Crítica | Legion – 1X04: Chapter 4

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Um homem conversa com a câmera que vagarosamente se afasta dele, revelando que está vestido com figurino e penteado dos anos 70 e que está sentado em uma cadeira forrada de pele em uma sala que parece feita de gelo. Seu uísque congelou e a câmera volta para um close-up em que ele nos apresenta a duas formas de contar histórias, uma que ensina empatia e outra que ensina medo, somente para a câmera mais uma vez afastar-se para ele apresentar a história em cinco atos que vamos assistir, ligando a câmera no processo e nos revelando que, de fato, ele está dentro de uma espécie de iceberg flutuante.

Se a descrição acima dos dois minutos iniciais do episódio de metade de temporada de Legion não for suficiente para capturar qualquer leitor que não conheça a série e fazê-lo imediatamente procurá-la desesperadamente, então verifique seu pulso, pois, possivelmente, há algo errado com ele. Ou talvez ele não goste de desafios, pois Legion é desafio do começo ao fim, a começar pelo bombardeiro sensorial que cada episódio exige e que este exige mais ainda.

Aquele semblante de normalidade que pareceu tomar o episódio anterior desaparece por completo aqui com uma magnífica montagem não linear que pontilha momentos finais de ação logo a partir de seu começo, ao mesmo tempo que continua nos levando para os recônditos secretos da mente de David Haller. Ou melhor, do plano astral para onde ele se refugiou, provavelmente fugindo do tal monstro de olhos amarelos que o persegue. Mas é lá no plano astral que aparentemente vive Don Draper Oliver Anthony Bird (Jemaine Clement), marido de Melanie, cujo corpo físico, dentro de um escafandro(???) está em uma câmara gelada(???) no subsolo de Summerland. É ele que recebe David em seu mundo lisérgico e o leva até seu, digamos, escritório gelado onde vive, desmemoriado, ainda nos anos 70. Sem dúvida alguma, a interação entre Oliver e David representa um dos pontos altos de toda a série até agora, não que ela tenha ajudado a esclarecer alguma coisa, claro…

Mas pelo menos aprendemos a razão pela qual Ptonomy não consegue acessar toda a memória de David e começa a ficar claro que David é mais do que uma só pessoa. A presença dúplice de Lenny/Monstro de Olhos Amarelos como parte da viagem do anti-herói por seu subconsciente, que finalmente o catapulta para o mundo real, parece deixar esse aspecto bem claro, além da repetição da excelente imagem de diversas pessoas gritando ao redor de um David tampando os ouvidos com as mãos e da descoberta que Lenny, pelo visto, parece ser Benny…

Falando em “mundo real”, aliás, ele é também muito relativo. Mas muito mesmo. A mente da própria Syd parece ter sido contaminada pela viagem por David e, brevemente, sem saber, pelo plano astral. Ela parece sensivelmente perturbada por visões ao seu redor e percepções diferente da realidade, chegando até mesmo a indagar se não estariam todos ainda dentro da mente de David. A câmera de Larysa Kondracki, prolífica diretora de televisão, responsável por Bingo e Fifi, dois espetaculares episódios de Better Call Saul, brinca conosco também, alterado a profundidade de campo, afastando personagens com a objetiva e trazendo-os para perto imediatamente depois e inserindo pequenos sustos e pistas visuais de piscar de olhos que recheiam e impactam o episódio da mesma forma que o própria Noah Hawley fez no primeiro.

E o mesmo vale para a arquitetura sonora neste capítulo. Desde o gelo estalando de fundo na sequência inicial com Oliver, passando por vozes e sons entreouvidos aqui e ali nos vários canais surround e culminando com a sequência final de ação em câmera lenta que, no melhor estilo “clímax de Star Wars“, usa montagem paralela para lidar com Syd e Ptonomy fugindo de O Olho; Kerry lutando contra os soldados da Divisão Três; Cary canalizando a luta de Kerry e sentindo as consequências enquanto varre o quarto onde está o corpo de David e, claro, o ponto alto, Oliver dançando quase que em transe, tudo ao som de “The Undiscovered First”, de Leslie Feist.

O mais interessante é que, no meio de toda essa loucura, ainda há tempo, no roteiro de Nathaniel Halpern (responsável pela história de Outcast), para pausas que nos permitem observar a história de origem de Cary/Kerry Loundermilk, além de um interessante e possivelmente importante momento entre Amy e Kissinger na prisão da Divisão Três (até a prisão tem um design fora de série em Legion!) sobre o inexistente cachorro de David chamado King. Em outras palavras, Chapter 4 consegue ao mesmo tempo manter o mistério sobre a exata natureza de David Haller, ao mesmo tempo que intensifica nossas suspeitas sobre ele. Quem leu os quadrinhos sabe mais ou menos o que acontecerá, mas, essa lenta caminhada é magnífica pelos detalhes e por sua progressão autoral de Noah Hawley, esquivando-se ao máximo de fazer o óbvio, o banal. Legion é uma série que não é para ser assistida sem atenção ou sem se preocupar em capturar cada detalhe visual e sonoro que o showrunner bombardeia.

O episódio de metade de temporada da série não poderia ter sido melhor. O leque de possibilidades foi aberto, o plano astral foi apresentado, os poderes de O Olho foram conhecidos e o estranho Oliver, apreciador de jazz e uísque e morador de um iceberg flutuante, entrou na história. Impossível não sentir ao mesmo tempo empatia e medo pelo que Hawley está fazendo, não é mesmo?

Legion – 1X04: Chapter 4 (EUA – 1º de março de 2017)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: Larysa Kondracki
Roteiro: Nathaniel Halpern
Elenco: Dan Stevens, Rachel Keller, Aubrey Plaza, Bill Irwin, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Katie Aselton, Jean Smart, Mackenzie Gray, Jemaine Clement
Duração: 57 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.