Crítica | “Led Zeppelin IV” – Led Zeppelin

estrelas 5,0

As gravações de Led Zeppelin IV aconteceram em vários estúdios do Reino Unido e dos Estados Unidos entre dezembro de 1970 e março de 1971. A banda, já com identidade formada e muitíssimo bem recebida pelo público (embora nem tanto pelos críticos), entrava neste quarto disco em uma viagem pelos sentimentos – os mais diversos –; pelo mundo espiritual e pelo mundo musical, uma jornada que, só pela teoria, pode confundir quem tem contato com o disco esperando algo que siga à risca o que se entende por “sentimentalismo” e “espiritualidade”.

Não dá para levar pelo óbvio.

Este lado místico/espiritual é ainda mais alimentado pelos símbolos escolhidos por cada um dos músicos para representar a campanha publicitária do álbum, uma vez que Jimmy Page foi firme ao definir que LZ-IV não teria título temático ou sequer o nome da banda na capa. Em entrevista concedida ao The Times, em 2010, o guitarrista comentou:

Não foi fácil. A gravadora insistia para pormos um nome nele. Nos foi dito que seria um suicídio profissional lançar mais um álbum sem nome. A realidade, era que tínhamos ouvido muitos comentários negativos sobre nossos álbuns; outro sem título me pareceu a melhor resposta para todos os críticos, pois sabíamos que os discos estavam sendo bem recebidos pelas vendas e plateias nos shows.

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Na ordem, os símbolos de Jimmy Page (associado à astrologia/ocultismo); John Paul Jones (a triquetra celta, representação do equilíbrio entre corpo, mente e espírito); John Bonham (trindade familiar ou uma bateria vista de cima) e Robert Plant (a pena da deusa egípcia Ma’at, que significa verdade, justiça e lealdade).

Led Zeppelin IV é um amálgama conceitual das ideias da banda até aquele momento. Temos aqui partes do estilo reflexivo e ousado de composição junto a uma musicalidade mista de blues e metal forte, visto em Led Zeppelin (1969); a extrema força conceitual e de execução próxima ao heavy metal em seus primórdios de Led Zeppelin II (também de 1969) e a tendência folk e acústica de Led Zeppelin III (1970), tudo em um lugar só, mesmo que os consideremos sob disfarce.

E tudo começa com Black Dog: Hey, hey, mama, said the way you move / Gonna make you sweat, gonna make you groove, dois versos seguidos de um riff que intoxica a qualquer um, de imediato. Há aqui uma perversão do blues e um “rock sujo” em execução, uma junção de narrativa lírica somada a um acompanhamento que ganha transições onomatopeicas bastante curiosas (o Queen faria esse tipo de transição em algumas canções, mas dentro de uma concepção por “blocos” diferentes). A canção é assinada por Page, Plant e Jones, que não fazem segredo quanto a concepção estrutural da faixa – a canção Oh Well, da banda britânica Fleetwood Mac –, mas também percebemos ecos melhor trabalhados da versão do The Who para a clássica Young Man Blues, de Mose Allison.

Fato curioso sobre Black Dog é como a canção ganhou o título, não pela história da letra, mas pela presença de um Labrador preto que perambulava os arredores do estúdio Headley Grange (Inglaterra) durante o início da gravação do disco. Mais curioso ainda é que um verso da canção, Eyes that shine burning red, combina tanto para a situação explodindo de desejo do eu-lírico quanto para as lendas britânicas da aparição noturna de um [fantasma] de um cachorro negro, a mesma lenda que inspirou Arthur Conan Doyle a escrever O Cão dos Baskervilles.

Rock and Roll, com sua letra nostálgica (em contraponto com a música, diga-se de passagem) e ritmo/musicalização em blues changes (12 compassos musicais em loop, aqui tratados inteligentemente como um rápido e pesado boogie-woogie) é uma das canções mais gostosas do disco, criada por um feliz acidente de percurso, enquanto a banda tentava dar Four Sticks por terminada. O acidente começou com uma brincadeira, com John Bonham tocando o início de Keep a Knockin, de Little Richard, e de pronto foi acompanhado pelos colegas. Em 15 minutos a banda tinha uma canção novinha em folha para o novo disco. Robert Plant ainda trouxe ingredientes de The Stroll, do The Diamonds e Book Of Love, do The Monotones para a letra, e a versão final contou com participação do pianista Ian Stewart, do Rolling Stones.

