Crítica | La La Land: Cantando Estações

estrelas 5,0

O cinema, assim como qualquer forma de arte, tem o poder de nos transportar para um estado que foge  daquele nosso atual – transforma o cético em sonhador, o frio em romântico, traz a alegria inesperada naqueles dias mais sombrios, seja pelo entretenimento proporcionado pela arte em questão, seja através daquela lágrima que escorre ao constatarmos que estamos diante de uma obra-prima – quem nunca sentiu aquele arrepio ao assistir um filme e continua sentindo todas as vezes que o reassiste? Os musicais, porém, conseguem ir além disso, tornando a magia da sétima arte mais palpável do que nunca, através de pessoas que cantam e dançam diante de nossos olhos como se fosse a coisa mais normal do mundo e mais que isso, nos fazem querer estar ali, vivendo aquela magia única, seja ao lado de Gene Kelly e Debbie Reynolds ou Julie Andrews e Christopher Plummer, dentre dezenas de outros.

La La LandCantando Estações vem como o filho perdido do cinema atual, que busca retomar e homenagear os clássicos desses anos passados, nos transportando para o all singing, all dancing não só como uma homenagem, mas como uma declaração de amor de Damien Chazelle pelo gênero, que se mistura deliciosamente com sua paixão pelo jazz, algo já deixado claro pelo seus dois longas anteriores, Guy and Madeline on a Park Bench Whiplash: Em Busca da Perfeição

O longa-metragem nos conta a história de Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling), uma atriz no início de sua carreira e um pianista que deseja abrir sua própria casa de jazz, para salvar o gênero musical de uma cidade que idolatra tudo, mas não valoriza nada. Se conhecendo sob circunstâncias inusitadas, eles acabam se apaixonando e acompanhamos seu relacionamento através das mudanças de estação do ano – de Inverno a Inverno, já justificando a escolha do subtítulo brasileiro. O filme, porém, não nos faz apenas ver essa relação dos dois personagens principais e sim nos faz a sentir, como se nós próprios estivéssemos apaixonados dentro da tela.

Another Day of Sun, que abre o longa de imediato na música já prepara a audiência para o que está para ver, é a transição de nossa realidade para esse universo de sonhos, no qual pessoas cantam e dançam mesmo presas no trânsito quilométrico de Los Angeles. Não, esse não é um filme que se mantém em um estado de felicidade plena a todo e qualquer momento, mas esse número inicial quebra a barreira do espectador ao fugir completamente do realismo, com uma coreografia de fazer os olhos brilharem, com dezenas de pessoas em seus próprios ritmos, como no jazz onde todos fazem sua própria música e, ainda assim, participam da mesma harmonia. O choque inicial se transforma em encantamento e, então, nos vemos prontos para ver La La Land.

Quando a segunda cantoria irrompe na tela não somos pegos mais de surpresa, muito pelo contrário, já estamos participando dela, com a musicalidade em nossas mentes, imersos no espírito da obra, que desde já dialoga com todos nós que lutamos para conseguir nossos sonhos e somos tão golpeados ao longo dessa dura estrada. Apesar de ser uma clara homenagem aos musicais de Hollywood, o filme, já cedo lida com sua audiência, se transformando em uma história que todos nós já vivemos, independente da área que escolhemos atuar ou quem não escolhemos amar – pois ninguém, de fato, tem essa escolha – tudo isso de maneira metaforizada é claro.

Mas há quem não goste desse gênero cinematográfico e aquela barreira quebrada em Another Day of Sun pode ainda se sustentar, mesmo que abalada e, para isso, vem A Lovely Night, que não por acaso está presente na maior parte das imagens promocionais. Se havia algum resguardo em relação ao longa-metragem, ele vai embora completamente aqui, através de um delicioso número de dança, que claramente homenageia o sitting dance de Kelly e Astaire, com direito a voltas no poste, sapateados e um humor irônico presente tanto na letra da canção, quanto na dança e na própria postura dos personagens.

Mas não é só Gosling e Stone que participam dessa dança, através da câmera Chazelle participa ativamente da história, seja através de sutis movimentos, que acompanham os personagens como um companheiro na música lenta, ora como aquele que guia a dança através de rápidos chicotes, planos sequência e cortes mais bruscos, pulando de foco em foco, sabendo explorar o talento dos atores e a beleza do que vemos em tela. Assistir esse filme sem prestar atenção em sua direção  é perder parte de sua mágica, visto que o diretor parece genuinamente se divertir com aquilo que faz, utilizando ao máximo do que faz o cinema o que ele é: um espetáculo de ilusões que nos transporta para diferentes universos próximos ou distantes de nossa própria realidade.

A paleta de cores é um dos elementos que mais nos faz entrar nessa viagem, tornando tudo mais vibrante, nos lembrando constantemente que estamos dentro de um musical, ao mesmo tempo que estabelece a identidade visual da obra, na qual até as menores fontes de iluminação são intensificadas como se estivéssemos diante de uma peça de teatro. O filme ainda brinca com essa questão, tornando a luz quase uma personagem à parte, escolhendo exatamente quem iluminar sem utilizar disfarces.

Ryan Gosling e Emma Stone tornam toda essa construção fluida, ambos desempenhando um dos melhores papeis de suas carreiras. Não só através de suas movimentações nas quais cada passada parece ter sido milimetricamente estudada, tornando até o flutuar algo orgânico, como na forma que se entregam a seus personagens. Mesmo nos silêncios conseguimos sentir ambos, de tal maneira que ganham vida diante de nossos olhos, nos fazendo sentir suas dores, alegrias, tornando seus sonhos os nossos. Acompanhar esse casal é se deixar entregar a uma espiral de emoções, que nos remetem aquele grande amor que todos vivemos. A música ainda faz o máximo para aproveitar a voz de ambos, levando em conta suas limitações, sem exagerar ao ponto de pedir mais do que eles poderiam realizar.

 As melodias do longa atingem seu ápice em City of Stars, uma música mais simples, marcada pelo som do piano e a voz dos atores, confiando plenamente no poder da imagem, que nos envolve sem precisar de mais nada – já estamos completamente envolvidos e nos vemos cantarolando a canção durante e depois da sessão, apaixonados pelo que acabamos de ver.

La La Land: Cantando Estações, então se encerra com uma de suas mais belas sequências que fará até o mais frio dos espectadores rir e chorar. Temos aqui uma homenagem ao cinema, ao jazz, mas, mais que isso, um filme para todos aqueles tolos que ousam sonhar e, é claro, perseguir seus sonhos, independente dos custos que inevitavelmente irá pagar, dos tropeços, das lágrimas deixadas pelo caminho. Uma obra que traz otimismo em uma época que tão desesperadamente precisamos dele, nos fazendo abraçar justamente as emoções que nos tornam humanos. É a magia da sétima arte ganhando vida. Um filme que queremos assistir de novo logo após de deixar a sessão, como aquela pessoa especial que queremos ver novamente segundos após ter se despedido.

 La La Land: Cantando Estações (La La Land) — EUA, 2016
Direção:
 Damien Chazelle
Roteiro: Damien Chazelle
Elenco: Ryan Gosling, Emma Stone, Rosemarie DeWitt, Amiée Conn, Terry Walters, J.K. Simmons, Jason Fuchs
Duração: 128 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.