Crítica | Las Acacias

estrelas 4

Las Acacias é um filme de silêncios e olhares. O texto é mínimo, apenas o necessário. A estética da imagem e o modelo narrativo adotados pelo diretor também são simples, funcionando bem em toda a projeção, mas sem floreios ou busca por encenar uma realidade mais aconchegante, convidativa, simpática. Trata-se de um filme cru, de forte tendência realista, mas com uma concepção dramática universal tão bem executada pelo diretor e pelos atores, que consegue um alto patamar e faz de sua sessão um emocionante encontro.

A história pode ser narrada em poucas linhas: Jacinta está indo do Paraguai par a Argentina com sua bebê Anahí, e para isso toma carona com Rubén, um motorista de 30 anos de estrada e visivelmente marcado pela vida. Calado e de feição amargurada, Rubén não está alegre com a chegada de Jacinta e Anahí para a viagem, mas precisa levá-las porque foi uma função delegada pelo seu patrão. Assim, obrigado a quebrar a solidão da viagem, Rubén segue caminho, incomodado com o choro de Anahí e pelo fato de não poder fumar. A interferência em seu mundo veio com grande força e ele não parecia estar mais feliz do que estava no início. Mas aos poucos, alguma coisa parece surgir do meio de toda essa insatisfação.

Como dito anteriormente, o roteiro de Las Acacias é o mínimo textual possível. A quebra do silêncio é feita aos poucos, quase de maneira emergencial para as personagens, e mesmo quando a proximidade entre elas acontece, não há exatamente muito o que falar. Timidez, vergonha de eventos do passado, segredos, sofrimentos, enigmas, tudo o que Jacinta e Rubén dizem um para o outro guarda algo a mais por trás, um dado que impede tanto o interlocutor quanto o espetador compreender de fato o que aconteceu.

Nessa não-relação, apenas os olhares falam. As mudanças que acontecem de ambos os lados, principalmente do lado de Rubén, são feitas a partir da convivência e pela conquista do olhar, mas não a conquista intencional, o flerte premeditado. Falo da conquista que é o cativar, tornar a companhia tão agradável que aos poucos, coisas que não se percebiam passam a ser percebidas, tanto no outro quanto em si mesmo.

Para completar, temos a graciosa Anahí. A bebê tem um tratamento pensado para fofuchizar a sessão e cativar o espectador, mas isso é aceitável à medida que entendemos que esse uso não é a base do filme, apenas serve de uma ponte muito importante entre o carrancudo e silencioso Rubén e um envergonhado motorista que não sabe ao certo o que dizer para a mulher a quem acabou de se afeiçoar, após alguns dias de viagem e poucas palavras trocadas. Acredito que é nesse ponto que o filme ganha o seu maior exemplo de cativação. Não é necessário um discurso verborrágico ou demonstrações sofridas e sofríveis de amor para que se consiga um efeito satisfatório na tela.

O cinema pode tranquilamente fazer-se sem uma única fala ou palavra. Mas não se faria sem imagem. Pablo Giorgelli parece ter percebido isso, e fez de seu filme um bom exemplo de sequências com câmera no lugar certo, equilibrado destaque para as personagens em cena (aqui temos apenas três atores principais, considerando, pelo menos de maneira genérica, a bebê como atriz), e um bem pensado trabalho de montagem, a cargo de María Astrauskas. A economia de palavras e gestos deram lugar a uma sequência de outros detalhes, delicadas falas, eventos comuns que aos poucos fizeram do filme a raiz ou o ensaio de um possível relacionamento. Literalmente falando, um milagre surgido do nada.

Vencedor de inúmeros prêmios internacionais, tanto em festivais americanos quanto europeus (com destaque para o ACID, o Câmera de Ouro e o Jovens Críticos em Cannes), Las Acacias merece sim todo esse afã em torno dele. É verdade que o filme irá tocar mais ou menos cada espectador, dependendo de suas experiências e modo de enxergar a vida, mas há algo que não se pode negar, mesmo para os que não gostarem do filme: não é todo mundo que realiza um road movie com dois adultos e um bebê, tendo como plano de fundo um leve tom social e familiar, uma crua abordagem existencial ou de auto-análise, e principalmente, levando à risca o dissecar do microcosmo do indivíduo, expondo ele, o seu meio e as pessoas à sua volta a uma intensa experiência cujo resultado só pode ser uma grande mudança.

Las Acacias (Argentina, Espanha, 2011)
Direção: Pablo Giorgelli
Roteiro: Pablo Giorgelli, Salvador Roselli
Elenco: Germán de Silva, Hebe Duarte, Nayra Calle Mamani
Duração: 82min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.