Crítica | Lady Vingança

Se fosse para traduzir este texto em linhas curtas e diretas, o mais óbvio a dizer seria: Lady Vingança é o pior filme da Trilogia da Vingança elaborada pelo diretor sul-coreano Chan-wook Park. Se o filme é ruim? Longe disto. O diretor ainda reserva boa parte do brilhantismo que exibiu nos fantásticos Mr. Vingança e Olbdoy, mas este capítulo de encerramento sobre as visões de Chan-wook sobre o desejo de vingança e suas consequências fica à sombra de seus antecessores devido a sua simplicidade, onde o diretor tenta visivelmente mascarar com suas elaborações visuais requintadas e uma narrativa apoiada em flashbacks.

Basicamente, o filme é sobre a busca de Lee Geum-Ja por vingança após ficar presa 13 anos por um crime que não cometeu, onde acobertou o assassinato de um garoto apenas para livrar o verdadeiro culpado, antes seu amante, do tempo na prisão. Desta forma, é no mínimo curioso a preocupação excessiva de Chan-wook com suas elaborações visuais e seu leve desleixo em contar a história, que apesar da narrativa fragmentada, no fundo, não traz nada de novo em relação a visão de Chan-wook sobre o que é a vingança.

Como bem li em algum lugar, Lady Vingança é mais um trabalho de pintor do que de um contador de histórias. Neste sentido, o filme pode ser analisado  sobre duas vertentes: apesar da violência estar bem menos presente, a busca do diretor pela perfeição visual é um verdadeiro deleite para aqueles que, por exemplo, babaram com o plano sequência da luta no corredor vista em Oldboy. Desde os créditos iniciais, lindamente elaborados, sentimos que Lady Vingança é o mais rebuscado de um diretor visualmente sofisticado – há um bom número de imagens capazes de encher os olhos, com enquadramentos precisos e ambiciosos, cuja beleza e criatividade são ressaltadas pelo encantador jogo de cores do filme e transições de cenas extremamente criativas. Sob este ponto de vista, Lady Vingança é uma realização de grande êxito.

Por outro lado, sente-se a carência das surpresas ao longo da narrativa, onde a narrativa entrecortada jamais esconde o roteiro “redondinho” e de possibilidades sub-aproveitadas. O próprio Chan-wook parece fazer questão de “encucar” o público com pouquíssimas informações (apenas nos familiarizamos de vez com a trama após uns trinta minutos de projeção) e um excesso de personagens que apenas confundem o seguimento da coisa. O resultado é uma primeira metade um tanto cansativa.

Quando a protagonista, enfim, põe seu plano de vingança em prática, Chan-wook mostra a que veio e finaliza seu filme de maneira empolgante, explosiva e lindamente poética. Os excessos, entretanto, acabam inevitavelmente diminuindo o trabalho de Chan-wook, especialmente quando lembramos de Mr. Vingança e Oldboy. Mas apesar dos poréns, Lady Vingança encerra bem a trilogia e faz jus ao tema brilhantemente dissecado pelo diretor ao longo destes três filmes.

Lady Vingança (Chinjeolhan Geumjassi, Coréia do Sul, 2005)
Roteiro: Chan-wook Park e Seo-Gyeong Jeong
Direção: Chan-wook Park
Elenco: Yeong-ae Lee, Min-sik Choi, Su-hee Go, Bu-seon Kim, Byeong-ok Kim, Shi-hoo Kim, Yea-young Kwon, Il-woo Nam
Duração: 112 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.