Crítica | Legion – 1X05: Chapter 5

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estrelas 4,5

Obs: Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Não é à toa que Legion tem sua audiência reduzida a cada novo episódio. A série de Noah Hawley, que se passa dentro do universo mutante da Fox (por mais desconexo que ele possa ser), é tudo menos o que se espera dela. Nada de heróis fantasiados, de referências a personagens dos quadrinhos ou mesmo a qualquer evento dos filmes lançados até agora. Além disso, nada – absolutamente nada – é contado de forma linear, óbvia ou simples.

Vejam, por exemplo, a grande revelação do quinto episódio da série: uma entidade poderosa, talvez outro mutante, teria se esgueirado pela mente de David Haller quando ele era criança, o que explicaria seus descontroles e suas memórias “falsas”. Algo realmente interessante, mas de certa forma trivial, não particularmente complexo. Mas Hawley trata o básico de maneira sofisticada, com fortes traços autorais e, diria, até experimentais para uma série de TV, mesmo a cabo. Não há nada, a não ser alguns segundos de texto expositivo na comunicação entre Cary e Melanie (que, aliás, é visualmente sensacional, não?) e um pouquinho com Amy e a revelação de que ele fora adotado (hummm, leitores dos quadrinhos, bacana, hein?). O resto é puro deleite visual e sonoro, com a direção de Tim Mielants cortando a percepção auditiva dos personagens e, no processo, a nossa, apenas muito aos poucos fazendo a trilha não diegética reaparecer. Não se vê isso em televisão e, no cinema, essa pegada é rara, talvez inexistente, em filmes que querem trafegar fora do circuito restrito.

Reparem, também, na sequência final, com Syd voltando para a sessão de terapia em grupo em uma versão mais terrena e factível do sanatório Clockworks. Digo “terrena e factível”, pois, aqui, a direção de fotografia esmaece as cores e a iluminação do contra-luz, tornando toda a sessão em si muito mais crível do que a original que acontece em uma sala estranhamente iluminada, com uma paleta de cores mais forte e com Syd aproximando-se quase que de forma angelical, uma verdadeira miragem no deserto. E qual foi o objetivo aqui? Simples e brilhante: mexer com toda a nossa percepção do que foi a série até agora.

Afinal, será que realmente tudo aquilo que vimos até o momento aconteceu só na mente de David, talvez transmitindo para Syd naquele quarto branco que é seu plano astral e que, não sem querer, parece-se demais com o “quarto” espacial de Dave Bowman ao final de 2001 – Uma Odisseia no Espaço? No entanto, muito sinceramente, não creio que Hawley tenha cojones de chegar a esse ponto – ainda que eu secretamente deseje isso simplesmente pelo inusitado da coisa -, pois desmantelaria todo seu trabalho até aqui e afastaria ainda mais os poucos espectadores da série (os números são preocupantes, sempre em queda e mais baixos do que The Bastard Executioner, da mesma produtora, e que foi cancelada no terceiro episódio…). Mas ele quis sim brincar com a possibilidade de tudo ser apenas um complexo jogo mental, especialmente ao nos deixar justamente neste cliffhanger maroto casado com as balas da submetralhadora Thompson de Ptonomy, manuseada por O Olho depois de tomar a aparência do mutante telecinético de Summerland, aproximando-se do casal de pombinhos.

O que me leva justamente aos dois. David e Syd finalmente se tocam. Ok, no plano astral, mas real, falso, é tudo a mesma coisa, não? E Dan Stevens tem uma atuação maravilhosa aqui, com um David mais seguro de si, mais desenvolto e ao mesmo tempo mais sinistro, mas sem ser escancarado. Sabemos que há algo errado, sabemos que está tudo muito bom para ser verdade e que a felicidade de Syd é precária. Mais do que sabemos, temos certeza que algo dará muito errado, mas a questão é que nos acostumamos com o relativamente pouco desenvolvimento da trama principal por episódio nessa temporada inaugural da série. E, por isso, não esperamos muita coisa, só que muita coisa acontece, ainda que pelas vias tortas que salientei mais acima.

Ao estabelecer uma utopia nesse plano astral muito branco, o vermelho começa a vazar para o quarto e Lenny entra no jogo mais uma vez, agora deixando claro que ela é uma manifestação, uma versão do Demônio de Olhos Amarelos que atormenta o fundo da mente de David. E esse tal Demônio é que parece ser o mutante super-poderoso que vimos agir antes e que, agora, por sábia decisão do roteiro, só vemos o estrago pós-resgate na Divisão Três. David é não mais do que um vetor para o que parece ser um parasita mutante em forma de gente – tudo indica que realmente estamos falando do Rei das Sombras, dos quadrinhos – cada vez mais tornando-se senhor de si e controlador de seu hospedeiro. Por isso é que a brincadeira de “tudo se passou na cabeça de David” é tão divertida e ao mesmo tempo angustiante, pois existe uma lógica que justificaria essa situação se o showrunner decidisse bancar esse jogo.

O que realmente importa, porém, é que, agora, as peças do complexo quebra-cabeças de Hawley estão se encaixando de verdade em uma história coesa, algo que sinceramente sabia que mais cedo ou mais tarde aconteceria, mas cuja percebida lentidão poderia ser uma das razões da baixa audiência da série. A história que estamos testemunhando é de origem, como cantei a pedra lá atrás. E apenas isso. É mais do que provável que, ao final dos oito episódios, o resultado seja, única e exclusivamente, a percepção exata do que é David, especialmente porque, mesmo com o “parasita”, está muito claro que ele realmente é um mutante e que só seus poderes é que permitiram sua sobrevivência depois da invasão do Rei das Sombras. É como em Preacher, em que a história propriamente dita só começará na segunda temporada.

Faltando apenas três episódios para o final, o enigma que é David Haller finalmente começa a ser desvendado. Noah Hawley tem um plano muito bem delineado para o perturbado mutante e não há dúvidas que estamos diante de uma série única. Resta-nos divulgá-la para que ela não morra sem que seu potencial inebriante e embasbacante seja conhecido por todos e desenvolvido até seu ápice.

Legion – 1X05: Chapter 5 (EUA – 08 de março de 2017)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: Tim Mielants
Roteiro: Peter Calloway
Elenco: Dan Stevens, Rachel Keller, Aubrey Plaza, Bill Irwin, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Katie Aselton, Jean Smart, Mackenzie Gray, Jemaine Clement
Duração: 54 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.