The Battle of Evermore é inteirinha uma referência ao universo de O Senhor dos Anéis, e foi gravada em um dueto de Plant com a cantora folk Sandy Denny, da banda Fairport Convention. Trata-se de uma canção um pouco atípica, mas não destoa da proposta geral do disco. A execução com bandolim e violão é bem feita e o resultado final muito bom. Não é uma obra-prima, claro. Na verdade, é a canção menos interessante do álbum inteiro, mas mesmo assim, é um ótimo produto, quase como um lado místico à la Uriah Heep que se escondia na alma do Led Zeppelin e aqui foi posto pra fora.
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Um pequeno debate sobre Stairway to Heaven
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Provavelmente você já ouviu falar da acusação de plágio movida contra o Led Zeppelin por Mark Andes e pela família de Randy California (banda Spirit), autor de Taurus, lançada em 1968 – dois anos antes de Stairway to Heaven. É óbvio que esta não é a primeira música do LZ a receber a acusação (há um montão de apontamentos a respeito, podemos falar sobre isso num texto futuro), mas este processo sobre Stairway to Heaven balançou a mídia e gerou inúmeros debates em meados de 2014 (43 anos depois do lançamento). Antes de continuarmos, vou deixar aqui as duas músicas para vocês ouvirem, tirarem suas conclusões e então seguimos com a conversa.
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Taurus (Spirit)

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Stairway to Heaven (Led Zeppelin)

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E aí, é plágio ou não é plágio?

É evidente que não estamos falando de um caso tão óbvio como o de Rod Stewart, que, mesmo que não tivesse admitido em sua autobiografia, ninguém iria contestar que Da Ya Think I’m Sexy foi sim um plágio de Taj Mahal, de Jorge Ben Jor. Já no caso da famosa oposição entre Taurus e Stairway, não há originalidade em nenhum dos dois casos – falarei disso mais adiante – e a segunda definitivamente não é um plágio da primeira, nem como concepção completa e nem na progressão melódica e arranjo harmônico dos primeiros 4 compassos (a cadência e o ritmo são os mesmos, mas as linhas musicais se resolvem de forma diferente). O primeiro grupo de acordes entre as duas canções são semelhantes sim, porque eles compartilham de uma progressão musical descendente em Lá menor (linha do baixo) e um mesmo ritmo (compasso 4/4). Todavia, a marcação é parte de uma introdução que não se centra unicamente nessa frase musical e que aos poucos cresce em um sentido épico, ganhando flauta, voz, piano, bateria e que ao final não se resolve na mesma escala, como era de se esperar.

Particularmente compartilho de algumas acusações que o Led Zeppelin recebe sobre plágio. Uma das grandes canções da banda, Dazed and Confused, que a despeito de tudo eu adoro, entra nesse caso. Mas na minha concepção o caso não se aplica a Stairway to Heaven porque a progressão supostamente plagiada é bastante comum. Você pode ver exatamente a mesma progressão em My Funny Valentine, de Rodgers and Hart, por exemplo, uma canção composta em 1937. Até Tom Jobim já trabalhou com essa progressão em How Insensitive, e olha que esses são os exemplos mais imediatos que eu tenho em mente. No caso da canções que digladiam, vemos que são frases musicais semelhantes em sua progressão e ritmo, mas isso não caracteriza Stairway to Heaven como um plágio porque estes 4 compassos são uma introdução que dissipa ao longo da música toda, que tem 8 minutos de duração, e o cerne da canção não depende disso, como foi o caso de Da Ya Think I’m Sexy em relação à música de Jorge Ben Jor ou My Sweet Lord, de George Harrison em relação a He’s So Fine, das garotas do The Chiffon. E só para finalizar com lenha na fogueira sobre esse negócio de plágio e essência musical, ouça Cry Me A River tocada por Davy Graham em um documentário da BBC datado de 1959 e faça as ligações que achar melhor.

  • Mas antes de finalizar esse bloco, o que você pensa a respeito? Stairway to Heaven é um plágio de Taurus? Deixe sua interpretação ou opinião nos comentários ao final do texto.

