Crítica | L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância

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Posted 18 de abril de 2012 by in Catálogos
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4.5/ 5

Título Original: L'Apollonide - Souvenirs de la Maison Close
 
Ano de Produção: 2011
 
País de Produção: França
 
Direção: Bertrand Bonello
 
Roteiro: Bertrand Bonello
 
Elenco: Hafsia Herzi, Céline Sallette, Jasmine Trinca, Adele Haenel, Alice Barnole, Iliana Zabeth, Noémie Lvovsky
 
Duração: 122min.
 
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Um puta filme

by Gabriel Neves
Full Article

Vamos fazer comércio?

É incrível a velocidade de movimento, de transição das coisas. O devir de Heráclito estava certo, transitamos constantemente entre o que somos e o que viremos a ser. E isso é a mesma coisa com os objetos, com os lugares, com as tradições. No milênio passado, a França era mundialmente conhecida por seus bordéis legalizados, suas casas de tolerância. Ser uma prostituta estava acima das noções atuais. Em 1800, as casas não só eram legalizadas mas as mulheres eram alguém. Possuíam um luxo especial, criado pelos ambientes luxuriosos do Sphinx, do Chabanais e pelos vários bordéis na Rua dos Moinhos. A cidade fervia na arte de se fazer amor. Uma pena se formos comparar com os dias contemporâneos. A prostituição virou pecado, a prostituição se tornou ilegal em muitos Estados, a prostituta acabou se tornando uma parcela da escória social. A beleza mínima da profissão se tornou repugnante e é impossível se olhar com respeito para alguém que trabalha com um assunto tão moralizado quanto o sexo. A única coisa que realmente não mudou é isso: as prostitutas não são, de modo algum, felizes. São, na verdade, atrizes melancólicas que atuam nas diversas camas do mundo.

Se veio procurar liberdade, entrou no lugar errado. Aqui é uma casa de tolerância, a liberdade está lá fora.

Olhe só como as coisas mudam! A prisão do prazer, que antes era interna, se tornou pública. O mundo se tornou um antro tão forte que a sexualidade virou tabu, a banalização se tornou perversão e o desejo se escondeu atrás do moralismo. O que antes era uma casa que aprisionava os mais sórdidos desejos, que escondia as fantasias de senhores de alta classe em quatro paredes, agora é um mundo que aprisiona o desejo da pior forma possível: escondendo-o. Padre, pecado é o que a gente gosta! Temos então a casa de tolerância, que dialoga entre as duas épocas distintas da prostituição na França. Primeiramente no seu auge, com uma casa cheia de senhores com dinheiro e com mulheres bonitas e saudáveis. Depois, na sua queda, quando o governo francês começa a ilegalizar os bordéis do país e transforma a diversão em subversão, quando a prostituição e as prostitutas se tornam ramos tão doentes que quase dialogam entre si. É o período de transição entre a farsa bem montada e a exaustão que não pode ser mais escondida. É L’Apollonide.

Entramos no prostíbulo maravilhosamente recriado por Bonello. O diretor ainda chega a explicar seu filme, quase um documentário com um dedo ficcional, dizendo que ele é um ponto de vista diferenciado dos prostíbulos. Normalmente o lado visto sempre é o de um Don Juan cativante, que aparece num bordel por poucos segundos e analisa suas escolhas com um charme quase que anormal. Aqui temos a visão completa das prostitutas de L’Apollonide, mulheres desgastadas que ainda acreditam numa centelha da esperança na vida no bordel. É o olhar das mulheres sobre os homens que a visitam. Para exprimir ainda mais sua mensagem, Bonello coloca uma figura única em seu roteiro, interpretada por Alice Barnole, que faz Madeleine, a Judia. Logo nos primeiros momentos da fita, vemos todas as mulheres praticando o ato sexual, uma acima e ao lado da outra, completando a tela com um gozo forte e crível. Até que gritos de dor são ouvidos ao fundo dos gemidos de prazer e as pequenas imagens dão lugar a Madeleine amarrada e sangrando numa cama, com sua boca cortada num sorriso deformado. A Judia se tornou A Mulher Que Ri, com um riso infinito expresso numa personalidade de completo desprazer. Essa estratégia do diretor e roteirista retorna a uma obra literária de Victor Hugo, chamada O Homem Que Ri. A história mostra um homem mutilado que usa sua máscara alegre para representar a deformação não dele próprio, mas da sociedade. No bordel não é diferente.

