Crítica | Last Days in Vietnam

estrelas 4

Last Days in Vietnam (“Últimos Dias no Vietnã”, em tradução livre direta) é um documentário no estilo tradicional, que intercala entrevistas com imagens de arquivo sobre o evento histórico do título, a evacuação desordenada dos Estados Unidos de Saigon, no então Vietnã do Sul. Mas a estrutura, digamos, comum do filme de maneira alguma retira seu valor ou o interesse pela forma com ele aborda um assunto que as pessoas, em geral, acham que conhecem, mas que, na verdade, pouco sabem.

O enfoque dado pelo documentário, dirigido por Rory Kennedy (Ethel e Ghosts of Abu Ghraib), é sereno e equilibrado, duas qualidades que não são normalmente aliadas daqueles fatídicos dias em abril de 1975, quando Hanói invadiu Saigon, sacramentando a dominação comunista no Vietnã. E, realmente, apesar do caos da situação retratada, o trabalho de Kennedy passa uma estranha calma, quase uma resignação pela humilhante derrocada diplomática americana na Ásia, depois de bilhões de dólares investidos e milhares de vidas perdidas em um infrutífero embate na região.

A calma já vem logo do começo do trabalho, quando Kennedy, no lugar de jogar o espectador já nos tais “últimos dias no Vietnã”, prefere, acertadamente, enquadrar historicamente a situação. Os EUA já haviam se retirado do país. O Tratado de Paris havia sido assinado em 1973, determinando, no final das contas, a paz no país dividido. Nixon estava por trás da complicada operação e havia prometido à Saigon que, caso Hanói descumprisse substancialmente o estabelecido no tratado de paz, os americanos voltariam.

E Nixon era visto como uma força desgovernada nos EUA e, portanto, de certa forma temido por Hanói que manteve-se razoavelmente quieta pelos dois anos seguinte. Mas, como todos sabemos, em 1974 Nixon sofreu impeachment em razão de Watergate (se nossos presidentes sofressem impeachment por questões tão “frugais” quanto a de Watergate, nunca teríamos um presidente chegando ao final do primeiro mandato!) e Hanói começou a ficar mais corajosa. Os comunistas não demoraram muito e começaram uma bem-sucedida invasão do Vietnã do Sul em direção a Saigon.

Enquanto isso, na Embaixada Americana, o embaixador americano, Graham Martin, se recusava a sequer pensar em algum tipo de plano maior de evacuação dos americanos do país e dos vietnamitas simpatizantes dos americanos, evidentes alvos da fúria vermelha vinda do norte. Com isso, a vida continuou substancialmente normalmente até literalmente o dia da chegada das tropas do norte em Saigon.

Esses últimos dias, então, são ricamente ilustrados por uma quantidade muito grande de trechos de filmes de ótima qualidade, que perfeitamente ilustram não só o estado de espírito da cidade como um todo, mas, também, dos funcionários e soldados da embaixada. A tensão era enorme e planos não oficiais para a evacuação começaram a ser feitos por soldados mais pró-ativos.

E é nesse ponto que o documentário começa a se diferenciar de apenas uma ótimo lição de história e a revelar seu verdadeiro e nobre propósito. Rory Kennedy passa a mostrar os esforços de ilustres desconhecidos da embaixada em retirar o maior número de pessoas – americanos e vietnamitas – do avanço do Vietnã do Norte. Os relatos passam a ficar muito pessoais, emotivos e impressionantemente engajantes, como se uma história secreta passasse a ser contada aos pés de nossos ouvidos. As entrevistas, sobejamente ilustradas por fotografias e filmagens da época em um trabalho de garimpo audiovisual completíssimo, ganham vida e o relato da incompetência diplomática americana, já conhecida por todos, ganham outro colorido.

Não se enganem aqueles que acham que Kennedy passa uma camada de verniz e releva os mandos e desmandos americanos no país. Não. A crítica está lá fortemente presente. As  tentativas de Gerald Ford, presidente americano depois de Nixon, em obter fundos perante o Congresso Americano são mostradas, assim como duros comentários de Henry Kissinger. Fica evidente que a situação era perdida desde o começo e que Saigon havia, com exceção da força naval estacionada no litoral do país, abandonada para todos os efeitos.

Mas a fita também desmistifica algumas das famosas imagens de balbúrdia e desespero na cidade. A geografia da situação fica muito bem delimitada e explicada, com mapas detalhados da gigantesca embaixada americana no local (do tamanho de um quarteirão e tinha até piscina!) e o que se passou ao longo dos dois dias de resgate improvisado com o uso de 75 helicópteros.

O documentário entrevista tanto os heróis da situação, homens que pilotaram as aeronaves por 18 horas seguidas, indo do navio para a embaixada e de volta dezenas e dezenas de vezes, outros que concatenaram planos para tirar as pessoas por navio e muito mais. E o detalhe mais impressionante é a genuína preocupação com os vietnamitas que poderiam ser alvo do avanço comunista. Deixá-los por lá, todos sabiam, significaria, provavelmente, suas mortes. Com isso, até mesmo o embaixador americano, relutante em aceita o conceito de evacuação, se recusou a colocar os pés em um helicóptero até que os vietnamitas fossem levados. Ele sabia que se ele e os americanos fossem, o resgate acabaria na mesma hora e seu ato heroico (ainda que muito atrasado) certamente salvou muitas vidas. Mas o roteiro de Mark Bailey, Keven McAlester também não se esquece de saudar heróis locais, vietnamitas que arriscaram tudo para salvar seus pares, como os comandantes de navios e a impressionante história do piloto de um helicóptero de duas hélices que quase morreu em um corajoso e bem-sucedido resgate.

E é assim, pouquinho em pouquinho, que vemos um relato íntimo e interessantíssimo de uma certa ordem no meio do caos. Um pouco de humanidade em meio ao mais completo abandono do país pelos Estados Unidos.

E aí passamos a entender a escolha de Kennedy em construir um documentário da forma tradicional, sem nenhum tipo de arroubo criativo que o diferenciasse em forma de outros do mesmo gênero. Fica claro que ela sabia da força de sua história, de suas imagens e que a apresentação talvez até burocrática de seu material era mesmo a melhor solução. E, realmente, não consigo imaginar Last Days in Vietnam de outra forma.

Last Days in Vietnam (Idem, EIA – 2014)
Direção: Rory Kennedy
Roteiro: Mark Bailey, Keven McAlester
Duração: 98 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.