Crítica | Legends of Tomorrow 1X09: Left Behind

estrelas 3

Obs: Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de Legends of Tomorrow, aqui.

O espectador que esperava um retorno passivo de Legends of Tomorrow teve uma surpresa e tanto ao ver plot twists a dar com o rodo em Left Behind, um bom episódio, por sinal, que dentre outras coisas nos trouxe um romance com o qual não nos importamos nem um pouco (sem contar que Ray e Kendra funcionam mais como colegas de quarto do que como par romântico), um estranho — mais aceitável, porque provável — plano de vingança e saltos temporais mais ou menos à margem daqueles a que já estávamos acostumados. Vê-se claramente que as roteiristas Beth Schwartz e Grainne Godfree e o editor de roteiros Ray Utarnachitt se esforçaram para colocar a série em um patamar mais divertido e inteligente, uma dupla de qualidades que parecem ter sido mantida separado de propósito na maior parte temporada.

Como estamos diante de um episódio pós-hiato dentro da temporada, era de se esperar que houvesse muitas surpresas e novas possibilidades para o programa avançar até o final. Assim, pudemos presenciar a primeira aparição de Talia Al Ghul, famosa filha de Ra’s, no Arrowverse; pudemos ver duas histórias de “treinamento para matar” acontecerem em escopos narrativos distintos e se encontrarem em configurações morais igualmente distintas (um dos mais inteligentes pontos do episódio, que enfim deu sentido a quem é o inútil agora? Mick Rory) e por fim, pudemos ver um capítulo que se afasta do propósito-base da série — o que já o caracterizaria como filler — mas que não faz desse desvio uma perda de tempo, dando valor aos personagens, sentido à missão e jamais deixando que as pontas soltas em Night of the Hawk e fossem esquecidas.

O leitor certamente pode apontar inúmeras semelhanças textuais entre Left Behind e outros episódios da série até agora, como o arco formado por White Knights e Fail-Safe ou mesmo com o “polêmico” Star City 2046. Nos três casos, a perspectiva de mudança temporal não esteve apenas como teoria, mas como ação prática na linha do tempo dos personagens ou da própria Terra, gerando aventuras que iam da hipótese de um futuro fascista e militarizado até a realidade de um futuro fascista e militarizado, com doses cavalares de anarquia, se é que isso faz algum sentido (bem, em Star City 2046 faz). A diferença desses roteiros para Left Behind é que aqui a trama é fluída e, ao mesmo tempo que pesca deixas do passado e as transforma em um evento quase épico no presente, joga seus resultados imediatos para o futuro, o que torna o semi-filler aceitável e divertido. Isso não tem sido um elemento comum nem para capítulos temáticos e nem no todo da série, haja visto que os únicos momentos em que tivemos o mesmo tratamento de forma mais fechada foi em Pilot, Part 1 e White Knights. Mas Left Behind faz isso de forma melhor.

Um pouco da expressão estética mais atenciosa foi deixada de lado durante toda a primeira parte do drama para que nossa atenção se voltasse apenas para a desesperança dos que foram deixados para trás. O texto tem a óbvia intenção de torar isso um choque dramático no futuro. Todos vamos concordar que este recurso é preguiçoso e chavão em todos os seus aspectos, mas sempre funciona (ou… pelo menos parcialmente) e convenhamos caiu bem no jogo de dualidade moral/ideológica que aparece aqui na reta final, quando o apuro estético volta a nos chamar a atenção (as cenas em Nanda Parbat são maravilhosas da trilha sonora e direção de arte à fotografia), assim como quase tudo do roteiro. O paradoxo de Sara na Liga dos Assassinos, a presença de Ra’s Al Ghul, o fato de Mick ser [um] Chronos… tudo isso acende no espectador a pequena luz de alegria que é ver ficção científica de verdade em uma série de ficção científica! Tratando-se de CW, tudo é possível, inclusive coerências desse tipo, não é mesmo?

Cenas de luta bem coreografadas, apesar de breves e bizarrices que pelo bem ou pelo mal combinaram com o episódio (a regeneração da mão de Snart é um exemplo) apareceram aqui como detalhes curiosos, principalmente do meio para o final, que é quando as coisas começam a ficar realmente interessantes e a direção de John F. Showalter melhora de verdade. As Lendas seguem agora para o Conglomerado de Kasnia, em 2147. A escolha é repentina, um tanto incoerente com o que vínhamos tendo até aqui, mas Rip dá uma explicação do tipo “simplesmente aceitem” e partiremos dessa aceitação forçada para o próximo episódio. A grande questão é: Mick juntar-se-á novamente ao time ou o seu treinamento pelos Time Masters vai falar mais algo em sua mente, para sempre?

Legends of Tomorrow 1X09: Left Behind (EUA, 2016)
Direção: John F. Showalter
Roteiro: Beth Schwartz, Grainne Godfree, Ray Utarnachitt
Elenco: Victor Garber, Brandon Routh, Arthur Darvill, Caity Lotz, Franz Drameh, Ciara Renée, Amy Pemberton, Dominic Purcell, Wentworth Miller, Matt Nable, Devin MacKenzie, Robert Hewko
Duração: 42 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.