Crítica | La La Land (Trilha Sonora Original)

la la land

estrelas 5,0

No momento que escrevo essa crítica já faz mais de um mês que assisti La La Land e, desde então, não consigo ficar um dia sem ouvir algo de sua trilha. “É conflito e é compromisso… É muito, muito empolgante” – a frase do personagem Sebastian (Ryan Gosling) afim de descrever seu amor pelo jazz poderia muito bem referir ao compilado de canções do filme. O musical dirigido por Damien Chazelle – provavelmente um dos longas mais amados e, ao mesmo tempo, de maior backlash dos últimos tempos – é uma carta de amor não somente aos musicais de Hollywood, como vem sendo divulgado, mas uma verdadeira carta de amor ao jazz. E para criar as partituras dessa carta foi chamado o talentoso compositor Justin Hurwitz, parceria de Chazelle em Whiplash. O filme, que essencialmente fala sobre sonhos, arranja aqui uma ligação perfeita com a música, provavelmente a forma de arte mais próxima de construir a imagem do que é um sonho.

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“Você se apega ao passado, mas o jazz é sobre o futuro.”

 

La La Land chega aos cinemas em um período importante e digno de nota. Um período onde, em anos, o jazz nunca recebeu um revival tão forte na indústria quanto vem recebendo agora. O gênero modernizou, encontrou novos caminhos e meios de popularidade, assim como novos ouvintes em meio as novas gerações. Perceba que, o próprio que escreve esse texto, incentivado por essa nova onda jazzística, passou a procurar conhecer ao máximo esse estilo tão pouco popular entre as massas. Dois dos já provavelmente maiores discos dessa década inserem influências pesadas de jazz: To Pimp A Butterfly (2015), de Kendrick Lamar, e Blackstar (2016), de David Bowie. Isso sem contar o excelente You’re Dead (2014), de Flying Lotus, artista que praticamente encabeça esse novo movimento de jazz integrado a gêneros alternativos.

Dessa forma, o debate entre Sebastian e seu amigo Keith (John Legend) é extremamente atual no filme. Keith faz a imagem da nova guarda do jazz enquanto Sebastian faz o extremo tradicionalista da velha guarda. No filme, esse movimento aparece integrado a um Soul de pegada alternativa na faixa Start A Fire, da banda do personagem de John Legend, mas a verdade é que, nos dias de hoje, o hip-hop é disparado o gênero que mais vem procurando reduto no velho jazz. Além dos já mencionados Flying Lotus e Kendrick Lamar, temos BADBADNOTGOOD, The Roots, Thundercat, entre outros, isso sem mencionar artistas totalmente imersos no gênero e que vem ganhando repercussão nos últimos anos, como o fantástico Kamasi Washington e a ganhadora de Grammy, Esperanza Spalding (ambos nas nossas listas de Melhores do Ano de 2015 e 2016).

Damien Chazelle faz em La La Land sua segunda grande homenagem ao jazz, sequência de seu brilhante e elegante Whiplash. Mas seu segundo filme funciona como uma consolidação desse “novo movimento jazzístico”, mediante tanto aos eventos do mundo musical citados nos parágrafos anteriores, quanto pelas proporções que o filme vem tomando nas premiações e no apreço do público. Então, enquanto você reclama dos contornos populares do filme, pare pra pensar no impagável serviço que ele vem prestando à indústria musical.

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“Behind these hills I’m reaching for the heights”

 

Se alguém te perguntar o significado de harmonia em uma música, apresente Another Day Of Sun. A canção, musicalmente falando, não deixa a desejar em nada comparado ao brilhantismo cinematográfico da sequência onde é inserida, o excelente plano sequência de abertura. Flautas, saxofone, piano, tambores, vibraphone, baixo, uma verdadeira banda marcial entra em cena e trabalha em um nível de sincronia assustador exalando uma belíssima flora musical. Eu realmente me sinto um inútil pra descrever a entrada de cada instrumento e a importância de cada um no impacto da faixa. Veja que olhando apenas na superfície encontramos: as notas iniciais do piano já suficientes para ditar o rítmo da dança, o groove arrebatador do bumbo e do baixo, a posterior inserção dos metais justamente para alcançar o clímax instrumental, além do brilhante arranjo de vozes extremamente conectado à banda. Isso, como eu disse, analisando apenas a superfície, já que a riqueza harmônica da canção atinge complexidades enormes.