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À parte a polêmica, Stairway to Heaven é uma canção soberba. Após a introdução em um violão de seis cordas, temos a entrada das flautas em overdub com uma linha musical medieval (típica das melodias dos séculos XIV e XV) e de arpejo em arpejo chegamos à guitarra, ao baixo e à bateria numa sequência de blocos que não acaba, mas se constrói como uma corrente, ligando-se ao bloco seguinte em um crescendo que só encontra recuo no final do último minuto da canção. E além de tudo isso, a interpretação para a letra é para causar outra grande discussão. Tente falar sobre o que significa a música com um grupo de pessoas que a conhece e veja para onde a conversa vai. Isso só prova que, muito mais do que a instrumental Taurus (e não estou desmerecendo a música do Spirit, que é boa e eu acho muito bonita) Stairway to Heaven traz uma vitalidade e um poder que conquistam qualquer ouvinte e jamais deixa que ele se esqueça do que ouviu.
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Misty Mountain Hop  e  Four Sticks
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O fato dessas duas canções virem logo após a deslumbrante Stairway to Heaven pode ter um impacto negativo para alguns ouvintes. Particularmente, acredito que a organização do álbum deveria ser um pouco diferente por conta da “continuidade” musical, com When the Levee Breaks logo após Stairway, daí com Misty Mountain Hop seguida de Going to California e, finalizando o disco, Four Sticks. Percebe como o peso geral das canções mudam? Sintam-se à vontade para discordar, claro.

Misty Mountain Hop, com seu piano elétrico, sintetizadores e um jogo interessantíssimo entre guitarra e piano se mostra algo bastante especial. Existe um quê de exótico nela que não conseguimos expressar em totalidade, porque faz parte do exercício de ouvir o disco com atenção e entender sua ideia (a ligação com as Montanhas da Névoa, do universo de Tolkien é um os itens dessa ligação), mas infelizmente isso fica um pouco escondido porque se trata de uma canção, em tese, bem simples, e que vem em um momento pouco propício em termos de continuidade musical.

Esta possível estranheza de Misty Mountain Hop desaparece completamente com Four Sticks, uma canção que foi imaginada dentro de um panorama abstrato, que mistura elementos hindus na sua segunda parte e uma finalização pouco incomum para o padrão que temos no início. Sobre a questão dos elementos hindus, vale dizer que a banda chegou a gravar uma versão com a Orquestra Sinfônica de Bombaim, em 1972, com tambores e cítaras, mas essa versão nunca foi lançada oficialmente. Abaixo, deixo ambas as versões para vocês compararem.


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Going to California  e  When the Levee Breaks
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O disco termina com essas duas obras-primas que são Going to California e When the Levee Breaks. A primeira, uma balada no estilo folk rock com violão e bandolim, foi realizada mais ou menos na linha de The Battle of Evermore, só que aqui não temos um dueto e a canção é tocante em todos os sentidos. E a coisa fica ainda melhor com a faixa que encerra o álbum, a sublime When the Levee Breaks. A melodia é uma adaptação do blues de Kansas Joe McCoy e Memphis Minnie (devidamente creditados), gravado em 1929 e trabalhado em um arranjamento impecável e com bateria e guitarra que dão todo o tom conceitual do disco, voltando àquela sensação mística/sentimental de que falamos no início da crítica e que, com maior ou menor intensidade, paira sobre as canções durante o disco todo.

Com uma primeira parte finalizada com uma canção celestial e a segunda com um rock blues apocalíptico (lembrando que a canção foi composta com base nos eventos da grande cheia do rio Mississípi, ocorrida em 1927), Led Zeppelin IV é um álbum que retoma um pouco o espírito mais entusiasmado do primeiro álbum da banda e consegue, acima de tudo, fazer um som de alta qualidade com cara comercial, muito embora essa pretensão seja apenas o troféu final, pois não se trata de um álbum fácil e sim de um desafio, de uma viagem que começa com um desejo libidinoso mais ou menos reprimido, sobe até o céu com altas doses de críticas ao materialismo e termina com uma definitiva despedida da alma de quem ouve, dizendo para o corpo exatamente o que os últimos e desesperançosos versos de When the Levee Breaks dizem, em meio à inundação: Sorry, but I can’t take you / Going down, going down now, going down.

Aumenta!: Stairway to Heaven
Diminui!: The Battle of Evermore
Minha canção favorita do álbum: When the Levee Breaks

Led Zeppelin IV
Artista: Led Zeppelin
País: Reino Unido
Lançamento: 1971
Gravadora: Atlantic Records
Estilo: Rock, hard rock, folk rock, blues rock

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.