Crítica | Leatherface (2017)

Em julho de 2017, a população de uma cidade na Suíça entrou em desespero ao ter que lidar com uma situação bem característica de um filme de terror: no centro comercial do local, um homem de quase dois metros feriu gravemente duas pessoas e deixou outras três levemente marcadas com o uso de uma motosserra. Inspiração no clássico polêmico de 1974? Nunca se sabe, mas o individuo de 51 anos, chamado Franz Whousis, morador de um bosque da região, visou o escritório de um plano de saúde, num ataque divulgado pela polícia como “contra a seguradora, nada pessoal”.

Alguns comentários nas redes sociais e nas matérias jornalísticas sobre o assunto traziam em suas respectivas chamadas uma espécie de referência indireta ao filme para impactar os leitores, afinal, qualquer crime cometido por alguém munido de uma motosserra traz em seu arcabouço uma remissão inevitável. No mesmo período, os produtores da Millenium Films lançaram trailers que e fotos que atualizavam o público sobre o imaginário de Leatherface, o psicopata ficcional que dizimou dezenas de pessoas com a sua sanha assassina.

Há tempos o prelúdio da franquia O Massacre da Serra Elétrica tinha sido anunciado. Um pôster oficial foi veiculado e os fãs ficaram todos atentos. O que viria por ai? Será que mais um filme irregular do psicopata que não consegue se encaixar em algo realmente interessante desde a refilmagem de 2003? O público fiel ao clã assassino poderá ficar dividido: há poucos bons momentos, o barulho da “serra” só se faz presente próximo ao final e muitos dados da cronologia são abruptamente desconectados, fazendo surgir e sumir personagens no contexto.

Como lidar? Depois do sucesso de O Massacre da Serra Elétrica 3D, os produtores decidiram investir em mais um filme da longa franquia. Baseado nas origens do psicopata Leatherface, o projeto tem como proposta elucidar algumas questões sobre como um dos principais ícones do cinema de horror surgiu. Além deste motivo “nobre” que tem como proposta deixar os fãs da série diante de mais um festival de mortes sangrentas, este prelúdio empreende uma narrativa oportunista para os produtores ganharam mais alguma grana.

Diante do exposto, a questão: Leatherface não já apareceu o bastante? O que mais um filme tem para adicionar? Cabe ressaltar que quase todas as sequências são descartáveis. A refilmagem e “o início” são compreensíveis e interessantes, mas o lançamento em 3D comprovou que a jornada deste antagonista já alcançou o limite há tempos. No entanto, como sabemos, há toda aquela conversa sobre indústria cultural, capitalismo, finanças, etc. Resumo: enquanto houver público, sequências continuarão em seu fluxo contínuo.

Com direção da dupla formada pelos cineastas franceses Alexandre Bustillo e Julien Maury, baseados no roteiro de Seth M. Sherwood, a trama situada nos anos 1970 nos apresenta ao jovem Jackson (Sam Strike), adolescente de postura violenta que foge do manicômio juntamente com Ike (James Bloor), Clarice (Jessica Madsen) e Bud (Sam Coleman). Juntos, eles levam a enfermeira Lizzy (Vanessa Grasse) como refém. No caminho, por sua vez, são interceptador por Hal Hartman (Stephen Dorff), um policial durão que pretende atrapalhar os seus planos de libertação.

A composição musical de John Frizelli acompanha os poucos momentos de histeria deste prelúdio “higiênico”: sem os excessos de alguns dos anteriores, o que encontramos em cena é de causar desconforto, mas nada que seja memorável. Há uma cabeça de gado que foi bem empregada para causa asco, além de alguma tensão entre um ponto e outro do roteiro, entretanto, como já apontado, nada que engendre os mecanismos da catarse.

Mais personagens são adicionados, muita conversa desnecessária empurra o filme até quando de fato percebemos que estamos diante de um filme sobre o massacre realizado por uma família de degenerados. Se há um culpado, coloquemos todo o peso na consciência do roteirista Seth M. Sherwood, responsável por nos enrolar durante quase 60 minutos. Até quase uma hora de filme parece que estamos diante de qualquer outra coisa que não seja a história de Leatherface, isto é, um enredo avulso com cenografia, figurino e direção de arte que nos remetem ao clássico de 1974, mas que não chega aos pés em nenhuma cena.

Com 90 minutos, as origens do psicopata não são dignas do seu legado. O filme traz alguns rompantes de violência, como já era de se esperar, mas nada que já não tenha sido contado antes. Bom para os fãs que adoram escutar a motosserra em funcionamento, no entanto, no que concerne aos sentidos que se espera de uma produção que vem na esteira de continuações irregulares e repetição constante de fórmulas saturadas, Leatherface é a síntese do que é de mais desnecessário no slasher contemporâneo.

A Lionsgate assumiu a distribuição e enquanto o filme não circula além dos festivais, os fãs brasileiros precisarão esperar para saber se haverá ou não lançamento oficial nos cinemas ou disponibilização em serviços de streaming e em DVD/BLURAY. Provavelmente Leatherface não seja o último filme da saga, pois a memória da franquia está mais viva do que nunca. O relançamento do primeiro filme com novo tratamento digital, juntamente com um documentário de bastidores está agendado ainda para 2017. É de se esperar que venha mais um filme por ai.

Leatherface (Leatherface) – Estados Unidos, 2017
Direção: Alexandre Bustillo, Julien Maury
Roteiro: Seth M. Sherwood
Elenco: Finn Jones, Stephen Dorff, Lili Taylor, Nicole Andrews, Sam Strike, Vanessa Grasse, Sam Coleman, Boris Kabakchiev, Jessica Madsen, James Bloor
Duração: 85 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.