O roteiro perde um pouco de seu encanto graças ao simbolismo, graças à tristeza metafórica. Mas no que perde, a direção ganha um rumo ainda maior. Bonello consegue trazer sua câmera segura para o rosto de todas as atrizes por igual, sem nunca se demorar no físico dos clientes, demonstrando uma coisa bastante importante: a oferta está acima da procura. L’Apollonide é, nesse aspecto, um filme metalinguístico. Há uma atuação dentro da própria atuação das sete mulheres da casa de tolerância. Tem de haver uma entrega total, uma fragilidade do sexo feminino, um prazer contagiante nos seus gritos, um orgasmo fingido. E a faísca da felicidade para completar o pacote, já que sem esperança elas não conseguem trabalhar. Há aqui a moça que sonha com o homem que a tirará da vida, temos a jovem que deposita seus sonhos no ato de se prostituir, há sonhos, há desejos, há humanas. Não há como destacar nenhuma atuação já que tudo é um conjunto. L’Apollonide não seria nada se não fosse seu grande harém.

Terminando o filme com chave de ouro, há a impecável parte estética. A edição da fita, de Fabrice Rouaud, é belíssima. Há uma beleza ao vermos, lado a lado do mesmo plano, as mulheres do prostíbulo se queixando de suas vidas em espaços diferentes, com apenas uma pequena fresta escura as separando de si mesmas. As preces de cada uma se unem numa consciência coletiva daquele pequeno grupo desafortunado. Temos ainda os figurinos muitíssimo bem escolhidos, que vão desde vestidos suntuosos do início do século na capital francesa até pequenos detalhes que servem apenas para encobrir porcamente a nudez das mulheres. Temos também a maquiagem, que trabalha aqui em sincronia com o figurino. E há a belíssima fotografia de Josée Deschaies, que prega por um tom verde-escuro na maioria do filme, transitando momentaneamente para um verde mais claro no único momento que a câmera sai do bordel para um pequeno gramado à beira de um lago, no único instante em que vemos risos brotarem das faces amarguradas sem ser por atuação. Embalando toda a estética do filme, todo o roteiro e as grandes interpretações do elenco, há a trilha sonora que mescla o soul (na faixa de abertura e de desfecho, Bad Girl de Lee Moses), a música clássica (que está presente por meio de canções de Mozart e Puccini) e faixas originais do próprio Bertrand Bonello.

Tenho todos os contos do Marquês de Sade e a Bíblia. Mas ainda não li a Bíblia.

Eis aqui a profissão mais antiga do mundo envolta num cárcere de prazer. As prostitutas de L’Apollonide são atrizes natas: um poço de tristeza que tem de se mascarar com a alegria cotidiana. É a desconstrução de um estereótipo nas duas horas de sessão, tudo colocado na figura central d’A Mulher Que Ri, um riso marcado na face que não deixa mais ninguém ver nada além disso. Qual é a graça, afinal, na humilhação, na depravação, na mesmice? Além de atuações e direção, a produção é maravilhosa, com uma fotografia e uma montagem assombrosas. A ambientação do prostíbulo também é perfeita. O único pecado na fita não é a luxúria, mas a metaforização dela, o que acaba sem comprometer o resultado final. L’Apollonide é, com o perdão do trocadilho, um puta de um filme.



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About the Author

Gabriel Neves

Amante da arte antes de qualquer coisa, principalmente da sétima. 18 anos, estudante de Audiovisual, um ator e um crítico que se achou no cinema há pouco tempo, entre as sessões de A Troca e Bastardos Inglórios.

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