Crítica | Laika (2007)

Laika é uma graphic novel publicada originalmente em 2007, nos Estados Unidos, mas que chegou ao Brasil somente em 2017. Escrita e desenhada pelo britânico Nick Abadzis, foi a vencedora do prêmio Eisner de 2008 na categoria de “melhor publicação para jovens”. Laika leva o nome e conta a história, baseada em fatos, da famosa cadela que ganhou popularidade em 1957, quando se tornou o primeiro ser vivo a orbitar o planeta Terra. Ainda no início da corrida espacial, a União Soviética buscava um novo êxito após o sucesso do projeto Sputnik; liderado por Serguéi Pávlovitch, o projeto Sputnik II deu aos soviéticos uma dianteira momentânea na corrida espacial, além de ter selado o trágico destino da cadelinha.

Apesar do forte tom crítico (no qual me aprofundarei mais adiante) e do contexto abordados pelo autor, Laika não é um quadrinho político. Trata-se de um sensível e envolvente relato da história por trás da história, no qual Abadzis consegue unir delicadeza e força através de seu texto e desenhos, extraindo um resultado emocionante que homenageia a memória da pequena heroína.

No primeiro capítulo, somos apresentados a um personagem essencial, Serguéi Pávlovitch. Engenheiro-chefe do programa espacial soviético, Sérguei havia sido preso no passado, acusado de traição; após sua soltura, ele permanecia com status de prisioneiro em condicional e ansiava pelo perdão e suspensão das acusações que pendiam contra ele. Por isso, se aliou ao partido comunista e via nos projetos Sputnik a oportunidade de provar seu patriotismo e a consequente absolvição permanente.

Desde o início o texto de Abadzis é hábil ao se utilizar de um coloquialismo simples e conciso, porém didático em certos momentos, que faz com que a leitura seja ágil, clara e prazerosa. Tal didatismo é muito bem utilizado pelo autor, mas sem se tornar exagerado e muito menos enfadonho. Um ótimo exemplo disso é o primeiro capítulo, no qual são estabelecidos de forma precisa, em apenas vinte páginas, elementos chave do roteiro, como a motivação de Sérguei, a necessidade de se acelerar o projeto Sputnik II, o clima de rivalidade com os americanos e, principalmente, a ambição soviética que não mediria esforços para demonstrar a força do seu sistema.

Momentos derradeiros de Laika

Desta forma, a leitura de Laika torna-se bastante instrutiva sem que o roteiro se desvie para focar em explicações exacerbadas; estas, são inseridas nos diálogos de forma totalmente orgânica. O aspecto didático acrescenta à obra um viés documental, lembrando, em algumas passagens, o texto de Art Spiegelman em Maus; os desenhos de Abadzis, com traços simples, estilo cartunesco e, às vezes, quase minimalista, reforçam tal comparação. No entanto, o uso de cores frias (creditado a Hilary Sycamore) dá um tom mais leve à história, bem diferente do clima tenso e carregado em algumas passagens de Maus (criado pelo uso específico do preto e branco). Em Laika, a paleta de cores muda acertadamente perto do final, na sequência de lançamento do Sputnik II; as cores quentes tomam conta das páginas, de forma a transmitir ao leitor as sensações de calor e claustrofobia vividas pela cadelinha.

Já no segundo capítulo conhecemos Kudriávca (nome de “batismo” de Laika) através de sua penosa jornada, desde o nascimento até o momento em que é capturada pela carrocinha e chega como um dos animais utilizados no programa espacial soviético. A partir deste ponto, Abadzis utiliza uma pertinente liberdade poética ao representar os sonhos de Kudriávca (o que ocorre outras vezes ao longo da trama). A cadelinha se lembra dos humanos com quem esteve e dos poucos bons momentos de sua vida; há inclusive vislumbres do que a pequena Laika gostaria de estar vivendo, em vez de vagar pelas ruas e caçar ratos para comer. São sequências extremamente comoventes, que com certeza fazem muitos leitores derramarem lágrimas pela boazinha Kudriávca (como muitos personagens se referem a ela ao longo da história).

