Crítica | Lady Bird: A Hora de Voar

“As pessoas atendem pelos nomes que seus pais dão, mas não acreditam em Deus.”

Lady Bird é um filme honesto. A começar, muito dessa característica, importantíssima para a intenção do filme , provém do fato de Greta Gerwig, sua idealizadora, diretora e roteirista, traçar na obra os frutos de uma própria vivência no high-school. Na virada do século, Greta tornava-se uma adulta, assim como a protagonista dessa obra semi-biográfica está se tornando. O ano é 2002 e, do mesmo modo que as tensões pós-11 de setembro, centenas de outras razões que poderíamos estudar socialmente movimenta uma adolescência aparentemente simples, mas tão complexa em seu interior que a honestidade cinematográfica nos faz sentir, mesmo que por breves momentos, como se voltássemos aos nossos dezessete e poucos anos – ou encarnássemos aqueles dezessete e poucos anos. Portanto, esse material é fidedigno com o jovem, mesmo que não nos faça entender todo o contexto e descrever exatamente o sentimento que se angustia para fora de seu peito, sendo, claramente, um grande recorte, que denota autenticidade ao não tentar ser um filme universal, mas um trabalho avaliativo das incongruências, ambiguidades, distúrbios, diferentes humores e tantas outras situações que compõem o adolescente, neste que é provavelmente um dos coming-of-age movies mais impactantes da década.

Por ser um recorte, Greta tem bastante sensibilidade ao traduzir aspectos comuns da vida de Christine McPherson (Saoirse Ronan) de maneira cinematograficamente hábil. A um passo da faculdade, Christine se auto-intitula Lady Bird, tentando desesperadamente encontrar seu lugar no mundo, viver a vida da forma mais produtiva possível e encontrar seus sonhos, até os mais distantes imagináveis. Ela não é a garota mais sábia do mundo, que está sempre dois passos adiante de seus colegas de classe. Longe disso, Lady Bird é uma pessoa como qualquer outra, cheia de imperfeições que a permitem ser alguém crível, mesmo que adversa a um carisma mais palpável. Por não ser tão encantadora na superfície, a personagem tem a simpática e engraçada Julie Steffans (Beanie Feldstein) ao seu lado, o que permite que nos deliciemos com a amizade entre as duas. Da verdade, vai surgindo aspectos pontuais “ordinários” na vida da garota, que não fazem questão de retornarem substancialmente mais para frente, como o relacionamento entre a protagonista e Danny O’Neill (Lucas Hedges). Todo o arco do seu personagem, interessantíssimo, inesperado e plural em facetas, acaba por sumir, mas o seu impacto continua a ser sentido, quando a cena final da obra é uma amálgama do crescimento de Lady Bird perante ao mundo, seu entendimento e prova da conquista de inúmeras características adultas (que alguns adultos de verdade parece não terem), como o perdão, a humildade e a compreensão.

Essa jornada de amadurecimento dada por Greta a sua personagem-irmã é o que cativa o público. Apesar disso, em um filme que brada verdade, há uns caminhos apressados que levam a garota de um ponto ao outro sem muita naturalidade. O envolvimento em panelinhas, com especial destaque a Kyle Scheible (Timothée Chalamet), demonstra a ineficácia de Greta em trazer seu estudo para ambientes que claramente não pertenciam a ela. Se é sobre o ponto de vista de Lady Bird, o que possivelmente não daria margem para um aprofundamento maior em cenários deslocados de sua realidade, a decisão mesmo assim se prova infrutífera visto que quando se vai falar sobre os impactos de determinadas pessoas na vida da garota, as coisas parecem insensíveis, quando, na verdade, nunca são. Tudo, até as coisas mais triviais, importam e definitivamente o pedaço da obra que fala sobre essa tentativa de se encontrar no meio do espaço escolar não é trivial; é algo maior, o que deveria ter contribuído fortemente na construção e amadurecimento da personagem e, principalmente, deveríamos ter sentido essa contribuição. No caso, a previsibilidade do segmento o desmonta ainda mais, por não se provar nem um pouco operante no mesmo nível do resto da obra, ainda que haja elementos sobre distintas visualizações da juventude relevantes a serem trabalhadas.

Todavia, o funcionamento do filme factualmente se deve ao excepcional manejamento do núcleo familiar feito por Gerwig, que é crível e multidimensional. As problemáticas internas, como contas a pagar, surtem efeito na vida da protagonista, o que cria camadas intrusivas na psiquê da personagem de Ronan. Sendo assim, em um primeiro plano, os momentos entre pai e filha já são capazes de prender o espectador de uma forma absurda. Aos poucos, na ocasião de problemas que fogem da responsabilidade de Lady Bird, enxergamos cicatrizes existentes em Larry McPherson (Tracy Letts) que tornam enfoques anteriores, novamente triviais, soarem muito mais significativos para o personagem. Lady Bird é uma obra que reestuda o que já foi apresentado, não ditando a verdade, mas sendo-a. Gerwig tem a sua carta na manga, contudo, na troca entre mãe e filha, a segunda sendo interpretada pela magnética Laurie Metcalf. Sua personagem Marion é uma figura materna cheia de nuances, trabalhadas muito bem pela atriz, que faz o afeto evoluir para a raiva, ou vice-versa, de maneiras inexplicavelmente sinceras. O som do silêncio é ensurdecedor e a quase inexpressividade dá margem para que, na hora certa, toda a dor, um misto entre orgulho, atenção, dever e amor, seja expressada, rapidamente, mas eficientemente, de um modo avassalador. O cuidado exacerbado e o medo do fracasso podem acabar aparando asas que nasceram para voar.

Não há nada de arrasa-quarteirões em Lady Bird, e isso é bom. Um longa-metragem que traz uma personagem realista, palpável, moldada excepcionalmente bem por Saoirse Ronan, mas alavancada ainda mais pelo roteiro de Greta Gerwig, que prioriza o comum de nosso dia-a-dia juvenil, as diferentes fases de uma única estação da vida. A visão feminina e sincera da diretora, aliás, faz com que a obra seja especial no retrato da intimidade, diferente de batidas tradicionais existentes na essência de produtos como esse. Mesmo que não se consiga, no texto, fugir de fórmulas ancestrais e muito menos utilizá-las em alguns pontos tão coesivamente quanto se usa-as em outras situações, há definitivamente uma dramédia leve, sensível e honesta a ser apreciada de bom grado. Se os recortes acertam em cheio na experiência pessoal de um espectador, Lady Bird tende a se tornar um outro filme, ainda mais poderoso; fortemente representativo. O cinema distingue cada um de nós de uma maneira particular, dependendo de quem uma pessoa é e do que ela viveu, não sendo isto algo a ser menosprezado, nem mesmo numa crítica, mas compreendido e exaltado quando feito de forma tão verdadeira e responsável quanto esta.

Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird) – EUA, 2017
Direção: Greta Gerwig
Roteiro: Greta Gerwig
Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Beanie Feldstein, Lois Smith, Stephen Henderson, Odeya Rush, Jordan Rodrigues
Duração: 94 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.