Crítica | “Led Zeppelin II” – Led Zeppelin

estrelas 5,0

Whole Lotta Love é daquelas composições clássicas que viram marcos de um estilo musical. O riff de três notas de Jimmy Page e John Paul Jones abrem a obra soando ao fundo como feridas enquanto Plant diz cheio de energia e com todas as letras o que vai fazer. O recado está dado: ali começa um dos maiores álbuns de rock da história.

Lançado em 1969, poucos meses depois do disco de estreia, Led Zeppelin II elevou o quarteto britânico às paradas de sucesso. Variando luz e sombra ao melhor estilo que Page gostava de ditar no som da banda como produtor, o álbum traz constantes sons pesados do início ao fim e é considerado um dos fundadores do heavy metal. Mas tais rótulos normalmente retiram toda a sutileza e variação que o quarteto demonstra nesse álbum destruidor.

De início, Whole Lotta Love traz um dos riffs mais característicos da banda e o completa com um refrão que vem como um rasgo sem aviso prévio em uma progressão harmônica descendente memorável.  Bonham introduz a parte instrumental e o solo de Page com chimbal e bumbo apenas para terminar a música de abertura do álbum com a voz de Plant surtando. A letra lembra, sem dúvida alguma, You Need Love de Muddy Waters, em uma das várias acusações de plágio que banda sofreu durante tantos anos. Mesmo tendo relação com esse tradicional blues, Plant mostra um ímpeto destruidor e arranha a letra com uma força que só poderia ser completada pela guitarra de Page, o que dá ao Led uma inquestionável originalidade na criação da faixa.

Seguida pela mais calma – até certo ponto, convenhamos – What Is and What Should Never Be, que marca a primeira letra escrita por Plant, o disco traz uma linda linha de baixo de Jones e outro riff providencial de Page, mesmo que não tão explosivo quanto em Whole Lotta Love. Mais gentil, mas não menos poderosa. The Lemon Song, terceira do disco, é outra polêmica por suposto plágio de Killing Floor de Howlin Wolf, tanto que o nome do bluesman teve de ser acrescentado aos créditos da música. Independente disso, é um ótimo exemplo do blues tradicional reinventado pelos riffs crus de Page e pelos maneirismos de Plant, sendo uma das canções mais lembradas do Led Zeppelin até hoje e que mostra a sintonia de guitarrista e vocalista.

Como a faixa mais distinta do conjunto do álbum vem Thank You, e falo isso de nenhuma forma pejorativa. Ditada pelo incrível órgão de Jones, ouvimos um Plant emotivo e agradecido, por vezes sussurrando uma letra sentimental que toma contornos mais intensos com Bonham entrando pontualmente em partes da música. “An inspiration is what you are to me”, é uma amostra de um lado um pouco mais sentimental da banda, que ficou clara no primeiro álbum com Babe I’m Gonna Leave You. Aqui, porém, Plant cada vez mais mostrava o poder de suas composições.

Virando o disco, voltamos à mais um riff viciante de Page em um dos clássicos do Led Zeppelin, mantendo o fôlego do álbum e a energia lá no alto. Heartbreaker é outra brincadeira do guitarrista com escalas de blues, principalmente no seu solo desacompanhado de outros instrumentos. A verborragia de Plant combina com a história contada, tendo na guitarra um acompanhamento cheio de espaço para improvisações que dá forma ao conto de uma mulher que maltrata seus amantes. Living Loving Maid (She’s Just a Woman) já possui uma pegada um pouco mais pop com uma letra mais divertida e um refrão pegajoso cantado em conjunto. A bateria mais enérgica de Bonham e outro riff de Page são os destaques dessa que é a mais fraca música do álbum.

Led Zeppelin II pode até ser considerado o álbum mais pesado do grupo, mas aqui também vemos o que pode ser o início das faixas mais espirituais dos dois discos seguintes. Ramble On, com sua letra inspirada em Tolkien, traz uma constante leveza com uma suave batida de Bonham que fica ainda melhor com o violão utilizado por Page e o baixo simples e simpático de Jones. Tudo como base para um Plant desavergonhado praticamente narrar seus sentimentos até explodir em cada refrão com a mesma naturalidade. O que as outras músicas desse disco têm em guitarra, Ramble On sabe dosar com maestria. A entrada dos solos é o melhor exemplo, que crescem a música sem pressa e em conjunto com o ritmo da parte acústica.

Já todo o talento de John Bonham é trazido em Moby Dick, uma faixa instrumental que é, na verdade, um grande solo de bateria por quatro minutos. Mas não eram nesses quatro minutos que o Led Zeppelin mostrava a estrela que tinha nas baquetas: nos shows, Moby Dick durava de 20 a 30 minutos. O que terminaria em Bonzo’s Montreux em Coda, último álbum do grupo lançado após a morte de Bonham, tem seu início aqui com uma bateria já começando a pegar fogo.

O álbum termina tão ardente quanto começou. Bring It Home tem a pegada clássica do blues soturno completada com as doze notas do baixo de Jones e uma gaita melancólica, até que Page e Bonham surgem e Plant entoa uma letra tipicamente rockeira da banda. O fim da música e o fim do disco são como uma homenagem às influências do Mississipi que se mostraram tão fortes nesse segundo disco, em que o quarteto reinventa o blues sem medo de adicionar power chords e uma crueza melodiosa que fez o Led Zeppelin se destacar das outras bandas de rock da sua época.

Era ainda o começo de uma jornada que duraria praticamente uma década. Mas um início corajoso e ousado com dois álbuns marcantes só poderia resultar em uma das bandas mais importantes da história da música, que vai muito além das tentativas de estereótipos da mídia. Talvez, até prevendo o tamanho da banda, o próprio álbum trazia a imagem de quatro pedestais com os nomes dos integrantes em um templo grego. Sorte que os supostos deuses não estavam ali parados, provavelmente ocupados criando outros sons clássicos que viriam a ser lançados.

Bônus: Começamos e fechamos com Whole Lotta Love. Dessa vez, em uma versão um pouco inusitada:

Led Zeppelin II
Artista: Led Zeppelin
País: Reino Unido
Lançamento: 1969
Gravadora: Atlantic Records
Estilo: Rock, hard rock, folk rock, blues rock

ANTHONIO DELBON . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.