O mesmo se repete no arranjo igualmente surpreendente de Someone In The Crowd. Perceba que as melhores execuções vocais do álbum (talvez o melhor de Emma Stone se encontre aqui, mas o resto do time de cantoras simplesmente rouba a cena) e a riqueza harmônica pode distrair o ouvinte que pode não atentar para a maravilhosa performance da bateria, que instiga o rítmo dançante e frenético da canção ao mesmo tempo que faz jus à importância do instrumento no jazz.

E aqui podemos já falar da canção mais popular da trilha. City Of Stars não é a melhor canção do álbum – estaria mentindo se dissesse isso – mas é a faixa de maior apelo popular e comercial, afinal, toda sua composição parece ter sido feita a fim de que qualquer espectador pudesse guardá-la: o assobio marcante, a letra simples e eficiente, o rítmo bem compassado. Emma Stone e Ryan Gosling não possuem os timbres mais propícios ou convencionais ao canto, mas negar o esforço da dupla para tais atos é simplesmente ridículo. Ambos seguem afinados, mas Emma surpreende em alguns momentos, como na marcante Audition (The Fools Who Dream), onde mostra que sabe interpretar uma canção melhor que uma vasta quantidade de cantores profissionais por aí.  Já Gosling, apesar de afinado, como dito, notoriamente sente uma dificuldade com o canto, mas não é a toa que o filme reserva a ele apenas duas performances vocais e o deixa por trás do piano a maior parte do tempo.

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“Para aqueles que sonham, por mais tolos que pareçam”

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Entretanto, apesar das faixas cantadas formarem uma excelente camada da trilha, não se pode esquecer que a maior parte das composições são instrumentais e compostos por Justin Hurwitz, um desconhecido até sua recente aparição na ótima trilha de Whiplash. Isso porque Justin é um amigo de faculdade de Damien Chazelle, que o chamou para trabalhar na trilha de seus dois longas até então. E que revelação de compositor temos aqui!

Nenhuma canção faz o DNA do longa tão bem quanto o tema Mia & Sebastian Theme. A faixa, com o sabor agridoce do piano de Justin, faz questão de deixar uma suavidade vintage e um ar particular e glamouroso dos anos 70, além de possuir personalidade e marcar o ouvinte em todos os momentos em que tais notas retornam, como em Epilogue. Seja nas flautas quase mágicas e transcedentais de Planetarium, ou no jazz vibrante e classudo de Summer Montage/ Madeline, o compositor dita um tom bem claro e consciente para o filme, sem abrir mão do alto nível dos arranjos. Perceba como ele vai do melancólico ao energético com uma fluidez impressionante. Compare a construção épica e grandiosa de Someone In The Crowd com sua releitura suave e intimista de trechos da mesma em Engagement Party. Há um esmero e atenção nesses detalhes que não se encontra no trabalho de qualquer artista.

A trilha de La La Land, por fim, constitui um valiosíssimo exemplar de composições para o cinema, repleto de arranjos extremamente harmônicos e com uma leveza sonhadora capaz de cativar do mais tradionalista fã de jazz até um total alheio ao gênero. Justin Hurwitz, em tão pouco tempo, já possui um currículo de causar inveja.

La La Land Original Motion Picture Soundtrack
Produtor: Justin Hurwitz, Marius de Vries, Steven Gizicki
País: Estados Unidos
Lançamento: 9 de dezembro de 2016
Gravadora: Interscope Records
Estilo: Jazz, Trilha Sonora

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.