Crítica | Legion – 1X03: Chapter 3

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estrelas 4

Obs: Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Noah Hawley começou aloprando em Legion, encabeçando a direção e roteiro do primeiro episódio. Já no segundo, ele passou a direção para Michael Uppendahl, responsável por diversos episódios de séries do mais alto gabarito como Ray Donovan, Mad Men, American Horror Story e Fargo e que volta a dirigir o terceiro episódio. Mas, agora, Hawley também sai do roteiro, que foi entregue a Peter Calloway, com consideravelmente menos experiência televisiva do que seus pares.

Com isso, vê-se muito claramente não exatamente uma queda de qualidade, mas sim uma espécie de razoável “normalização” da estrutura narrativa da série. Mas ela faz sentido, na verdade, para evitar a alienação completa de grande parcela do público que procura uma “série de super-heróis” (fica uma aviso: conhecendo Hawley, Legion nunca será apenas isso) e para carregar a narrativa adiante. Assim como no episódio anterior, o foco é o mergulho na memória de David Haller, algo que se tornou urgente em vista do rapto de sua irmã Amy pela Divisão Três. Melanie, Ptonomy e Syd partem, então, para estratégias mais radicais para vencer o que eles percebem como barreiras psíquicas que impedem a completa leitura da mente de David.

E até certo ponto, a decisão do roteiro de Calloway de repisar eventos que vimos anteriormente, abrindo um pouco mais seus detalhes, gera frutos. Mas é possível reparar uma certa economia em verdadeira avançar a trama. Se pensarmos bem, comparando com as informações que temos dos dois primeiros episódios, não aprendemos nada verdadeiramente novo aqui. Apenas vemos mais longamente situações com que já lidamos antes. Verificamos, com um pouco mais de detalhes, que há algo sinistro que ninguém – nem David – compreende e que persegue quem quer que entre em sua mente e que seus traumas de infância giram em torno do famigerado livro infantil que seu pai sem rosto lia para ele quando criança, com direito até mesmo à manifestação do “Garoto Zangado” como uma criança vestida com cabeça de papel machê. Ptonomy e Melanie percebem que David é muito mais poderoso do que eles imaginavam e Syd – aí sim uma novidade – parece conseguir ver mais do que os demais quando está “dentro” do mutante.

O restante, inclusive a “projeção astral” dupla de David e Syd para o local de clausura e tortura de Amy é a série quase que reiterando a natureza dos poderes do Legião, com a única exceção da rápida e sensacional tomada final em que novamente olhamos em plongée para a mente de David (adoro a objetiva em formato “ocular”) com David sentado e cercado de dezenas de pessoas gritando para ele. Mas, para compreender esse breve momento, é necessário conhecer o Legião dos quadrinhos e não é meu objetivo dar spoilers das HQs aqui enquanto a verdadeira natureza do perturbado anti-herói não for revelada na série (mas sintam-se livres para analisar o assunto nos comentários, marcando com aviso de spoilers, por favor).

Portanto, pelo menos no que toca David Haller, andamos muito pouco no terceiro capítulo e isso é levemente preocupante considerando que faltam apenas mais cinco para o encerramento da temporada inaugural, todos eles, aparentemente, de duração regulamentar. Isso, porém, pode ser bom se os planos de Hawley forem realmente fixar a temporada em David, deixando as demais questões para a periferia da série pelo momento. Não seria impossível, por exemplo, que o showrunner tenha imaginado esta temporada unicamente como uma história de origem do Legião, com a latitude de seus poderes sendo revelada aos poucos e contendo apenas uma grande missão fora do auto-conhecimento: o resgate de Amy. Seria interessante, sem dúvida, ainda que arriscado considerando o público normalmente muito afoito de hoje em dia que quer tudo rápido, fácil e cheio de fogos de artifício.

Falando em periferia, aliás, é muito interessante vermos o pouco que nos é mostrado. A voz da cafeteira (eu quero uma!) que conta a história da garça e do lenhador é a do marido de Melanie, personagem que não temos ideia ainda quem é, Cary Loudermilk, o cientista local vivido por Bill Irwin começa a realmente mostrar um lado fascinante, com sua contrapartida Kerry (Amber Midthunder) surgindo “do nada” para ajudá-lo e toda a estrutura razoavelmente confinada de Summerland que cria paralelos com o Instituto Clockworks onde David estava internado. E, claro, a presença “Grilo Falante” de Lenny na cabeça de David parece que será cada vez mais constante e vital para o desenvolvimento do personagem.

Em termos de direção de arte, é chover no molhado e pouco pode ser acrescentado ao que disse nos comentários dos demais episódios. A decoração e figurinos atemporais mantém o espectador ainda sem saber com certeza quando a série se passa e a fotografia em tons claros, mas nunca fortes, amplificam essa sensação, abrindo espaço para que tudo possa ser, de uma forma ou de outra, representações da própria mente super-poderosa de David.

Já chegaremos na metade da temporada no capítulo que vem e Legion continua instigante e intrigante. O ritmo diminuiu muito claramente, além das viagens lisérgicas de Hawley, mas a marca do showrunner continua ainda fortemente presente. Agora é esperar para saber aonde é que isso vai dar.

Legion – 1X03: Chapter 3 (EUA – 22 de fevereiro de 2017)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: Michael Uppendahl
Roteiro: Peter Calloway
Elenco: Dan Stevens, Rachel Keller, Aubrey Plaza, Bill Irwin, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Katie Aselton, Jean Smart, Mackenzie Gray
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.