Crítica | Kung Fu Panda

estrelas 3,5

O estouro comercial de filmes de Kung Fu nos anos 1970 em Hollywood, com Bruce Lee no centro do palco, para sempre instaurou a temática da arte marcial chinesa no cinema ocidental. Desde então, seus muitos “sucessores” levaram o legado adiante, em geral misturando o tema com a comédia, como é comum nos longas estrelados por Jackie Chan. Nos anos 2000 um novo sopro de vida foi garantido ao gênero, dessa vez sob forma de desenhos animados – As Aventuras de Jackie ChanDuelo XiaolinAvatar: A Lenda de Aang dominaram as telinhas, sendo este último uma das melhores animações serializadas feitas nos últimos anos. Kung Fu Panda, que veio pouco depois, dá continuidade a essa onda, agora, nas telas grandes.

Inicialmente concebido como uma paródia, o filme assumiu o caráter de comédia e ação graças ao diretor John Stevenson, que desejava uma obra com certa profundidade, mas que não abandonasse suas origens no humor. Nela acompanhamos a história de Po, um urso panda que sempre sonhara em praticar kung fu, um verdadeiro devoto fã da arte marcial, que, por mero acaso (ou não, se considerarmos as falas de um dos personagens) acaba se tornando o lendário guerreiro dragão. O timing para esse “acidente”, contudo, não poderia ser pior, já que o temível Tai Lung estava prestes a escapar de seu cárcere e caberia ao panda, ainda sem qualquer treinamento, derrotá-lo.

O longa tem início em animação tradicional, emulando o teatro de sombras chinês, lembrando muito do que vimos no saudoso Samurai Jack, de Genndy Tartakovsky. Essa referência à arte oriental já delineia o que veríamos a seguir, ainda que a animação parta para o 3D, que já dominava o mercado em 2008. O jogo de luz e sombras com cores pontuais de efeito dramático, então, é substituído por uma paleta mais viva e vibrante, já insinuando o tom de comédia que, até então, estava presente somente na narração em off. Há uma evidente descontração no visual de Kung Fu Panda, o que se encaixa perfeitamente com o roteiro, que se mantém na clássica jornada do herói. Nesse quesito não há nenhuma novidade e desde os primeiros instantes já sabemos exatamente o que irá ocorrer ao longo do filme.

Isso não quer dizer, porém, que devamos descartar a obra por inteiro. A história de Po tem suas cores na mistura do humor com artes marciais – sim, já foi feito inúmeras vezes anteriormente, mas a abordagem de cada luta é realizada de maneira criativa e divertida. Não temos uma simples repetição do que já veio antes, cada coreografia assume um caráter diferenciado, não cansando o espectador em nenhum ponto. Esse dinamismo pode acabar gerando a sensação de que o longa é apressado, quando, de fato, essa pressa ocorre pontualmente – o treinamento do protagonista é um desses momentos, o que, no fim, prejudica nossa suspensão de descrença necessária para o melhor aproveitamento do clímax.

O que eu definiria, contudo, como o ponto mais interessante de Kung Fu Panda é o respeito que a obra tem pela cultura na qual se baseia. Por mais que seja uma obra de humor, ela utiliza conceitos de forma bastante precisas – cada animal representando uma variação da arte marcial chinesa, sequências que emulam os desenhos orientais (tanto na dramaticidade quanto no próprio visual), a caracterização do mestre Oogway, são apenas alguns dos exemplos do cuidado apresentado pelos realizadores. Infelizmente esse cuidado não se aplica na construção dos personagens – nenhum deles conta com uma verdadeira profundidade e mesmo Po não sofre mudanças assim tão grandes, o kung fu se adapta a ele e não vice-versa.

No fim, Kung Fu Panda infelizmente se resume a isso: raso, porém divertido. Não tira o valor do filme como uma obra de entretenimento, mas nos deixa com a percepção de que poderia ser muito mais do que efetivamente é, poderia contar com mais dimensões, explorando melhor cada um de seus personagens, podendo se tornar tão profundo quanto Avatar: A lenda de Aang, por exemplo. Não obstante, a animação ainda ganharia duas continuações e uma série de televisão graças a seu sucesso comercial. Se esses deslizes foram cometidos novamente, descobriremos nas críticas das sequências.

Kung Fu Panda (idem – EUA, 2008)
Direção:
 Mark Osborne, John Stevenson
Roteiro: Jonathan Aibel, Glenn Berger
Elenco: Jack Black, Ian McShane, Angelina Jolie, Jackie Chan, Dustin Hoffman, Seth Rogen, Lucy Liu, David Cross, Randall Duk Kim
Duração: 92 min

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.