Crítica | La Sapienza (2014)

estrelas 4

Os filmes de Eugène Green costumam nos colocar no caminho de uma procura. Seus personagens estão concentrados em uma ideia fixa se desconstrói ao longo das películas, até que se dissipe, não necessariamente com resposta mas com duas coisas que praticamente não existiam antes: esperança e possibilidades.

A história de La Sapienza (2014) é uma história sobre arquitetura. Mas também é uma historia sobre o amor, sobre as artes e sobre o cinema. Da procura de um arquiteto por inspiração até o alumbramento que ele tem ao chegar à Igreja de Santo Ivo em La Sapienza, Roma, o filme viaja pelas obras de Francesco Borromini e Gian Lorenzo Bernini, dois representantes do barroco italiano mas que se tornaram rivais depois de divergirem a respeito dos mais diversos detalhes arquitetônicos. A disputa histórica, como sabemos, mudou a cara de Roma no século XVII e gerou material suficiente para que Eugène Green retirasse da briga a essência da alma de um homem no século XXI, dividido entre a razão e [a ausência de verdadeira] paixão.

Pesa sobre a obra a sua própria concepção, o filme-conceito. E talvez isso explique muito da recepção fria que o público geral teve sobre a fita. É evidente que La Sapienza não é um drama nos moldes clássicos de narrativa. Ele possui uma mensagem e intenção mais complexas e o diretor Eugène Green vai construindo essas colunas usando a desculpa do drama, com os personagens filmados em planos frontais e repetições de padrões cênicos, que apesar de incomodar e ser desnecessários algumas vezes — porque a mensagem da repetição já tinha ficado clara logo no início — não tem o poder de destruir a obra.

É com essa reflexão sobre o conceito de arte, seus significados e a alma de quem produz (em certa medida, vemos ecos de Nostalgia, de Tarkóvski, aqui) que surge uma interessante discussão sobre o próprio cinema, arte dos espaços e da luz, como também é a arquitetura. A visita aos “antigos monumentos”, a racionalização clichê das linhas objetivas vistas em produções mais recentes (“a fábrica é a nova catedral“) serve tanto para a edificação quanto para a imagem-movimento.  Através de uma trilha sonora econômica e utilizada apenas quando necessário, o que causa um verdadeiro choque no espectador, o diretor quase valsa através de seus planos simétricos, de suas vivas exposições dos tetos das igrejas, fachadas, pináculos e outros espaços. Tudo possui um tratamento milimétrico da câmera, que sempre está contextualizando o ambiente , como se quisesse nos lembrar, a todo momento, que aquilo é uma extensão do indivíduo, lembrete reafirmado pela fotografia de caráter abertamente emotivo de Raphaël O’Byrne, colaborador de Green desde o seu primeiro longa, Todas as Noites (2001).

Os dramas internos — agrupados entre os dois homens e as duas mulheres, cada par com reflexões próprias; reflexões essas que se unem ao final do longa — adicionam humanidade ao pensamento artístico. Assim, vemos confissões ao invés de atuações, o que mais uma vez chega a incomodar o espectador pela estranheza do tratamento, mas não negativiza a opção do diretor. Ao contrário, para quem está disposto a lidar com outras propostas de exposição narrativa (esta, muito próxima de Jean-Marie Straub e Godard), terá diante de si um filme para racionar a respeito da produção artística, qualquer que seja, de uma forma ainda mais intricada e rica, mais do que aquela reflexão de Kiarostami no mesmo ramo, em Cópia Fiel (2010) ou de Sorrentino em A Grande Beleza (2013). A proposta de Green é mais rígida, mais intensa. E com certeza irá deixar o público pensando sobre luz, espaços e construções por um bom tempo.

La Sapienza (França, Itália, 2014)
Direção: Eugène Green
Roteiro: Eugène Green
Elenco: Fabrizio Rongione, Christelle Prot, Ludovico Succio, Arianna Nastro, Hervé Compagne, Sabine Ponte
Duração: 101 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.