Crítica | Legion – 1X06: Chapter 6

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estrelas 5,0

Obs: Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Agora que Legion foi renovada para a segunda temporada, posso respirar mais aliviado, sem precisar repetir – como sei que venho fazendo incansavelmente – o quanto a criação de Noah Hawley tem dificuldade de encontrar um público amplo. Mas a FX (e a Fox e Marvel, claro) tem planos maiores e resolveu seguir em frente com base não só nas críticas consistentemente boas que a série tem recebido (algo como aconteceu com Mad Men e a AMC), como também como parte de um projeto mais abrangente de um Universo X-Men (algo semelhante às renovações de Agents of S.H.I.E.L.D. na ABC). Portanto, um viva para Legion!

Afinal, a julgar pelo episódio sob enfoque, Hawley não facilitará para ninguém. O capítulo inteiro foi passado, basicamente, em um construto da realidade criado pelo parasita que assola a mente de David Haller (cada vez mais claro que é o Rei das Sombras, dos quadrinhos), representado pela antes apenas maluquinha Lenny e que, agora, se mostra sinistra e ameaçadora e isso sem falar em sua “bela” versão de olhos amarelos e corpo volumoso. Se o construto é uma versão do plano astral que Leonard e David aparentemente conseguem manipular, ainda é difícil saber.

De toda forma, por uns bons 20 ou 25 minutos, o preciso roteiro de Nathaniel Halpern, responsável pelo espetacular Chapter 4, nos deixa no suspense, ainda com a forte possibilidade de tudo até aquele momento ter sido apenas algo passado na mente de David ou na do parasita dominando a mente de David. Somos levados por um déjà-vu que reconstrói cenas chave especialmente do episódio piloto, só que com as proverbiais “pequenas diferenças” que nos desorientam e alteram nossa percepção do que já vimos.

Mas o que Halpern faz não é apenas um artifício vazio. Muito ao contrário, o episódio é, todo ele, um detido exame dos personagens da série, notadamente do grupo de Summerland e d’O Olho. Vemos que Melanie vive paralisada no tempo, em seu casulo mental onde seu marido está a seu lado. Descobrimos um pouco do passado de Ptonomy e o quanto sua memória fotográfica é um instrumento que o tortura constantemente. Aprendemos mais sobre o quanto Cary e Kerry são efetivamente conectados, como se um fosse a bengala do outro, inclusive com os dois aparecendo andando encostados, literalmente dando apoio mútuo constantemente. Por fim, entendemos um pouquinho da natureza severa de O Olho (ou Walter) que possivelmente tem origem quando ele demorou a desenvolver-se, certamente sendo alvo de valentões na escola, algo que ele repete agora com suas vítimas. Amy, por sua vez, ganha o papel de “Enfermeira Ratched“, quase que como se fosse uma forma de castigo da personagem por jamais ter contado a David sobre sua verdadeira origem.

Propositalmente, porém, Syd fica de fora desse escrutínio mais detalhado, já que ela havia ganhado desenvolvimento maior ao longo da temporada. Aqui, ela serve como a única que, sem ajuda exterior, percebe que há algo de muito errado acontecendo. É ela que nos ajuda a ver que o que se passa nessa nova versão da clínica Clockworks não é exatamente a realidade, ainda que “realidade”, na série, seja um conceito relativo. Isso fica evidente também pela fotografia levemente mais escura, acompanhada por cores de tonalidades também mais fechadas, amplificando a sensação de “já vi uma versão disso antes”.

Falando em ajuda externa, Oliver, em seu escafandro, volta a aparecer, desta vez ajudando Cary a perceber onde está e transportando-o ao plano astral como parte de um plano para libertar os demais. O mesmo vale para a sensacional sequência em que Leonard (ou, mais provavelmente, Cary) leva Melanie de volta aos momentos finais do episódio anterior – ainda em andamento, aliás – e ela tenta alterar a trajetória das balas no melhor estilo Mercúrio em Dias de Um Futuro Esquecido, mas com um twist próprio em que as balas queimam sua mão e ela não consegue mover David e Syd. Vale reparar que o roteiro faz uso basicamente do mesmo cliffhanger duas vezes, algo inédito pelo menos em memória recente.

Mas mais interessante ainda do que Melanie/Mercúrio é que o construto ou plano astral do parasita (ele mesmo faz um paralelo com um horrível fungo que cresce dentro da cabeça de formigas) é criado a partir de um local que ele próprio pode ser outro construto. É como se esse e o episódio anterior fossem a representação audiovisual – e surtada – de uma matriosca, algo ainda aumentado pelo plano astral de Oliver, que nada mais é do que ainda outro construto. O que não dá para saber ainda é se há ainda outras camadas nessa história toda, mas minha desconfiança é que há sim e que ainda é possível, mesmo que improvável, que grande parte do que vimos até o momento não seja muio mais do que criações da mente de David, manipulado ou não por Lenny.

E o que dizer da sessão de terapia entre a “Dra.” Lenny e David, espelhando as sessões de abertura do episódio? Momento expositivo, sem dúvida, mas, aqui, feito com incrível habilidade. Temos a confirmação da natureza do mutante parasita e que ele/ela conhecia o pai biológico de David, pai esse que tentara esconder o filho justamente dessa ameaça. Interessante, não? Noah Hawley está muito próximo de fazer a “grande conexão” da série com o universo mutante, mas ele certamente ainda dourará a pílula por mais algum tempo.

Essa sequência toda, aliás, não só finalmente dá o merecido destaque a Aubrey Plaza, permitindo que ela demonstre toda sua latitude como atriz (que momento “Cabaret” foi aquele ao som de Feeling Good revisitando todo os cenários/memórias/versões da realidade da temporada, hein?) como discute questões interessantíssimas, filosóficas mesmo, com uma pegada tenebrosa. Afinal, não é toda série que faz perguntas como “para que servem os bebês” ou “para que serve a vida”, não é mesmo? Se o objetivo era mostrar o quão sombrio é esse plano de longo prazo de Lenny, Halpern definitivamente conseguiu.

A enorme, estilosa, sofisticada e deliciosa salada televisiva que é Legion está chegando ao fim. Noah Hawley conseguiu avançar bem na narrativa com esse episódio, deixando tudo razoavelmente delineado para o possivelmente vindouro conflito entre David e Lenny. Por outro lado, o próprio David não parece estar muito mais próximo de efetivamente entender o que é, o que pode significar que, realmente, esta primeira temporada é apenas o começo de tudo.

Legion – 1X06: Chapter 6 (EUA – 15 de março de 2017)
Showrunner: Noah Hawley
Direção: Hiro Murai
Roteiro: Nathaniel Halpern
Elenco: Dan Stevens, Rachel Keller, Aubrey Plaza, Bill Irwin, Jeremie Harris, Amber Midthunder, Katie Aselton, Jean Smart, Mackenzie Gray, Jemaine Clement
Duração: 53 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.