El, evidencia a força de Brainiac, desenvolve Dru-Zod, coloca Val-El à frente de uma resistência e mantém o espectador grudado na cadeira desesperado para ver o que acontecerá quando a série voltar. Se isso não é um episódio fantástico – se aceitarmos as premissas que discuti acima, claro – então não sei mais o que é.

Krypton – 1X10: The Phantom Zone (EUA – 23 de maio de 2018)
Showrunner: Cameron Welsh
Direção: Ciaran Donnelly
Roteiro: Chad Fiveash, James Stoteraux, Cameron Welsh
Elenco: Cameron Cuffe, Georgina Campbell, Shaun Sipos, Elliot Cowan, Ann Ogbomo, Aaron Pierre, Rasmus Hardiker, Wallis Day, Blake Ritson, Ian McElhinney, Gordon Alexander, Alexis Raben, Tipper Seifert-Cleveland, Andrea Vasiliou, Colin Salmon, Hannah Waddingham, Natalia Kostrzewa
Duração: 42 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.