Crítica | Lawrence da Arábia

estrelas 5,0

Por um momento desconsidere os fatos históricos retratados em Lawrence da Arábia: o embrião da Revolução Árabe, a derrota do Império Otomano, a unificação das tribos de beduínos, a 1ª Guerra Mundial. Esqueça também o caráter épico da fotografia de Freddie Young e da arrebatadora trilha de Maurice Jarre (ambos responsáveis pelo excelente Doutor Jivago) e a direção cirúrgica de David Lean, o Cecil B. DeMille dos anos 60. Foquemos no personagem – não na figura história – de T.E. Lawrence ou Al Lawrence, como é rebatizado por Sherif Ali e foquemos em Peter O’Toole, então com 30 anos e em seu primeiro papel de destaque.

Muito criticado inicialmente por ser “alto demais” ou por atuar de maneira afetada, aspectos que difeririam muito do verdadeiro Lawrence, O’Toole constrói um personagem absolutamente fascinante. Seu olhos profundamente azuis, seu cabelo pastoso loiro, seu físico magérrimo de pele muito branca tomam a tela de tal maneira que é literalmente impossível desviar o olhar ou não se interessar de primeira por aquela figura peculiar.

Trejeitos? Com certeza! Em determinados momentos, como na sequência em que desfila, vitorioso, em cima de um trem turco depois que seu batalhão árabe o explode, ele parece uma primadonna, destacando-se de tal maneira do que vemos ao redor que pode até parecer estranho ou completamente deslocado. Mas é justamente por essa postura corajosa, inédita – sim, artificial por vezes – que o Lawrence que vemos é tão magnético. Se ele não era assim na vida real, não poderia me preocupar menos. O Lawrence das telas é Peter O’Toole e sua evolução de desenhista de mapas do exército britânico a líder das tribos árabes, angariando respeito dos líderes de um lado e de outro é convincente e chocante.

Seu começo é pacato, idealista, usando de seu conhecimento profundo sobre “as arábias” para iniciar um inédito – e completamente desacreditado – projeto de arrebanhamento dos nômades beligerantes entre si em prol de um objetivo em comum, a derrota dos turcos que, por sua vez, beneficia a Coroa Britânica, O’Toole, ao longo das quase quatro horas de projeção faz seu personagem crescer e crescer até cair e cair. Vemos, vagarosamente, Lawrence construir amizades, concretizar planos, tornar-se um herói, converter-se em um assassino e um sádico em uma espiral de loucura causada pelos horrores da guerra que ele não esperava. Ver O’Toole, com poeira dos pés a cabeça, sentado em seu dromedário com olhar fixo no horizonte, pensando na morte de Daud, um rapaz nômade que o serve e, depois, no terço final, vê-lo liderar um sanguinário ataque a turcos em fuga que acabaram de massacrar uma vila é de cortar o coração, mas é um caminho perfeitamente crível e lógico, ainda que, de certa forma, o caráter puramente heroico de seus atos acabe se dissipando.

Dentro de um épico filmado em widescreen extremo com uma câmera Super Panavision 70 e que amealhou sete das 10 estatuetas do Oscar que concorreu, há uma história intimista de um soldado visionário que é profundamente afetado pelo que vê ao seu redor. Essa é a mágica de David Lean dirigindo O’Toole, mágica essa que ele repetiria com Omar Sharif em Doutor Jivago, ainda que Lawrence da Arábia tenha ainda mais ambições. Para Lean, os momentos de ação repletos de extras cavalgando cavalos e dromedários são tão importantes quanto os momentos de silêncio – total, sem nem mesmo trilha sonora – como quando Lawrence volta para resgatar um membro de seu batalhão que caiu da montaria no meio do mortal deserto de Nefud, a caminho de Aqaba (hoje na Jordânia, àquela época no Emirado da Transjordânia, não reconhecido oficialmente). Lean vai do macro ao micro em questão de minutos fazendo-nos participar de cada momento desses anos da vida de Lawrence.

Mas Lean não tinha “apenas” O’Toole com quem trabalhar. Omar Sharif, vivendo Sherif Ali, o beduíno da tribo Harita e primeiro verdadeiro amigo e admirador de Lawrence é igualmente impressionante em seu papel. Ele é o selvagem que Lawrence odeia, mas em quem acaba se transformando ao ponto de Sherif passar a temer Lawrence e o monstro em que se tornou. A transformação de Omar Sharif, seria possível dizer, é inversamente proporcional à de Peter O’Toole, cada um caminhando em direções opostas e nunca realmente se encontrando, mas sempre se respeitando.

Há, ainda, Anthony Quinn como o espalhafatoso Auda abu Tayi, líder da tribo Howeitat, inimiga da Harita. Quinn, mexicano de origem, é camaleônico em seu papel, ainda que a marca do “tipo de personagem” que sempre fez – forte, esbravejador, bárbaro – esteja lá bem presente. No espectro oposto, há Alec Guiness como o Príncipe Faisal, aliado dos britânicos e que se tornaria rei da Síria. Guiness o constrói de maneira reservada, discreta, mas extremamente astuta, exatamente como um político costuma ser. Confesso ter sentido estranheza com o ator britânico no papel do príncipe árabe, mas, no final das contas, ele acaba funcionando, talvez por sua presença ser pontual, aqui e ali.

Eu poderia voltar ao que propositalmente deixei de fora no início da crítica, o panorama geopolítico da época naquela região do mundo, mas meu trabalho aqui não é dar uma aula de história (e nem seria capaz disso). Lawrence da Arábia é conhecido por suas várias inexatidões tanto históricas como em relação aos personagens. Seria um erro fatal esperar um documentário de um filme de ficção e, mesmo que o viés imperialista dos britânicos esteja presente e Lawrence seja apresentado como um salvador, o espectador precisa olhar além desses aspectos e focar no que Peter O’Toole fez ali.

E não só Peter O’Toole, como o restante do elenco e, lógico, David Lean na direção, Freddie Young na fotografia e Maurice Jarre na retumbante trilha sonora. Lawrence da Arábia é um feito único, uma obra de escopo tão amplo quanto intimista que moverá o espectador que estiver disposto a seguir Al Lawrence pelas arábias.

Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, Reino Unido – 1962)
Direção: David Lean
Roteiro: Robert Bolt, Michael Wilson
Elenco: Peter O’Toole, Omar Sharif, Alec Guinness, Anthony Quinn, Jack Hawkins, José Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains, Arthur Kennedy, Donald Wolfit, I.S. Johar, Gamil Ratib
Duração: 222 min. (duração original) / 202 min. e 187 min. (cortes lançados no cinema posteriormente) / 216 min. (versão restaurada de 1989) / 227 min. (corte do diretor de 2001 – versão objeto da presente crítica)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.