Crítica | Kung Fu Panda 3

estrelas 3

Deixados com um cliffhanger ao final de Kung Fu Panda 2, retornamos à saga de Po (Jack Black) novamente com um caráter mais intimista, que traz o passado do protagonista à tona. Mais que um novo capítulo da franquia, a obra soa realmente como uma continuação direta do anterior – a temática é a mesma apenas com um enfoque ligeiramente diferente e, é claro, um novo vilão, que impulsiona o panda em seu treinamento, que ainda requer muita suspensão de descrença e a noção de que se trata de apenas um desenho animado, não uma representação fiel do kung fu, naturalmente.

Após ter derrotado o terrível Shen e seu exército no filme anterior, Po se vê diante de um novo desafio. Shifu (Dustin Hoffman) o encarrega de treinar os cinco furiosos enquanto ele próprio prossegue seu treinamento com Chi. Enquanto isso, Kai (J.K. Simmons), antigo adversário de Oolong, consegue se libertar do reino dos espíritos, ansiando por vingança que envolve livrar a China do Kung Fu. Não bastassem esses dois desafios, o pai biológico de Po – visto no desfecho do anterior -, Li (Bryan Cranston) dá as caras, colocando o panda no meio de um fogo cruzado entre seus dois pais.

Embora diversas problemáticas estejam em jogo, Kung Fu Panda 3 consegue uni-las de forma bastante orgânica, tudo está interligado cuidadosamente por um roteiro que não deixa qualquer ponta solta. Por outro lado, esse pequeno excesso acaba gerando uma nítida pressa no desenvolvimento da narrativa, problema, aliás, recorrente na franquia (apenas o segundo consegue se distanciar desse defeito). Aspecto mais gritante dessa aceleração é o domínio do chi por parte dos personagens, nos deixando com a impressão de que o roteiro perdeu muito tempo com alguns fillers enquanto poderia ter trabalhado tal questão com mais calma, sem o risco de deixar a história demasiadamente prolongada.

A animação em si continua fluida como sempre, mas perde muito do encanto pela pouca utilização da animação tradicional (muito presente no dois) e pelo pouco mimetismo do teatro de sombras chinês, aspecto crucial dentro da identidade artística de Kung Fu Panda. A própria introdução é um testamento disso, diferenciando-se consideravelmente do que veio anteriormente, basta compararmos os primeiros minutos dos três filmes que teremos essa concepção clara em nossa mente – confesso que, tendo visto eles em um intervalo de três dias isso me incomodou consideravelmente. As aberturas narradas em off dão um toque de novo capítulo de um livro de contos, de lendas e a terceira obra não sabe aproveitar essa questão.

Para piorar o roteiro conta com alguns evidentes furos ao longo de sua trajetória, alguns mais gritantes que os outros, mas o maior deslize deles é a subexploração do principal antagonista. Enquanto Shen contava com um passado comum com o protagonista, Kai se demonstra bastante distante, o que tira grande parte da sensação de urgência da obra, ele não é um vilão temível e nem mesmo a voz de J.K. Simmons consegue dar conta de nos transmitir alguns arrepios ao longo da projeção, por mais que o personagem seja uma clara referência a Attila, o Huno. Cranston, por outro lado, no papel de Li, faz um trabalho louvável – é o típico paizão e muito do humor da obra ocorre por sua causa e dos muitos conflitos com o pai adotivo do protagonista. Essa é outra questão que, naturalmente, merece ser ressaltada aqui. Embora não formem um casal, os pais de Po passam a mensagem de que um filho pode ser criado, sim, por dois pais, tornando o filme bastante engajado nas questões sociais da atualidade.

No fim, Kung Fu Panda 3 mais soa como um epílogo prolongado, continuando as questões abertas no filme anterior. Ainda assim vale ser assistido, qualificando-se como um entretenimento com bastante humor, mas com um drama que deixa a desejar. Kung Fu Panda 2 continua como a melhor entrada da franquia, resta saber se veremos, algum dia, um quarto, se é que Po pode crescer ainda mais.

Kung Fu Panda 3 (idem – EUA, 2016)
Direção:
 Alessandro Carloni, Jennifer Yuh
Roteiro: Jonathan Aibel, Glenn Berger
Elenco: Jack Black, Bryan Cranston, Dustin Hoffman,  Angelina Jolie, J.K. Simmons, Jackie Chan, Seth Rogen, Lucy Liu
Duração: 95 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.