Crítica | “Led Zeppelin I” – Led Zeppelin

estrelas 5,0

Eu não sei o que dizer deste álbum. Fico com medo de cair em velhos clichês e repetições fáceis – que em nada acrescentariam ao que já foi discutido sobre Led Zeppelin I desde o seu lançamento em 1969. Mas como se trata de um disco lendário (primeira escorregada: mais clichê que isso, impossível!) e de força absurda, acho que consigo desvencilhar-me de minhas tolas vaidades e expor a minha humilde opinião neste breve espaço que me foi concedido por ninguém mais, ninguém menos que eu mesmo. E não existe maneira mais adequada de começar a falar em Led Zeppelin do que analisando brevemente as características principais de seus quatro integrantes e/ou magos:

John Bonham, o famoso baterista, é um animal, no sentido quase literal da palavra. E digo o “quase” pelo simples fato de que o baterista só não é um animal cem por cento legítimo porque os códigos genéticos que o constituíam não permitiriam que ele assim o fosse. Relevando sua fisionomia humana e vendo-o/ouvindo-o em ação no Led, atestamos sem dificuldade para a absurda selvageria que transborda de seus poros e se canaliza em cada porrada que sua bateria leva. Em “Baby I’m Gonna Leave You”, faixa número dois de Led Zeppelin I, a transição do mood suave para o furioso é sentida especialmente quando Bonham entra em cena.

John Paul Jones toca um baixo virtuoso e cheio de peso, que compõe a sonoridade do grupo com perfeição. Além do mais, é o seu instrumento que, na maioria das vezes, dita a atmosfera soturna tão característica da banda, considerada uma das pioneiras do rock pesado. “Dazed and Confused” é um dos momentos de destaque de Jones no primeiro álbum.

Jimmy Page é uma força criativa e também um ótimo guitarrista que, com seus riffs e solos marcantes, continua sendo a maior referência para guitarristas em geral, como Slash e Jack White. O riff de “Communication Breakdown”, simples e direto, gruda na memória sem dó nem piedade, como todo grande hino do rock.

Robert Plant é o vocalista, o frontman, aquele para o qual geralmente a maioria das atenções se voltam. Em meio a três instrumentistas tão talentosos, um cantor que fosse “esforçado” ou apenas “bom” iria penar para alcançar o ritmo frenético de seus companheiros. Mas, felizmente, não é o caso de Plant, como todos sabemos. Assim como Page é a referência para quem se atreve a tocar guitarra, Robert Plant é uma espécie de Deus para quase todo cantor de rock ou heavy metal. Nos segundos finais de “You Shook Me”, o vocalista faz uma espécie de duelo divertido com a guitarra, imitando com precisão todas as notas que são emitidas pelo instrumento de Page. Imagino que a nossa brasileiríssima Gal Costa tenha ouvido isto antes de fazer o que fez em sua segunda gravação de “Meu Nome é Gal”, de 1979. Vai saber? O fato é que os dois, Plant e Gal, aparentam ter muito mais em comum do que possamos a princípio deduzir. Lembro-me bem que existia uma comunidade no falecido (?) Orkut chamada “O Robert Plant é uma diva”. E não é que é verdade? Quem concorda que atire a primeira pedra… em quem for discordar!

Além das já citadas pérolas, Led Zeppelin I possui outras canções igualmente fortes que merecem destaque: “Good Times, Bad Times”, a faixa que abre o disco, é um clássico. Todos os instrumentos convivem em perfeita harmonia nesta que é uma das maiores demonstrações da sintonia e do entrosamento do Led Zeppelin. E o que a torna ainda mais significativa é que, por ser a primeira faixa do primeiro álbum, ela serviu como uma espécie de apresentação do que estava por vir, não só no disco de 1969, mas também pelo resto da carreira dos Deuses do rock pesado. Trata-se de uma das melhores canções que o Led Zeppelin já gravou. É sempre um prazer ouvi-la.

Mas a qualidade imbatível deste álbum de estreia não para por aí. Existem ainda outras músicas reveladoras, de impacto semelhante: “Your Time Is Gonna Come” – e consequentemente sua sucessora instrumental “Black Mountain Side” – é a música que mais foge do som usual da banda. E é justamente o contraste que ela fornece que a torna mais interessante, um adendo brilhante e inesperado para o disco. Sua atmosfera diferenciada, com o coro e tudo o mais é, de certa forma, uma prévia do lado mais folk e intimista que o Led Zeppelin mostraria com toda a exuberância em seu belíssimo terceiro trabalho, de 1970. “I Can’t Quit You Baby” (composição de Willie Dixon) é um Blues old school que flui como um rio, o tipo de canção para se ouvir de olhos fechados e viajar. E por fim, “How Many More Times”: o perfeito exemplo de como o Zeppelin podia perder-se em meio a experimentações, devido a seus incontestáveis talentos como músicos. Por mais que o riff seja estimulante e a canção em si, repleta de energia, não encontro justificativa palpável para seus longos oito minutos. Mas… estão perdoados, afinal, habilidosos que eram, às vezes, os “Zeppelins” podiam se dar ao luxo de exagerar na dose ao se regozijarem com seus próprios talentos. Ninguém é perfeito, no fim das contas.

Era 1969 e o Led Zeppelin viria a produzir uma sequência de álbuns extraordinários pelos anos que se seguiram, até a morte de John Bonham em 1980. A banda teve uma carreira curta, mas gloriosa. Seus poucos registros gravados no final da década de 60 e pelo decorrer dos anos 70 (além dos incríveis shows), já foram suficientes para fazer deles grandes monstros do rock n’ roll. Juntamente com os The Beatles e os The Rolling Stones, formaram a trinca dos ingleses branquelos que absorveram com cuidado o que a música negra tinha para oferecer e potencializaram isso ao máximo, criando sucessos não só para as pessoas, mas para a eternidade. E Led Zeppelin I, que representa o primeiro passo dos integrantes mais “da pesada” dessa fabulosa trinca, já chegou mostrando a que veio. É tão bom que chega a dar raiva!

Led Zeppelin I
Artista: Led Zeppelin
País: Inglaterra
Lançamento: 12 de janeiro de 1969
Gravadora: Atlantic Records
Estilo: Rock, Hard Rock, Folk Rock, Blues

KARAM . . . Desde 1992, o ano em que foi apresentado ao mundo por duas admiráveis criaturas que logo se identificaram como "pais", Karam vem se aventurando pelos caminhos da Arte, da maneira que pode. Na música, Aretha Franklin é a sua pastora. Na Literatura, andou se entendendo muito bem com Clarice Lispector e Oscar Wilde. Embora faça faculdade de Cinema, não esconde que seu filme preferido – ao contrário do que muitos poderiam presumir – não é nenhum cult de Bergman ou Fellini, mas sim O Rei Leão; é!, aquele lá mesmo, da Disney. Um dia leu, em Leminski, que "isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além" e, assim, resolveu investir na ideia proposta pelo poeta para, quem sabe um dia, chegar ao além sem precisar passar pelo infinito – que é a pra não ter a infelicidade de esbarrar com o Buzz Lightyear no meio do caminho (fora, concorrência!).