Crítica | “Lady In Gold” – Blues Pills

estrelas 3

Em 2014 os suecos do Blues Pills passavam a atrair atenção de uma grande parcela de viúvos do classic rock setentista, quando o gênero era influenciado por blues e técnica absurdamente competente. E depois de tantos elogios por seu debut homônimo, seria naturalmente difícil conseguir se superar dentro de um gênero que, nos dias de hoje, sempre esbarra em clichês e repetições. Bem, dando sequência à carreira, a banda chega a seu sophomore álbum, Lady In Gold, sabendo desviar ao menos de um problema: não se trata de uma réplica do trabalho anterior, há um claro objetivo de mostrar algo diferente do já apresentado. Entretanto, isso não é o suficiente pra fazer deste o álbum de alto nível que todos esperavam do Blues Pills.

Bastou sair o primeiro single, Lady In Gold, e a internet – sim, essa caverna enfadonha que abriga tanta polêmica – pra muitos fãs mostrarem suas insatisfações com o novo caminho da banda. “Cadê os solos de guitarra?” – a mesma pergunta que foi direcionada ao Metallica na era St. Anger agora era direcionada ao Blues Pills devido a uma diminuição de solos e riffs. É algo que nitidamente faz falta ao trabalho em certos momentos (afinal, a banda possui blues no nome), mas que está longe de ser razão exclusiva para este ser menos eficiente. Seu problema reside muito mais na falta de coesão. Se a primeira metade é excelente, cheio de riffs enérgicos e arranjos caprichados, a outra metade oferece sérias dúvidas da proposta que o disco escolheu seguir. Algo mais comercial? Algo na linha do primeiro álbum da banda? Tudo soa como um compilado de canções que não sabem se conectar.

Não se preocupe, a obra como um todo demonstra uma manutenção das qualidades da banda. A vocalista Elin Larsson continua com ótimas performances sabendo utilizar sua linda técnica vocal. O que ela oferece na acústica I Felt A Change é tocante, sua mais bela interpretação e que a coloca facilmente no pedestal de grandes intérpretes atuais, como Adele. Os backing vocals de pegada soul em Little Boy Preacher são espertas inserções que trazem um charme interessante à nova empreitada do Blues Pills. Burned Out, outro exemplo de acerto magnífico do álbum, sabe usar os riffs espaçados, a bateria acelerada e o solo bem inserido para construir uma atmosfera de mistério e explodir no momento certo do refrão.

No entanto, veja que os pontos baixos do disco também mergulham fundo. Há uma gigantesca confusão em Bad Talkers: um refrão que não sabe conversar com o instrumental, um arranjo perdido na busca de encontrar seu tom, sintetizadores que precisavam ser melhor incorporados, tudo isso unido soando como duas canções diferentes tocadas ao mesmo tempo. A faixa final, Elements And Things, por exemplo, é uma canção fraquíssima que se aproveita de uma produção rebuscada e clichês do gênero para camuflar algo que soa épico apenas no papel, mas não na prática.

Blues Pills não avança em sua carreira como o esperado após seu majestoso debut. A proposta da banda aqui é um tanto mal resolvida, ainda que o saldo final seja bastante proveitoso (grande parte devido ao talento da equipe, excelentes instrumentistas). A quantidade de bandas a surgirem nas últimas duas décadas como “salvadoras” do rock/hardrock e decepcionarem com seus discos seguintes é algo inacreditável. Estaria o Blues Pills seguindo esse rumo indesejado? Tomara que não, o estoque de pílulas de blues precisa ser sempre renovado.

Aumenta!: Burned Out
Diminui!: Bad Talkers

Lady In Gold
Artista: Blues Pills
País: Suécia
Lançamento: 5 de agosto de 2016
Gravadora: Nuclear Blast Records
Estilo: Blues, Rock Alternativo, Hardrock

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.