Crítica | Legião, de William Peter Blatty

Lido em via pública, Legião causa algum desconforto em algumas pessoas domesticadas pelo imaginário do diabo, presente na sociedade há eras. Enquanto avançava na leitura da investigação de um detetive em busca de resolução para os crimes em sua cidade, todos com requintes satanistas, me fora possível perceber que era observado por um grupo nada razoável de pessoas. Também, pudera: metrô das seis, muito fluxo, uma capa vermelha em contraste com azul, repleta de cruzes invertidas e uma imagem central delineada com base no imaginário coletivo sobre satanás.

Uma mulher fez o sinal da cruz, a outra soltou um “tá repreendido em nome de Jesus”, outras duas garotas davam risinhos nervosos, confirmando que “jamais leriam nada daquilo”, dentre outras manifestações de medo e asco em relação ao demoníaco, lido, em meu ponto de vista, numa perspectiva da curiosidade. Lançado pela Darkside Books, a publicação é parte de uma série de livros que estão deixando o público brasileiro que acompanha o gênero terror, subsidiado e satisfeito, haja vista a falta de abastecimento há alguns anos.

Legião ganhou as prateleiras das livrarias em 2017, publicado no passado como O Espírito do Mal, uma versão pouco conhecida do material escrito por William Peter Blatty, o mesmo do assustador e inesquecível O Exorcista. Com tradução eficiente de Eduardo Alves, o livro nos faz mergulhar no mundo do tenente William Kinderman, um homem de temperamento complexo, envolto em suas elucubrações metafísicas, filosóficas e sociais.

A missão do personagem, desacreditado por muitos que desconfiam da sua inabilidade em continuar na polícia, é encontrar o responsável pelos assassinatos que carregam a assinatura de um serial killer que já foi dado como morto.  O primeiro assassinato faria as meninas e senhoras que repreendiam a minha leitura no metrô desabar de medo e pavor: um menino de 12 anos é encontrado mutilado e crucificado com pás de remos numa região remota da cidade. Logo mais, outra morte, igualmente violenta, desta vez, de um padre brutalmente dizimado num confessionário.

A marca do assassino é semelhante ao assassino Geminiano, numa relação com a história do Zodíaco, série de crimes que nunca foi resolvida na história relativamente recente dos Estados Unidos. Em certo momento, Kinderman diz que “em seus 43 anos na força policial, jamais tinha visto de tudo”, perguntando-se “se tinha visto de tudo?”. Ao passo que o livro avança, percebemos que não.

Algumas suspeitas levam ao Dr. Amfortas e ao psiquiatra Freeman Temple, dedução que o levará ao submundo da possessão demoníaca e das práticas grotescas e nada sublimes dos “adoradores do tinhoso”. Conspiratório tal como a excelente primeira temporada da série The Exorcist, o livro que dá continuidade ao clássico da menina Regan não traz o exorcismo como exclusividade. O foco é a investigação policial e a presença do demoníaco no cotidiano de uma cidade tomada pela violência, além do medo e do pânico social.

Detetivesco com ares filosóficos, Legião não teve o mesmo prestígio do livro anterior. Há um breve paralelo com o Padre Karras, mas o intuito da sequência é se aprofundar na “mitologia” de Kinderman. O paralelo com O Exorcista é conveniente e bem conduzido, mas a sequência não impactou a ponto de se tornar parte da lista dos maiores sucessos no The New York Times, por 17 semanas, além da tradução para 12 línguas e a venda de 13 milhões de unidade. Dados assim não denotam qualidade, pois sabemos que muita porcaria é vendida à exaustão, enquanto bons livros amargam uma tímida passagem pelas livrarias.

Legião (Estados Unidos, 1983)
Autor: William Peter Blatty
Editora no Brasil: Darkside Books
Tradução: Eduardo Alves
Páginas: 304

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.