Crítica | Legends of Tomorrow 1X03: Blood Ties

legends of tomorrow blood ties

estrelas 2,5

Spoilers!

Das conquistas obtidas por Legends of Tomorrow até este terceiro episódio, a mais interessante foi a conceitualização da viagem no tempo e as possibilidades ou impossibilidades de alteração de linhas individuais através de ações, encontros e “empurrões” nas pessoas certas, por assim dizer. Depois do bom episódio Pilot, Part 2, o temor que havia se manifestado sobre termos um precoce esgotamento de narrativa já se revela aqui com a cara herança de The Flash e Arrow: a repetição.

Que uma coisa fique clara: séries que possuem o tema ‘viagem no tempo’ como foco principal adotam um modelo mais ou menos fixo de estabelecer o princípio de suas histórias e criam uma fórmula de continuação entre um ponto e outro dessas viagens. Exemplos de qualidade como Doctor Who, Quantum LeapContinuum, Sliders, Life on Mars, Primeval e Outlander são provas cabais de que é possível utilizar-se de uma espécie de cartilha para chegar a um know-how onde o conceito de viagem no tempo é integrado de forma lógica e orgânica dentro da proposta central do show. Daí também tiramos os lúcidos exemplos de trabalho com paradoxos temporais e formulação de duas frações de roteiro, a primeira, que se destina a criar uma história além das viagens, e a segunda, que se destina a ligar a primeira fração aos deslocamentos temporais. Mas é isso que temos em Legends of Tomorrow? Oh, não.

Prestem atenção na seguinte sequência:

  • Rememorar o futuro onde Rip tem a família morta;
  • Rememorar o caráter de outsiders das Lendas;
  • Rememorar ligações das Lendas com The Flash e Arrow;
  • Adicionar uma luta inútil contra Savage — que aqui, ainda bem, teve uma nuance fora da caixa;
  • Adicionar um quesito de rebeldia por parte de Frio e Onda Térmica;
  • Adicionar um embate de egos ou de emoções que pode ser entre Stein e Jax ou Stein e Ray;
  • Adicionar quesitos emotivos que se perdem no objetivo central do episódio.

E agora vem o impasse: LoT está criando uma “cartilha” para dar andamento à sua história (bom, a história é essa: caçar e matar Savage, que não pode ser morto), ou já está se repetindo? Por ser um grande fã de ficção científica e por ter verdadeira paixão por obras que trabalham viagem no tempo, eu estou no time de pessoas que gostariam de responder a opção “a” para esta pergunta, mas nem se eu fosse um fanboy com um xaxim (ou seria chachim?) no lugar do cérebro eu conseguiria fazer isso. Criar um meio narrativo próprio é estabelecer uma linha segura de contar histórias, mas sempre avançando e trazendo novidades que realmente fazem o programa crescer. O problema que já observamos em LoT e aqui em Blood Ties é que, apesar dos bons momentos do episódio o incômodo da repetição da fórmula supera e estrada o lado positivo.

Mais confortáveis em seus papéis e com uma dinâmica interna muito mais palatável que aquela vista nos dois pilotos, o elenco principal recebeu aqui uma separação de papeis divertida e parcialmente bem editada. A montagem procurou equilibrar a duração das ações separadas com a dos encontros do grupo inteiro, alternando também fases de pura ação e suspense (Rip e Canário Branco em divertido e ótimo destaque) mas que não escapou de desnecessárias reafirmações sentimentais para Ray — se esta é a concepção dos showrunners para “desenvolver o lado psicológico de um personagem“, então estamos perdidos; estranha forma de encostar a Mulher Gavião, embora em comparação à linha de Jay (copiando se inspirando Viagem Fantástica + Homem-Formiga), seu desenvolvimento foi até aceitável; e desfazendo a premissa inicial para uma variação obviamente mais lógica, mas que foi introduzida exatamente igual aos outros problemas e ações do grupo até agora, terminando com a nave partindo para mais uma aventura. Um objetivo diferente escrito com a mesma tinta, sob o mesmo papel. Desta vez, temos a “viagem da semana”.

Ao menos tivemos algo realmente notável: a exploração dos contatos em um momento da vida de Savage em um ponto de sua história — e não, não estou falando do Egito Antigo, que continua sendo uma peça de isopor na saga, pelo menos depois de mostrada a origem das desavenças entre ele e o casal gavião. O destaque é para a sequência no Hotel, com uma bem-vinda citação a De Olhos Bem Fechados, excelente fotografia vermelha (e é raro monocromatismo parecer interessante na tela ou mesmo ser uma boa escolha de ambientação, o que torna o trabalho do fotógrafo Mahlon Todd Williams ainda melhor), boas cenas de luta e, enfim, uma participação admirável do ator Casper Crump (Savage), que no último embate com Rip mostra o quão pode ser amedrontador e odioso. É válido notar que a linha de investigação feita por Rip e Canário Branco também foi interessante, desde a cena em que conversam pela primeira vez — se descontarmos o lado de lamentações do roteiro –, passando pelas cenas no banco e terminando no Hotel.

A viagem para 1986 e o objetivo de “atrasar” Savage talvez passe a funcionar melhor como nova proposta do grupo e criar ações cujos resultados podem ser melhor sentidos ao longo do tempo. E talvez na sequência tenhamos um melhor contexto para o “empurrão” de Frio que não deu em nada, porque aquela “explicação” de que “a linha do tempo se escreve aos poucos” já não serve mais, em vista das mudanças já realizadas e em vista da própria intenção das Lendas em mudar a história. Ou será que a CW evoluiu tanto que está quebrando a quarta parede com a ironia do meta-paradoxo? SQN.

Legends of Tomorrow 1X03: Blood Ties (EUA, 2016)
Direção: Dermott Downs
Roteiro: Marc Guggenheim, Chris Fedak
Elenco: Victor Garber, Brandon Routh, Arthur Darvill, Caity Lotz, Franz Drameh, Franz Drameh, Ciara Renée, Amy Pemberton, Dominic Purcell, Wentworth Miller, Casper Crump
Duração: 42 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.