Crítica | La Vingança

Credito:  Downtown /Divulgacao . Filme La Vingança.

estrelas 3

Um homem de terno, provido de um semblante pesado e cabelo perfeitamente arrumado, reside seus pés na margem do topo de um edifício. Uma mensagem estranha, então, surge como notificação no celular do homem. Primeira desconfiança do espectador. O homem pula, uma jogada de câmera interessante entra em cena e a quebra de expectativa acontece. Caco (Felipe Rocha) é dublê, e aquela faz parte de um de várias cenas que ele realiza em seu cotidiano. Da sequência dramática de um suposto suicídio, a mensagem é o que importa no roteiro. Sua namorada quer conversar seriamente com ele.

Entra em cena Vadão (Daniel Furlan), amigo de Caco, que dá o empurrão necessário para fazê-lo tomar coragem e pedir Júlia (Leandra Leal) em casamento. Engraçada, a primeira conversa entre os dois no longa, dentro do simpático Jorge, carro de Vadão, cria o clima e define as personalidades. Enquanto caminha no restaurante onde Júlia trabalha, à procura de sua namorada, Caco segura apreensivo flores vermelhas em suas mãos. Raindrops Keep Falling On My Head, o hino sobre ter um dia ruim e não se deixar levar por isso, surge como pano de fundo da caminhada, nos preparando o terreno para a fatídica descoberta. Enfim, Caco flagra Júlia traindo seu namorado com o chefe de cozinha. Não apenas um chefe de cozinha. Um chefe de cozinha argentino.

E assim começa a trama, com Vadão colocando Caco, desacordado, dentro do Jorge e levando-o em uma viagem até a Argentina, com o objetivo de se vingar de Facundo (Adrian Navarro), o argentino que roubou o coração de Júlia. Da decepção amorosa, cria-se a vingança. Mal sabe Vadão que Caco descobriu que Júlia está indo morar em Buenos Aires, e por isso aceitou continuar a viagem. Mesmo simples, a trama rende momentos muito bons. Infelizmente, embora a relação entre os dois amigos funcione a maior parte do tempo, individualmente, o personagem do Vadão é muito mais interessante que o do Caco.

A situação é simples: Felipe Rocha não consegue demonstrar simpatia. Enquanto que o começo do longa convence ao espectador um sentimento de pena pelo protagonista, o restante nos faz desacreditar das convicções do homem. O sentimento de pena é totalmente subvertido para uma expressão de “você merece”. Não é como, por exemplo, o personagem de Joseph Gordon-Levitt em (500) Dias com Ela. É fato que Júlia e ele não funcionavam e não deveriam funcionar. O fato dele ter escolhido pedir ela em casamento logo antes de entrar no restaurante ilustra perfeitamente a disfunção do casal. Mas, mesmo sendo bom ator, Rocha não exprime bem a vontade do seu personagem de retomar a relação.

Surpreendentemente, o conflito Brasil x Argentina que dá origem à essência do filme não fica deslocado. Durante a viagem, Caco e Vadão acabam por encontrar Constanza (Ana Pauls), uma mulher que acabou de fugir de seu próprio casamento. Todos os momentos que envolvem ela e a dupla de amigos são requintados. Mas apesar disso, e do ótimo desempenho da atriz, esse momento parece um pouco mal situado. É do fruto desse encontro que Caco e Vadão acabam por pegar carona em uma van repleta de figuras argentinas. É nesse ponto que o público pode ficar mais desgastado com as piadas, que em suma, se qualificam sobre futebol. Outro problema do longa está no seu timing cômico. Algumas situações cômicas estendem-se por segundos a mais, fazendo-as, por mais hilárias que sejam, perderem força.

O roteiro, contribuição de quatro pessoas, não vai muito além disso. Já a direção, do também roteirista, Fernando Fraiha, é mais afinada. A fotografia é eficiente ao remeter à uma estética quase setentista,  mesmo que alguns preceitos da televisão ofusquem parte do trabalho. Ademais, o elenco coadjuvante, a começar por Daniel Furlan, é quase um primor. O ator consegue exprimir perfeitamente uma moral questionável, sem ir para caminhos de deturpação machista. Já Leandra Leal, a atriz de maior renome do filme, mesmo com poucos minutos em cena, transmite muito bem a personificação de uma mulher que superou um relacionamento fracassado. E para completar Aylin Prandi, mesmo sendo colocada em cena por meio de métodos falhos do roteiro, é a cereja desse bolo portunhol. É interessante notar que mesmo que boa parte do elenco que contracene não dialogue na mesma língua, as expressões, o tom de voz, e algumas vezes, palavras chaves, consegue demonstrar a intenção do discurso e o propósito da fala. Vide, por exemplo, a engraçadíssima cena na fronteira entre os dois países.

La Vingança é um bom filme, desenvolvido sobre um roteiro interessante, mas que falha ao utilizar convenções narrativas em demasia. Coincidências absurdas são repetidamente abordadas, porém relevadas, pelo excelente elenco de apoio do longa. A temática Brasil e Argentina, mesmo que historicamente não faça nenhum sentido, baseando-se apenas em rivalidade esportiva, consegue ser divertida o suficiente para carregar um filme inteiro. Difícil de se ver por aí, ainda mais em um circuito de exibição maior, este é um longa com alma, embora não tenha um corpo, em si, bem definido.

La Vingança – Brasil/Argentina, 2017
Direção: Fernando Fraiha
Roteiro: Pedro Aguilera, Thiago Dottori, Fernando Fraiha, Jiddu Pinheiro
Elenco: Felipe Rocha, Daniel Furlan, Leandra Leal, Adrián Navarro, Ana Pauls, Aylin Prandi, Gastón Ricaud
Duração: 90 minutos

GABRIEL CARVALHO . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidades, movido por uma pequena loucura chamada amor. Já paguei as minhas contas e entre guerra de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia. Eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar, não é mesmo?