Daqui por diante, nos capítulos três e quatro (que são bem maiores do que os dois primeiros), o roteiro mergulha de vez nos detalhes do programa espacial, entrelaçando as trajetórias de Laika e Serguéi e apresentando outros dois personagens importantes na trama: Dr. Oliég Gazenko (biólogo e cientista-chefe) e Elena Dubrovskaia (contratada para cuidar dos animais que participavam dos testes). Estes são os dois personagens que mais se compadecem da situação de Laika e, por isso, de certa forma representam os sentimentos que tomam o leitor ao longo da obra. Por outro lado, ambos devem demonstrar sempre total devoção ao partido comunista; qualquer mera sugestão “inapropriada” de ideias ou sentimentos que possam parecer contrários aos do partido pode ser considerada suspeita e, portanto, passível de ser interpretada como traição. Era uma época de paranoia na União Soviética e isso gera um dilema importante para o desenvolvimento dos personagens, que se veem divididos entre razão e emoção.

laika_plano critico

Tal desenvolvimento se evidencia em Gazenko, que começa a história num tom mais sóbrio. Porém, à medida em que o projeto Sputnik II avança e sua relação com Elena estreita, a mentalidade do personagem vai se modificando e seus dilemas interiores crescem, o que fundamenta muito bem sua psique e dá significado à frase que encerra a obra, dita por ele em 1988: “Quanto mais o tempo passa, mais eu lamento. Não aprendemos tantas coisas com a missão que justificassem a morte da cachorra”.

Em Laika, o autor não só nos conta a história de Kudriávca, mas também critica a precipitação do projeto, no qual se abriu mão da segurança de um ser vivo em prol do avanço científico. O texto enaltece que o objetivo era coincidir o lançamento da nave com o aniversário da Revolução Russa e, para isso, algumas etapas previstas (e necessárias) foram deliberadamente descartadas; dentre elas, o plano de retorno da cadela. O resultado foi sua morte, que ocorreu poucas horas após o lançamento (provavelmente devido a superaquecimento e estresse).

Na ocasião, a imprensa mundial deu pouca atenção aos aspectos relacionados à exploração e abuso de animais, focando basicamente nos desdobramentos políticos e científicos oriundos do projeto. O governo soviético, por sua vez, sempre deu explicações contraditórias acerca de sua morte. Somente tempos depois é que um amplo debate sobre o maltrato de animais (e os avanços científicos decorrentes) se tornou tema em diversas arenas de discussão, envolvendo imprensa, governos e opinião pública.

Laika é uma obra emocionante, mas também contundente e reflexiva. A questão ética tratada por Abadzis é ainda muito atual, principalmente pelo fato de que não se restringe à área de pesquisas espaciais, estando presente também na medicina, indústria cosmética, farmacêutica, produção animal e várias outras. Tecnicamente, não é um divisor de águas na indústria de quadrinhos; pelo contrário, conta com atributos textuais e estéticos convencionais, embora muito bem executados. No entanto, seus méritos consistem num excelente tratamento dado aos personagens, que possuem boas camadas de profundidade, e numa narrativa sensível e assertiva, fazendo com que o leitor realmente se conecte à história de Kudriávca.

Laika (EUA, 2007)
No Brasil: Laika
Roteiro: Nick Abadzis
Arte: Nick Abadzis
Cores: Hilary Sycamore
Editora no Brasil: Boitempo Editorial
208 páginas

DANIEL TRISTÃO . . . Paulistano, gosto de quadrinhos desde criança, aos 10 anos me interessei por literatura ao ler suspenses infantojuvenis e ainda adolescente já assistia filmes como um dos meus principais hobbies. Alan Moore, Neil Gaiman, Warren Ellis, Stanley Kubrick, Martin Scorsese, Christopher Nolan, Agatha Christie e H.P. Lovecraft são alguns dos autores que mais admiro. Sou formado em Administração e trabalho com TI; leio livros, gibis e assisto filmes mais do que muita gente considera normal, mas menos do que eu gostaria.