Crítica | Legion – 1X01: Chapter 1

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estrelas 4,5

Se as séries baseadas em super-heróis do Netflix elevaram o padrão pelo qual séries de TV deste gênero devem ser medidas, a julgar pelo episódio piloto, Legion tem potencial para mais uma vez “subir o sarrafo”. E não é surpresa, considerando que quem está no comando do espetáculo é ninguém menos do que Noah Hawley, o showrunner responsável pela excepcional adaptação televisiva de Fargo, clássico filme dos Irmãos Coen.

Mas deixe-me primeiro colocar nos trilhos eventuais expectativas exageradas dos fãs de quadrinhos: ainda que a série seja baseada em anti-herói nascido dentro do universo mutante da Marvel (mais especificamente em Os Novos Mutantes #25, de 1985), o que Hawley entrega neste primeiro episódio, que estabelece a tônica para a série, é completamente desconectado dos filmes, ainda que se passe no mesmo universo. E isso é muito bom, pois permite que a série seja tratada de forma adulta, séria e sem se preocupar com as malfadadas “referências de costura” que muitas vezes atravancam o andamento de algumas séries. Hawley é, antes de tudo, um autor muito particular que faz a série para o o público em geral e não somente para os fãs e isso transparece em cada sequência do episódio inaugural de Legion.

A história gira em torno de David Haller (Dan Stevens), um paciente diagnosticado com esquizofrenia paranóica que potencialmente tem poderes mutantes. Convivendo com Lenny “Cornflakes” Busker (Aubrey Plaza), aparentemente sua única amiga, o jovem não demora e conhece outra paciente,  Sydney “Syd” Barrett (Rachel Keller), que não gosta de ser tocada, e os dois desenvolvem um relacionamento.

Claro que há muito mais do que apenas o que deixei transparecer acima, mas manterei a presente crítica sem spoilers, pois eles não são realmente necessários. A grande jogada de Hawley é nos fazer mergulhar no labirinto da mente de Haller e é a partir de seu ponto-de-vista que a narrativa se desenrola. Com isso, logo descobrimos que Haller, na verdade, é um “narrador não confiável” e este artifício literário, também comumente usado em filmes, nos faz duvidar de cada sequência, de cada acontecimento.

E Hawley, sempre um mestre na criação de atmosfera com o uso brilhante do design de produção, iluminação, montagem e trilha sonora, amplifica essa sensação de estarmos o tempo todo pisando em areia movediça, sem nunca saber onde é seguro e onde afundaremos. A noção de realidade e fantasia se funde e creio que nem uma análise quadro-a-quadro elucidaria o mistério que marca o primeiro episódio. Por exemplo, determinadas sequências parecem se passar em um hospital psiquiátrico, mas ele lembra muito mais um spa dos anos 70 do que um sanatório. Figurinos quase de época, mas com um quê atemporal, cores fortes e contrastantes e espaços abertos meticulosamente populados nos mantém em constante dúvida sobre o que exatamente está acontecendo. Em outras sequências, parece que estamos no presente, mas com tecnologia conflitante – reparem o tecnológico tablet do Interrogador (Hamish Linklater) e a anacrônica e gigante máquina de eletroencefalograma que é levada até a sala – que têm como objetivo manter-nos com a proverbial “pulga atrás da orelha”.

Além disso, o showrunner trabalha com cuidado para substituir elegantemente efeitos especiais por visuais arrebatadores e bem pensados, além de “truques” como tomadas em câmera lenta para representar os possíveis poderes de Haller. Com isso, em momento algum sentimos falta de efeitos caros e pirotecnia. Eles estão lá, mas quase que cirurgicamente inseridos de forma a não tirar nossa atenção do que realmente é importante: a viagem pela mente perturbada de Haller. Um exemplo claro do uso de truques de câmera no lugar de efeitos digitais está na montagem de abertura ao som de “Happy Jack” do The Who, que mostra a evolução de Haller de bebê a adulto e em algumas “fusões” fotográficas que nos dão pistas do que está acontecendo, sem, porém, apelar para o didatismo.

Aliás, falando em didatismo, esqueçam explicações. Ok, elas existem, mas estão resumidas em uma única frase que estabelece a natureza de Haller, e só. O episódio todo poderia ser uma viagem lisérgica, um sonho ou um delírio com visuais arrebatadores e quase nada de progressão narrativa. Sim, quase nada. Se espremermos os acontecimentos, a conclusão é que Haller vai do ponto A ao ponto B e não muito mais do que isso. No entanto, é impressionante como Hawley é bem-sucedido ao estabelecer seu universo muito próprio. Podemos não ter ideia quem é amigo, quem é inimigo ou mesmo quem exatamente são Haller, Syd (e sim, esse nome foi inspirado em Roger “Syd” Barrett, do Pink Floyd, o que faz completo sentido na série), Cornflakes e os demais personagens, mas, quando os créditos sobem, estamos completamente investidos no que vimos e intrigados pelo que está por vir, algo que poucos episódios piloto geram de verdade nos espectadores.

Mas Legion não seria o que é sem a atuação de Dan Stevens. Conhecido por seu Matthew Crawley, de Downton Abbey, e muito em breve pela Fera, da versão live-action de A Bela e a Fera, aqui o vemos não como um galã, mas como alguém que claramente tem dificuldades para diferenciar a realidade da ficção. Nós somos apresentados a Haller de duas formas diferentes – no hospital psiquiátrico setentista(?) e na sala de interrogação atual(?) – e Stevens realmente parece duas pessoas diferentes, mostrando desde o início ter uma excelente latitude dramática que servirá bem ao personagem. Aubrey Plaza (a Julie Powers de Scott Pilgrim Contra o Mundo) e Rachel Keller (a Simone Gerhardt da 2ª temporada de Fargo) também têm seu espaço para brilhar e elas não perdem tempo para estabelecer personagens realmente fascinantes, mesmo que por grande parte do episódio fiquem compreensivelmente à sombra de Stevens e seu Haller.

Mais uma vez encantando o espectador com sua pegada muito própria e característica, Noah Hawley faz uma “série de super-heróis” que não subestima seu público. Ao contrário, Chapter 1 é um desafio, mas um delicioso e belíssimo desafio que não tem o menor pudor em exigir mais de seu público. Querem heróis fantasiados e referências aos borbotões, então passem longe de Legion. Querem algo realmente bom, talvez um novo padrão para séries do gênero? Então bem-vindos à (in)sanidade de David Haller!

Legion – 1X01: Chapter 1 (EUA – 08 de fevereiro de 2017)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: Noah Hawley
Roteiro: Noah Hawley
Elenco: Dan Stevens, Rachel Keller, Aubrey Plaza, Bill Irwin, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Katie Aselton, Jean Smart, Hamish Linklater
Duração: 60 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.