Crítica | Last Horizon

estrelas 4

Quando a moda é ditada por e-sports, gráficos extremamente realistas, narrativas cheias de camadas e controles complexos com inúmeras opções, cabe aos jogos independentes, principalmente os feitos para aparelhos mobile, resgatar um pouco da simplicidade e diversão daqueles clássicos dos fliperamas e do Atari – até os consoles portáteis atuais não vendem o suficiente se não se conformarem com o novo público alvo. Last Horizon traz o que é hoje considerado um tipo raro de entretenimento, casual, acessível e com contornos sci-fi interessantes para um game do seu tamanho, principalmente quando games casuais desse tipo se resumem aos maçantes e padronizadores produtos de redes sociais ou aos famigerados “jogos estratégicos” de clãs online.

O jogo, em suma, te coloca no papel de um piloto, sobrevivente de uma civilização extinta, que parte com sua espaçonave do seu planeta natal em busca de novos planetas para serem terraformados. Controlando tal nave, o jogador deve equilibrar o combustível e seu oxigênio, viajando pelo espaço tentando pousar em cada planeta que reabastecerá sua cápsula. É nisso que Last Horizon inteiro consiste, basicamente.

O principal desafio é pilotar a pequenina nave e pousá-la sem quebrá-la. A jogabilidade espertamente utiliza a mecânica touch para conduzir o game, deixando no controle do jogador a habilidade de pousar sua nave sem danos e escolher em quais planetas pousar. No PC, mesmo sem a utilização dos dedos, a dificuldade continua alta. A gravidade de cada planeta varia, assim como sua superfície que, se for pontiaguda ou cheia d’água, prejudicará a nave. Meteoros e buracos negros também criam um maior desafio de um jogo essencialmente difícil, até mesmo para aqueles que já sacaram como funciona.

lasthorizon

A questão é que a dificuldade, que gera diversos game overs, é viciante. O minimalismo do game, que vai de uma trilha sonora típica de exploração profunda ao som da pequenina aeronave sendo destruída, também ajuda a passar uma sensação de satisfação quando se consegue pousar a nave da melhor forma possível. Essa busca pelo detalhe perfeito, em um game que lembra Space Invaders mas, principalmente, Asteroids, pelo próprio tema e pelos controles simples – não fáceis, porém – causa um vínculo imersivo nesse espaço bem construído, cheio de lugares desconhecidos para serem descobertos à moda antiga, em termos de jogabilidade – nada do que Mass Effect fez ou No Man’s Sky promete fazer. Daí a casualidade de Last Horizon, que peca, neste ponto, por possuir apenas quatro fases. Um jogo expandido, do tamanho de um Plants vs Zombies 2, certamente seria extremamente popular.

Outro problema que pode causar desconforto é a falta de tutorial. A PixelJam conta a história e joga o espectador já no controle da nave, utilizando uma curva de aprendizado baseada na tentativa e erro constante. O que é ótimo, convenhamos, mesmo porque o game está longe de ser complexo.

Apostando na física bem produzida e variada, no visual artístico de um espaço sideral pintado em diversos tons contrastantes, e na perícia do próprio jogador ao pilotar, Last Horizon consegue colocar em um pequeno produto, onde a própria obtenção dos produtos necessários à sobrevivência do jogador é feita de forma automática ao se pousar a nave, uma sensação de solidão no universo, desafiadora e nostálgica para qualquer gamer minimamente com paciência para jogos sem muita aspiração – o que também é raro atualmente. Com ótima atmosfera, o game atualiza um modo de jogo antigo, despretensioso e desafiador para uma geração touchscreen com poucas opções neste gênero.

Last Horizon
Desenvolvedor: Pixeljam
Lançamento: 18 de novembro de 2015
Gênero: Ação/Exploração/Survival
Disponível para: PC, iOS e Android

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.