Crítica | Legion – 1X02: Chapter 2

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estrelas 4,5

Obs: Há spoilers. Leia, aqui, a crítica do episódio anterior.

Depois de um espetacular episódio inaugural, a expectativa era alta para ver como Noah Hawley conseguiria manter o nível de sua série e ao mesmo tempo começar a verdadeiramente a atrair seu público, duas missões em princípio antagônicas e normalmente inconciliáveis, já que é justamente em sua diferenciação para as demais séries baseadas em quadrinhos, especialmente os de super-heróis, que seu trabalho ganha todo o destaque. E é muito interessante ver que Hawley e a FX não parecem efetivamente preocupados em atingir a demografia padrão, o que por si só é um alívio.

Com isso, o segundo capítulo começa substancialmente onde o primeiro acabou, com David Haller sendo levado pela Sra. Bird, Syd, Ptonomy e Kerry para Summerland, uma espécie de escola de mutantes escondida da perseguição da Divisão Três. Lá, mais do que convenientemente, descobrimos que Ptonomy tem o poder de manipular memórias e, junto com Melanie Bird, o usa para que David revisite sua vida, aos poucos aprendendo que sua esquizofrenia nada mais é do que uma forma de seus vastos poderes se manifestarem.

Mas nada é tão linear como minha descrição deixa entrever. Assim como no episódio piloto, Hawley escreve um roteiro de forma a nos manter desorientados o máximo possível, algo que ele consegue com uma progressão de sequências não lineares que poderiam muito bem ser unicamente passadas em “seções” diferentes da memória de David. Claro que, com apenas oito episódios na primeira temporada, o showrunner não pode se dar ao luxo de nos manter completamente no escuro e informações ainda desencontradas, mas que começam a montar o quebra-cabeças, nos são passadas a cada novo mergulho no passado, com uma sensível diminuição de ritmo para que isso seja possível.

Descobrimos que David e sua irmã Amy moravam no campo e que seu pai – que permanece misteriosamente sem rosto – era astrônomo, mas não temos ideia do que aconteceu com ele ou mesmo com sua mãe. E, claro, não é possível ainda determinar se aquela figura que vemos lendo o livro The World’s Angriest Boy in the World é realmente o pai dele, considerando o que os leitores de quadrinhos sabem sobre a mitologia do Legião e que não mencionarei aqui para não estragar eventuais surpresas de quem não os leu. Além disso, revisitamos a sequência da “explosão” na cozinha do primeiro capítulo, que acontece logo depois de David brigar com sua namorada cujo destino, aliás, também não conhecemos, ainda que eu desconfie que seja trágico (aquele berro feminino bruscamente cortado logo antes de tudo começar a se espatifar não pode ser bom sinal). Finalmente, aprendemos que a agora finada Lenny não era sua amiga de hospital psiquiátrico apenas, mas sim de algum tempo antes, com os dois vendendo o que podiam para conseguir drogas, mais especificamente uma que David menciona como “o vapor”.

Novamente temos demonstrações da vastidão do poder de David, duas vezes com ele resistindo à manipulação de Ptonomy e, mais ao final, quando ele “limpa” a sala de ressonância magnética, materializando o aparelho no jardim de Summerland. O catalisador desse grande momento é a captura de sua irmã pelo sinistro O Olho que parece ter planos que envolvem nojentas lesmas para a pobre Amy. Será que uma nova missão de resgate será montada ou Hawley arrumará outra solução criativa para a questão? Essa solução, aliás, poderia vir casada com o desenvolvimento da misteriosa e breve menção de Ptonomy a David de que ele seria a chave para “ganhar a guerra”, algo que pode referir-se a mais do que apenas ao conflito com a Divisão Três, possivelmente englobando um conflito entre humanos e mutantes.

Mais uma vez, o desenho de produção é o destaque absoluto e nos mantém em um brilhante anacronismo que acaba ganhando personalidade própria. Enquanto alguns objetos e figurinos parecem decididamente modernos, outros vários nos jogam para o passado. O melhor exemplo disso é justamente a sala de ressonância magnética, com o moderno aparelho de um lado e, do outro, velhos computadores para controlá-lo. Mas outros vários detalhes nos mantém “em uma outra época, em um outro lugar”, como a motocicleta azul dos anos 60 que passa ao fundo da sequência em que Lenny e David levam o fogão para vender e toda a decoração interior de apartamentos e da sala de consulta do psiquiatra que, vale lembrar, faz uso de um enorme gravador com rolos de fita.

Todo esse cuidado com os cenários e figurinos, além de uma narrativa fragmentada repleta de detalhes do tipo “piscou perdeu” e quase nada de ação, parece exibicionismo esnobe e pode afastar muita gente, mas é justamente na minúcia e na tentativa de ser diferente que a visão de Noah Hawley vai se materializando. Definitivamente não estamos diante de uma série de super-heróis comum. Raios, não dá nem mesmo para classificá-la dentro desse gênero ainda! O showrunner quer deixar sua marca e está conseguindo, mesmo assumindo o risco de alienar alguns espectadores mais afoitos para ver superpoderes, frases de efeito, ação linear e roupas coloridas.

Sei que é cedo para afirmar, mas Legion não parece ser uma série que andará pelo caminho do “feijão-com-arroz” e, assim como Preacher, tem potencial para abrir novos caminhos para adaptação de HQs se o público der uma chance ao diferente, ao inusitado e ao realmente sensacional. Afinal, quem não arrisca não petisca, não é mesmo?

Legion – 1X02: Chapter 2 (EUA – 15 de fevereiro de 2017)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: Michael Uppendahl
Roteiro: Noah Hawley
Elenco: Dan Stevens, Rachel Keller, Aubrey Plaza, Bill Irwin, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Katie Aselton, Jean Smart, Hamish Linklater, Mackenzie Gray
Duração: 49 min.

RITTER FAN. . . .Sou um carioca rabugento que não faz questão nem de sol (muito quente) nem de praia (tem areia e água salgada). Prefiro o escurinho do cinema onde, sozinho ou acompanhado da família ou de amigos, me divirto - ou não, depende - por horas a fio.