Crítica | Lanterna Verde: Terra Um – Volume Um

O projeto de Elseworlds da DC Comics batizado de Terra Um assemelha-se muito à iniciativa da Marvel Comics, a partir do ano 2000, de construir um universo paralelo, lá batizado de Ultimate. Livre das amarras da continuidade e formando histórias que compartilham o mesmo e recém-criado universo, leitores novos e veteranos podem aproveitar as releituras de seus super-heróis favoritos. A grande diferença entre as editoras, porém, é que, diferente da Marvel, que rapidamente populou o Universo Ultimate com HQs mensais, a DC escolheu um caminho mais lento, artesanal e sofisticado, com a publicação de graphic novels de capa dura sem periodicidade fixa.

Reapresentando primeiro o Superman, depois o Batman, seguidos de Jovens Titãs e Mulher-Maravilha, era natural que o próximo fosse Hal Jordan, o primeiro Lanterna Verde da Era de Prata. E a recriação do personagem não poderia ser mais satisfatória, com um roteiro de cunho cinematográfico de Corinna Bechko e de Gabriel Hardman (que trabalharam no excelente universo do Planeta dos Macacos da BOOM! Studios) e que desenvolve mais do que adequadamente o herói dentro da pegada um pouco mais realista que as GNs Terra Um tentam seguir. Deixando de lado os aspectos mais “românticos” da mitologia dos Lanternas, como o famoso juramento e a quase mítica “escolha” de Jordan para ser o defensor do quadrante da Terra, os roteiristas partem para calcar a história dentro de um cenário desesperançoso tanto na Terra quanto no restante do universo e apresentando-nos um Harold “Hal” Jordan amargo, cínico e desgostoso com seu planeta natal ao ponto de preferir permanecer no espaço minerando asteroides por anos a fio do que voltar para seu lar.

E surge o Lanterna Verde!

É assim, com o Hal Jordan “minerador”, que a história começa, o que já estabelece que estamos em um universo em que o nível tecnológico de nosso planeta está mais avançado, com expedições espaciais pelo Sistema Solar apenas, algo fácil de se aceitar. Em um asteroide, Jordan faz uma descoberta incrível: ele encontra uma nave alienígena semi-soterrada com um E.T. humanoide morto em seu interior (o nome não é mencionado, mas é evidente que é Abin Sur), além de um enorme robô avariado (que, não demora, revela-se como sendo um dos Manhunters, ou Caçadores Cósmicos). Além disso, ele e Volkov, seu colega na Ferris Galactic, encontram e recolhem um misterioso anel aparentemente inerte e uma lanterna ainda carregada de energia. Ao manejar o anel durante o retorno à nave-mãe, Volkov causa um acidente que o mata, com Jordan sendo salvo justamente por segurar o anel em sua mão.

A partir daí, a história desenvolve-se em ritmo vertiginoso, com Jordan manejando de forma rudimentar o poder do anel e derrotando, em uma mistura de sorte e habilidade inata, o Caçador avariado que é reativado quando o anel “acorda”, algo que o leva a ser localizado por Kilowog, um dos mais adorados Lanternas do universo normal da DC Comics. É, porém, a partir deste ponto na narrativa que a história fica realmente interessante e ambiciosa. O roteiro de Bechko e Hardman claramente bebem das décadas de mitologia da Tropa dos Lanternas, rearrumando, descartando e organizando muita coisa em um caminho lógico de reconstrução de uma história que mantém a essência do que foi estabelecido para a Tropa e, particularmente para Jordan, mas criando algo próprio e que segue um excelente caminho. E a premissa é simples: os Lanternas Verdes não existem mais e os aneis que ainda têm dono são manejados por seres que, assim como Jordan, mal sabem o que estão fazendo, com variados graus de conhecimento sobre a “lenda” da Tropa e o que exatamente ela significou.

Com isso, vamos caminhando (ou voando, como queiram) juntamente com Jordan e Kilowog por um “curso intergalático de arqueologia da Tropa dos Lanternas Verdes” que torna o que poderiam ser tediosas explicações expositivas em artifícios muito bem desenvolvidos e repletos de ação e de construção narrativa com significado pleno para a história que a dupla de roteiristas tenta – e consegue – estabelecer com um passo inicial para a versão Terra Um do herói. Diferentemente do trabalho desapontador de Jeff Lemire no Volume Um de Jovens Titãs: Terra Um, a GN é substancialmente fechada, contando uma história completa de origem que, claro, deixa a entrever continuidade, mas de maneira orgânica e justa, já que o arco é corretamente encerrado.

Hal Jordan encontra-se com Arisia e Kilowog.

A arte de Hardman é rústica, com traços imprecisos, mas que evocam os sentimentos necessários em Jordan, Kilowog e demais personagens que vão aos poucos surgindo. Aproveitando-se do pouco conhecimento que os manipuladores dos anéis têm, ele trabalha a energia verde em rajadas desgovernadas, lembrando raios elétricos, além de criar texturas para os figurinos de seus personagens – que não têm uniformes “mágicos” – que evocam um realismo que combina muito bem com a visão do roteiro para esse universo. Da mesma forma, o artista solta sua imaginação para criar fascinantes mundos muito diferentes uns dos outros e que evocam um sentimento de ancestralidade que dá estofo à mitologia da Tropa dos Lanternas Verdes.

Juntamente com os primeiros volumes de Batman e Mulher-Maravilha da Terra Um, o Volume Um de Lanterna Verde: Terra Um consegue chegar a um nível de qualidade impressionante. É como assistir a um muito bem pensado e produzido filme do personagem, algo muito diferente daquela coisa tenebrosa que chegou às telonas, mostrando que Hal Jordan precisa ganhar logo uma nova versão cinematográfica.

Lanterna Verde: Terra Um – Volume Um (Green Lantern: Earth One – Volume One, EUA – 2018)
Roteiro: Corinna Bechko, Gabriel Hardman
Arte: Gabriel Hardman
Cores: Jordan Boyd
Letras: Simon Bowland
Capa: Gabriel Hardman, Jordan Boyd
Editoria: Kristy Quinn
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: março de 2018
Páginas: 143

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.