Crítica | Kung Fury

estrelas 5,0

Ah, os anos 80! Não tive a sorte (ou azar) de vivenciar essa década, mas cresci compartilhando de muitas mídias provenientes dela, sejam filmes, séries ou música. Especialmente os filmes, já que a década fez questão de imprimir uma marca fortíssima neles, tanto para o bem quanto para o mal. E, no fim, o que importa é a seguinte pergunta: quem nunca se divertiu horrores com guilty pleasures como Stallone Cobra, obras máximas do cinema de ação como Duro de Matar, ou qualquer um dos milhares filmes oitentistas com plots de artes marciais?

É nesse contexto que Kung Fury surgiu, projeto bancado por uma campanha no Kickstarter que tinha como plano inicial conseguir U$200,000 e, no final, conseguiu exceder o estipulado e levantar U$630,090 para a criação do média metragem de 30 minutos. Tudo isso é mérito principal de David Sandberg, diretor de videoclipes e comerciais que se entregou inteiramente para realizar o filme que queria: uma comédia policial inspirada nos anos 80.

Kung Fury é uma grande sátira aos filmes oitentistas, tanto que é justo levar o termo trash. Divertidíssimo e hilário, trata-se de uma comédia e homenagem de alto nível. Basta ver a sinopse para entender: um policial de Miami recebe extraordinários poderes de kung fu após ser atingido por um raio e picado por uma cobra (???). Como se isso não fosse o bastante, ele precisa utilizar seus poderes e, de alguma forma, voltar no tempo e destruir o “Kung Führer”, nada menos que o maior vilão que um filme poderia pedir: Adolf Hitler.

Sandberg consegue reunir em 30 minutos uma quantidade absurda de clichês e marcas da época: a obsessão por artes marciais, um vilão caricato, garotas vikings com metralhadoras, dinossauros, deuses nórdicos, robôs assassinos e por aí vai… Tudo com abusos de chroma key, efeitos de VHS e uma trilha sonora espetacular recheada de sintetizadores e guitarras melosas de hard rock (com direito a David Hasselhoff cantando a música tema, um refrão tão pegajoso que vai ficar na sua cabeça logo na primeira audição). Mas é importante salientar que mesmo com sua natureza trash, o média metragem é muito bem executado, fazendo bom uso do orçamento levantado (claro que levando em conta a ideia de algo proveniente dos anos 80). A maravilhosa cena inicial de um embate com um fliperama assassino é um exemplo disso, fazendo uso de efeitos visuais melhores que muito CGI realizado atualmente.

Tudo em Kung Fury poderia dar muito errado se não cumprisse com seu objetivo tão bem. É um revival perfeito, sarcástico e exagerado de uma geração, tudo isso com um ótimo timing e tiradas geniais de comédia. Algumas de suas melhores piadas são a respeito dos milhões de deus ex machina apresentados. O melhor deles certamente é Hackerman, o hacker que consegue hackear TUDO, inclusive o tempo. Assim, o roteiro nonsense ainda pega carona para outras ótimas sacadas: ridicularizar as tecnologias absurdas dos anos 80 (com direito a power glove), além dos clássicos bordões de heróis do cinema de ação.

Kung Fury é uma excelente sátira a uma era que marcou até aqueles que não viveram nela. Fará o espectador surtar ao ver os elementos mais divertidos possíveis, todos reunidos por meio de um texto engraçadíssimo. Tal trabalho foi feito para a alegria geral, o que significa estar disponível até mesmo no Youtube. Enquanto isso, esperamos sua sequência…

Kung Fury (2015 – Suécia)
Direção: David Sandberg
Roteiro: David Sandberg
Elenco: David Sandberg, Jorma Taccone, Leopold Nilsson, Eleni Young, Eleni Ahlson, Andreas Cahling, Per-Henrik Ardivius, Steven Chew, Magnus Betnér, Bjorn Gustafsson, David Hasselhoff
Duração: 31 min

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.