Crítica | Lara Croft: Tomb Raider – A Origem da Vida

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Permitam-me começar esta crítica com algo que nada tem a ver com ela. É apenas uma abordagem rápida a respeito da minha visão sobre esta segunda produção cinematográfica de Tomb Raider com Angelina Jolie no papel de Lara Croft. Se você não quiser ler nada sobre isso, é só pular para a crítica que está depois da sinalização, na mudança de parágrafo. Uma leitora comentou o seguinte em uma crítica do meu parceiro Gabriel Carvalho: “Vcs já deram nota maior pra filme muiiito pior“. E minha resposta para ela é algo que chega exatamente no ponto que quero discutir aqui: “Mas cada filme é um filme e cada nota é uma nota, assim como interpretações do que é “muito pior” ou “muito melhor”. No meu caso: 5 estrelas que eu dei para Palhaços Assassinos não são as mesmas 5 estrelas que eu dei para Petra Von Kant. As minhas 4,5 estrelas para um episódio de Twin Peaks são completamente diferentes das 4,5 estrelas que eu dou para um episódio de Legends of Tomorrow“. Tendo isso em mente, peço que entendam a forma como eu exponho o peso técnico e de enredo para separarem a nota que atribuo aos dois filmes da franquia Tomb Raider (versões de 2001 e 2003), que é a mesma, embora eu vá dizer algumas vezes no texto abaixo que este A Origem da Vida é “bem melhor”. Em comparação ao primeiro, é mesmo, apesar de manterem um conjunto de erros que acabam deixando-os no mesmo patamar. O por quê, vocês verão abaixo. Boa leitura.

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A produção de Lara Croft: Tomb Raider – A Origem da Vida não teve praticamente nenhum dissabor ou atrasos que atrapalhassem consideravelmente o produtor final. Já tendo visto o trabalho de Angelina Jolie em Lara Croft: Tomb Raider (2001), o público das polêmicas não tinha mais do que reclamar, assim como o grupo da problematização indevida de uniformes, especialmente após perceberam o quão interessante e forte era esta Lara Croft dos cinemas, fazendo jus à sua origem nos games. Com roteiro de Dean Georgaris, baseado em uma história de Souza e Hart, esta aventura ganhou um ar muitíssimo mais cinematográfico do que a primeira, sem ter a obrigação de simular lutas, ambientes e sequências isoladas de ação-pela-ação, o que de cara já o tornou muito melhor.

Embora o filme comece errando, com uma cena de casamento grego que não acrescenta absolutamente nada à história, servindo apenas de gancho locacional (e eu, que não sou roteirista — não profissional, pelo menos — consigo pensar em umas 1200 maneiras melhores de fazer o mesmo gancho do que passar três minutos em uma abertura insossa e vazia) para colocar Lara na trilha de um templo submerso, o Templo de Alexandre, o Grande, guardião de um orbe que pode mostrar o caminho para a Caixa de Pandora. Sim, a Caixa do mito. Só que ela não é um mito. Qualquer espectador que tenha o mínimo de interesse por mitologia, história, antropologia, geografia e os estudos vindos dessas áreas que questionam uma série de coisas da nossa existência, gerando os famosos “mistérios da humanidade”, sente-se atraído de imediato pela proposta da obra. E vejam, o mesmo padrão de argumento tornou Os Caçadores da Arca Perdida (1981) uma atração imediata. Este é um filão que consegue chamar a nossa atenção.

Sob direção de Jan de Bont (Velocidade Máxima e Twister), o filme ganhou um avanço no campo de ação, tendo uma passagem mais orgânica entre as sequências, diminuindo consideravelmente o incômodo de parecer que estávamos em uma sessão de curtas-metragens mal editados. Quando a máfia de Chen Lo (Simon Yam) entra em cena, o filme muda bastante de tom. Por um momento, temos uma exposição sólida de um jogo de gato e rato onde Lara é a mocinha que precisa impedir que o orbe-mapa caia nas mãos do terrorista Jonathan Reiss (Ciarán Hinds, em uma interpretação robótica e enjoativa, com apenas um bom momento em cena, na sequência do avião). A chegada de um antigo namorado de Lara, o ex-militar-traidor britânico Terry Sheridan (Gerard Butler, esbanjando charme e com uma virada de comportamento risível e desnecessária no encerramento), a jornada para impedir o Juízo Final começa. Assim como alguns dos maiores problemas do filme.

As surpresas parecem funcionar bem enquanto estão na Ásia. Pela rota, pela relação com o Tempo de Alexandre, pelas pistas culturais colocadas no roteiro, nós não temos problemas em acompanhar a o primeiro bloco de buscas. Mas após a escapada da China, há muita indecisão em jogo e nada para substituir o vazio que a falta de informações nos traz. Não há problema nenhum em colocar personagens “perdidos” no meio de uma caçada como esta. É um recurso simples e recorrente de criação do suspense, qualquer um sabe disso. Mas enquanto não sabem para onde ir, uma outra camada do roteiro deveria se fortalecer. Isso não acontece aqui. E o preço a ser pago é alto, porque a diferença de qualidade narrativa é imensa do desenvolvimento para a parte final da obra. A nossa sorte é que o diretor Jan de Bont não perde a mão e mantém o seu estilo de ação misturada com suspense e reviravoltas, o que cai muito bem a uma película como essa, nos mantendo sempre atentos e esperando pelo próximo “golpe”.

Com o sequestro dos amigos-funcionários de Lara e o afunilamento do texto para uma aventura na África, a coisa realmente se perde. Visualmente falando — olha o paradoxo aí! — eu acho esta uma das partes mais interessantes do filme. O que o diretor de fotografia David Tattersall (recém-saído de O Ataque dos Clones007 – Um Novo Dia Para Morrer) conseguiu fazer de destaque apenas na chegada da dupla à China e na fuga da dupla da China (aquele pôr do sol, o belo plano dos dois se beijando — cena de beijo esteticamente bonita e sexy não é tão comum no cinema quanto parece) ele conseguiu nas cenas filmadas no Quênia. Apesar de os efeitos do Lago de Ácido e dos “espíritos protetores” serem risíveis e, no texto, darem uma dimensão “mágica demais para o nosso gosto”, eles não atrapalham, diferente das composições finais de Alan Silvestri para as cenas africanas, que parecem ter sido feitas para outro filme.

Melhor finalizado, mais divertido, mais inteligente, porém, com uma quantidade de problemas que ainda o segura na linha mediana, Lara Croft: Tomb Raider – A Origem da Vida foi uma pequena mostra de que mesmo as produções sem muita pretensão (além do puro espetáculo) podem conseguir elencar coisas que não necessariamente constam no catálogo dos filmes pipocão. Uma forma mais cuidadosa na inserção da parte de fantasia, uma melhor estrutura para o bloco africano e um melhor gancho de ambiente no começo do longa poderiam tê-lo mudado para melhor. Mesmo assim,  é um bom entretenimento. Pelo sim, pelo não, está bom demais.

Lara Croft: Tomb Raider – A Origem da Vida (Lara Croft Tomb Raider: The Cradle of Life) — EUA, Alemanha, Japão, Reino Unido, 2003
Direção: Jan de Bont
Roteiro: Dean Georgaris (baseado em uma história de Steven E. de Souza e James V. Hart)
Elenco: Angelina Jolie, Gerard Butler, Ciarán Hinds, Chris Barrie, Noah Taylor, Djimon Hounsou, Til Schweiger, Simon Yam, Terence Yin, Daniel Caltagirone, Fabiano Martell, Jonny Coyne, Robert Cavanah, Ronan Vibert, Lenny Juma
Direção: 117 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.