Crítica | Kumiko, a Caçadora de Tesouros

estrelas 4

A sinopse oficial de Kumiko, a Caçadora de Tesouros é de fazer qualquer cinéfilo imediatamente ficar no mínimo curioso, pelo que a reproduzo abaixo:

“Kumiko vive em um pequeno apartamento em Tóquio e trabalha em um escritório cumprindo tarefas mundanas para seu chefe neurótico. Quando encontra uma antiga fita VHS do filme Fargo, fica obcecada com a história, que acredita ser real. Kumiko estuda meticulosamente o filme até mapear a localização exata da maleta de dinheiro enterrada ao final da fita. Acreditando que este tesouro é sua única chance de mudar de vida, Kumiko, com pouco dinheiro e sem saber quase nada de inglês, embarca em uma jornada pelo interior da gelada Minnesota.”

Vai, diz aí: ficou tentado a ver o filme, não?

Se não ficou, confira seu pulso, pois você pode ter morrido e não percebeu…

Rinko Kikuchi vive a personagem do título de maneira inusitada e cativante. Sua Kumiko é uma japonesa que vive em seu mundo muito particular, próprio que, por definição, não exige e não anseia por interações sociais. Ela trabalha como secretária preparando chá, levando ternos para lavar e outras tarefas para seu chefe que parece nunca ter o que fazer – escrivaninha sempre limpa – unicamente porque ela precisa sobreviver. Fala com sua mãe só o estritamente necessário, pois dela só vêm cobranças do que a sociedade padrão exige: “está namorando?”, “está grávida?”, “já casou?”, “foi promovida?” e nenhuma palavra verdadeira de amor. Kumiko, como uma ostra, se fecha em seu casulo, vivendo uma vida que, talvez para nós, de fora, seja um desperdício, uma besteira.

Mas Kumiko tem um grande prazer, que é caçar tesouros. Literalmente, na verdade. No plano de abertura, nós a vemos em uma praia, entrando em uma caverna e encontrando, em um buraco no chão, uma fita VHS de Fargo, clássico dos Irmãos Coen, de 1996. Ela se convence, ao assistir a fita carcomida que a maleta enterrada na neve ao final existe mesmo e começa a se preparar para desencavar esse tesouro. Mas repare que Kumiko sabe que Fargo é um filme. Ao mesmo tempo, ela acredita piamente que o tesouro existe.

Essa busca quixotesca de Kumiko pode ser vista pelo menos de duas maneiras. A primeira delas é sua necessidade de mudar, de ver um luz no fim do túnel, mesmo que ela seja completamente impossível e inatingível. Toda a primeira metade da projeção é passada em Tóquio, mas não na Tóquio super-cidade que acostumamos ver no cinema. É uma Tóquio de pequenos bairros, de apartamentos bagunçados (o de Kumiko é um horror!) e de empresas pequenas, em uma direção de arte que torna tudo atemporal, sem que seja possível, com exatidão, dizer quando o filme se passa, ainda que os elementos todos reunidos nos levem à conclusão que é hoje em dia. Mas é mesmo assim?

Afinal de contas, há a segunda interpretação possível. E se tudo não passar de um delírio de Kumiko? E se ela for “só” completamente maluquinha, imaginando tudo, do começo ao fim. Afinal de contas, a surreal caverna na praia dá um tom bastante estranho à narrativa, especialmente depois que ela encontra a fita enterrada, lembrando, por vezes, Os Goonies.

A segunda metade do filme traz uma completa mudança de cenário e nós acompanhamos a protagonista em Minnesota, fazendo de tudo para chegar a Fargo. São momentos de certa forma trágicos, mas engraçados, em uma combinação bastante peculiar e cativante. É fácil dizer que Kumiko é só uma louca varrida e nada mais. Mas sua obsessão, provavelmente, é refletida na obsessão de muita gente, por variados assuntos, desde filmes (provavelmente minha maior obsessão, dentre várias outras) até automóveis.

Acompanhando essa jornada, David Zellner, diretor, roteirista e também um dos atores do filme (o prestativo policial em Minnesota) usa uma fotografia quase monocromática, só quebrada primeiro pelo onipresente casaco vermelho de Kumiko e, depois, por seu “poncho” feito de edredom colorido. Zellner parece querer nos dizer que Kumiko é uma chama de esperança no meio de um mundo desesperançoso, talvez a única lúcida em um mundo de loucos. Ou seria  o contrário? Será que o mundo cinza e entristecido é a realidade e que a energia inesgotável de Kumiko é que está fora de lugar?

O magnetismo de Kumiko, a Caçadora de Tesouros, porém, não será para qualquer um. O filme parecerá completamente sem pé nem cabeça para alguns ou básico demais para outros. No entanto, se os espectadores souberem ir além da premissa aparentemente divertida e descortinarem a melancolia do filme, trabalhada com um humor diferente, discreto e difícil de ser apreciado em larga escala, então a viagem será iluminada e esclarecedora.

Kumiko, a Caçadora de Tesouros (Kumiko, The Treasure Hunter)
Direção: David Zellner
Roteiro: David Zellner, Nathan Zellner
Elenco: Rinko Kikuchi, Nobuyuki Katsube, Shirley Venard, David Zellner, Nathan Zellner, Kanako Higashi, Ichi Kyokaku, Ayaka Ohnishi
Duração: 105 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.