Crítica | Lado a Lado (1998)

Lado a Lado, diferente da maioria dos filmes que são oficialmente sobre o período natalino, é um exemplar de destaque dentro deste modelo de narrativa. O filme não começa com a promessa da chegada do Natal como um conflito para os seus personagens, ao contrário, está apenas no desfecho da história, como encerramento de uma parte da cronologia da família Harrison, em fase de transição matriarcal. Em filmes como Anjo de Vidro, Um Homem de Família e na comédia romântica O Amor Não Tira Férias, a chegada do dia 25 dezembro é tida como algo angustiante, pois estão todos em busca de mudanças diante de suas respectivas condições em sociedade.

No drama poderosamente interpretado por Julia Roberts e Susan Sarandon, a chegada do Natal é a demarcação de algumas certezas. Não é a busca de mudança, mas a organização de uma ordem estrutural. Longe dos personagens carentes e solitários que precisam de amor, o Natal em Lado e Lado é a reconfiguração de um lar diante das mudanças que se aproximam. A trama é simples. O que a diferencia de muitos filmes parecidos é a forma como o diretor conduz o texto e como as protagonistas encarnam os seus personagens.

No filme, Luke (Ed Harris) é o pai de dois filhos: Anna Harrison (Jena Malone) e Ben Harrison (Liam Aiken). Atualmente mora junto com a sua nova companheira, Isabel (Julia Roberts), mulher que foge de qualquer arquétipo que tenha se amalgamado no que diz respeito ao mito da madrasta má. Ela pode não ser talentosa maternalmente, mas é cuidadosa e paciente. Longe do estima de Branca de Breve e da Cinderela, Isabel tenta de todas as formas, agradar aos jovens, mas as suas tentativas iniciais fracassam constantemente. Muito disso por conta de Jackie (Susan Sarandon).

A esposa anterior de Luke é amarga. Ela não aceita a separação e dificulta ao máximo o trabalho de Isabel. As coisas mudam quando a sua “rival” recebe o pedido de casamento. Entre tantas perguntas, uma é inquietante: “por que não deu certo comigo?”. Diante das novidades, Jackie dificulta ainda mais as investidas de Isabel. O que ela não esperava é receber da sua médica o diagnóstico de câncer. Mesmo diante de um tratamento, os resultados não são favoráveis. É quando ela precisa baixar a guarda, repensar as suas estratégias, pois é bem provável que no próximo Natal, não esteja mais junto aos filhos.

A morte, presente num sentido figurado, sem os leitos de hospitais e enterros lacrimejantes, é o anúncio de uma nova era para esta família. Isabel se conscientiza do seu papel enquanto mãe. Jackie precisa ser humilde e compreender que é uma sina do destino, pois não haverá planos para driblar a morte. Ambas as personagens mergulham na dinâmica da mudança e reconstroem as suas existências, numa produção dramática adornada por elementos humorados que fornecem “humanidade” aos dramas encenados.

Chris Columbus demonstra competência ao assumir a direção. Segundo dados de produção, o cineasta inicialmente recusou o filme, pois ao receber o roteiro, percebeu do que se tratava e como havia perdido a mãe numa situação recente, vítima de câncer, o material era algo que não lhe faria bem emocionalmente. Julia Roberts e Susan Sarandon queriam muito trabalhar juntas e achavam que Lado a Lado era a oportunidade perfeita. Na segunda vez, Columbus agiu diferente. Ao receber o roteiro, não passou as páginas sem ler uma palavra sequer. Diferentemente do momento inoportuno de antes, aderiu ao projeto e empregou toques de humor e drama na medida certa, dando ritmo aos diálogos tensos entre as personagens femininas e regendo bem seu elenco infantil.

Cineasta conhecido por seus trabalhos em Esqueceram de Mim e Uma Babá Quase Perfeita, Columbus é respeitoso com o texto de Gigi Levangie, escrito em colaboração com Steven Rogers, Jessie Nelson, Karen Leigh Hopkins e Ronald Bass. No que tange aos elementos dramáticos, o filme é muito bem sucedido. Isabel e Jackie são personagens complexas. Até mesmo o personagem de Ed Harris, em seus poucos momentos em cena, apresenta características que o distanciam da complexidade nula.

Filmado entre Nova Iorque, Nova Jersey e estúdios no Brooklyn, em seus aspectos estéticos, Lado a Lado é deslumbrante, sem precisa de excessos para transmissão da “mensagem”. Ao longo de seus 124 minutos, direção de fotografia de Donald McAlpine é bem normativa, com enquadramentos padronizados e básicos, mas adequados para cada necessidade dramático do filme. Planos gerais entram e saem no momento certo, bem como os quadros mais fechados, utilizado alternadamente com outros elementos da narrativa, numa rima visual bem interessante. A direção de arte de Ray Kluga e a cenografia de George DeTitta Jr também funcionam bem, acompanhadas pela condução musical do experiente John Williams.

Por falar em música, o clássico Ain’t No Mountain High Enough exerce uma função narrativa poderosa, ao passo que acompanha o desenvolvimento de algumas situações fundamentais em diferentes momentos dos arcos dramáticos dos personagens. A canção escrita por Nickolas Ashford e interpretada, nesta versão, por Marvin Gaye e Tammi Terrell inicialmente é um tema de Jackie e seus filhos, mas depois se encaixa num momento de transição na relação de Isabel com os garotos, para no desfecho, servir de plano de fundo para o acordo de paz entre as protagonistas.

Lançado em 1998 e ainda bastante relevante enquanto drama e produção útil para discussão de temas ligados ao universo da família em transformações, Lado e Lado é uma história crível que pode se deslocar do contexto estadunidense e versar sobre qualquer cultura ao redor do planeta, pois os conflitos apresentados são o que algumas pessoas chamam de “universais”, isto é, podem estar situados em qualquer lugar. Outro detalhe: o Natal está presente, mas sem os excessos dos estereótipos comuns ao festejo anual. A lágrima escorre das situações apresentadas, realistas e dramaticamente bem delineadas, sem precisar de pisca-pisca, guirlanda, festão e neve para dar vazão aos estereótipos tão comuns aos filmes natalinos.

Lado a Lado (Stepmom) — EUA, 1998.
Direção: Chris Columbus
Roteiro: Gigi Levangie, Jessie Nelson, Karen Leigh Hopkins, Steve Rogers
Elenco: Ed Harris, Jena Malone, Julia Roberts, Liam Aiken, Lynn Whitfield, Susan Sarandon, Andre B Blake, Jack Eagle, Michelle Stone, Chuck Montgomery, David Zayas, Jason Maves, Robin Fusco
Duração: 124 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.